Augusto de Campos

Tropicália
Philips - 1968

[...] Os compositores e intérpretes de Tropicália nem ignoram a contribuição de João Gilberto, nem pretendem continuar, linearmente, diluindo-as, as suas criações. Eles deglutem, antropagicamente, a informação do mais radical inovador da BN. E voltam a pôr em xeque e em choque toda a tradição musical brasileira, bossa-nova inclusive, em confronto com os novos dados do contexto universal. Superbomgosto e supermaugosto, o fino e o grosso, a vanguarda e a jovem guarda, berimbau e beatles, bossa e bolero são inventariados e reinventados, na compressão violenta desses discos-happenings onde até o redundante "coração materno" volta a pulsar com os tiros de canhão da informação nova.

É essa abertura sem reservas para o novo que é responsável também por um fato inédito em nossa música popular: a colaboração íntima com músicos eruditos de vanguarda, como Rogério Duprat, numa associação incomum mesmo no plano mundial. E que faz com que as linhas mais avançadas da música de vanguarda – música eletrônica e antimúsica – se encontrem com a música popular numa implosão informativa da qual tudo pode resultar, inclusive uma nova música, uma música ao mesmo tempo de "produção e consumo", ou de "produssumo" como diria Décio Pignatari.

Em vez de fazer a revolução musical na epiderme temática, Gil, Caetano, e seus companheiros, estão fazendo uma revolução mais profunda, que atinge a própria linguagem da música popular. Por isso mesmo eles incomodam, mais do que muitos protestistas ostensivos, logo assimilados pelo Sistema. [...]

inBalanço da Bossa e outras bossas - Ed. Perspectiva, 1978