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Afoxé é
Gilberto Gil

Ê-ô, ê-ô
Ê-ô, ê-ô
É bom pra ioiô
É bom pra iaiá

O afoxé é da gente
Foi de quem quis
É de quem quiser
Sair do Pé do Caboclo
Até a Praça da Sé

O afoxé é semente
Plantou quem quis
Planta quem quiser
Tem que botar fé no bloco
Tem que gostar de andar a pé

Tem que aguentar sol a pino
Tem que passar no terreiro
E carregar o menino, oh, oh
Tem que tomar aguaceiro
Tem que saber cada hino
E cantar o tempo inteiro, oh

O afoxé, seu caminho
Sempre se fez
Sempre se fará
Por onde estiver o povo
Esperando pra dançar

O afoxé vai seguindo
Sempre seguiu
Sempre seguirá
Com a devoção do negro
E a bênção de Oxalá


BRWMB9900453
© Gege Edicoes / Preta Music (EUA & Canada)



Ficha técnica da faixa:
arranjo, voz e violão Ovation - Gilberto Gil
guitarra - Celso Fonseca
piano Yamaha - Gerson Santos
coro e palmas - Gerson Santos
piano Rhodes - Jorjão Barreto
baixo - Rubens Sabino (Rubão)
bateria e agogô - Wilson Meirelles
arranjo - Gilberto Gil e Banda Um
coro e palmas - Gilberto Gil, Jorjão, Gerson Santos, Pi

Outras gravações:
"Um banda um", Gilberto Gil, Warner music

"O afoxé como uma forma, celebradíssima, de candomblé de rua - lúdica, em vez de religiosa. Todo o ritual que se reconstitui em torno do desfile. Os requisitos necessários para se poder participar do bloco; o estoicismo requerido: o pai que faz o percurso inteiro (saindo da Praça da Sé até o Campo Grande e voltando: como no desfile dos Filhos de Gandhi, no carnaval da Bahia) carregando o filho nas costas, para iniciá-lo na tradição.

"Afoxé É se refere a uma mandala da coesão comunitária; trata-se de uma evocação do gregário, uma convocação à participação. A canção fala, não do ser individual, mas do ser social e suas implicações. Quer dizer: do sacrifício que um indivíduo faz para ser um partícipe; de em que grau o coletivo se sobrepõe ao individual com qualidade, valor e vantagens; de quando é melhor, no sentido de necessário, deixar de ser um para ser muitos. Daí, remeter para o ritual, a celebração grupal; para arquétipos cívico-religiosos.

"Não é, contudo, o objeto da crença - não é Deus - que é comentado na canção, ou o que nela comove, mas o humano, demasiadamente humano; o compromisso do homem com a comunidade. A Revolução Francesa inaugurou a fase popular da história e trouxe os humanismos todos que desembocaram no sentido democrático, aquilo que o Nietzsche, por um lado, critica muito: a fraqueza do homem moderno - é essa nossa fraqueza que nos comove. Somos código genético programado pra viver essa fase da história, essa coisa Spártacus; tudo que diz respeito às libertações, às ações em nome da igualdade, às idéias de socialismo, nos são comoventes. Toda vez que a comuna é reunida, há comoção."

Sobre o caráter peculiar da rima "Caboclo / bloco" e a relação dela com o conteúdo geral da música - "Uma rima distante: uma tele-rima pela distância. Gosto dessas rimas que explodem lá adiante; quando você ouve o segundo termo, este remete àquela palavra que já passou muito tempo antes. No caso de 'Caboclo / bloco' em Afoxé É, isso fica especialmente bonito porque a rima contém em si o sentido da canção, que trata de algo que já é movimento em bloco. A idéia de percorrimento de um trajeto é reiterada na ocorrência da rima, que só acontece depois de você percorrer um certo espaço da canção."