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Cada tempo em seu lugar
Gilberto Gil

Preciso refrear um pouco o meu desejo de ajudar
Não vou mudar um mundo louco dando socos para o ar
Não posso me esquecer que a pressa
É a inimiga da perfeição
Se eu ando o tempo todo a jato, ao menos
Aprendi a ser o último a sair do avião

Preciso me livrar do ofício de ter que ser sempre bom
Bondade pode ser um vício, levar a lugar nenhum
Não posso me esquecer que o açoite
Também foi usado por Jesus
Se eu ando o tempo todo aflito, ao menos
Aprendi a dar meu grito e a carregar a minha cruz

Ô-ô, ô-ô
Cada coisa em seu lugar
Ô-ô, ô-ô
A bondade, quando for bom ser bom
A justiça, quando for melhor
O perdão:
Se for preciso perdoar

Agora deve estar chegando a hora de ir descansar
Um velho sábio na Bahia recomendou: "Devagar"
Não posso me esquecer que um dia
Houve em que eu nem estava aqui
Se eu ando por aí correndo, ao menos
Eu vou aprendendo o jeito de não ter mais aonde ir

Ô-ô, ô-ô
Cada tempo em seu lugar
Ô-ô, ô-ô
A velocidade, quando for bom
A saudade, quando for melhor
Solidão:
Quando a desilusão chegar


BRWMB9900465
© Gege Edições / Preta Music (EUA & Canada)



Ficha técnica da faixa:
voz e violão - Gilberto Gil
teclado - Jorjão Barreto
percussão - Marçalzinho

Outras gravações:
"Carol Sabóia", Carol Sabóia, Jam Music
"Origami", Josyane Melo, Chita Produções
"Cada tempo em seu lugar", Cacala Carvalho e João Braga, Mills Records 2012
"O eterno Deus mu dança", Gilberto Gil, Warner Music 1989
"The eternal god of change", Gilberto Gil, Warner Music 1989
"Healing select bossa nova", Gilberto Gil, Warner Music 2007
"Origami", Josyane Melo, Chita Produções 2007
"Céu e mar", Leila Pinheiro e Nélson Faria, Biscoito Fino 2013

"Um auto-retrato autocrítico.
O começo versa sobre a atuação política no mundo; a ilusão de que a transformação pode ser feita segundo o seu lema, sua imagem; de que ela não é um processo lento, contraditório, cheio de altos e baixos e de vaivens, ao invés de um escorrer no tempo; e o fato de que muitas vezes ela é imperceptível, misteriosa, e o afã humano de que ela seja algo dominável é uma panacéia, coisa das ideologias. Muito a ver com eu ter ido para a política, tentar dar uma contribuição, como gratificação egoísta de desejo.

"Eu tinha passado pela Secretaria de Cultura, tentado a Prefeitura, vivido dois anos intensamente conflituosos da vida política em Salvador. Estava na Câmara, quando compus a música. Há nela um tom de lamento de The Fool on The Hill: o homem solitário, na montanha, apreciando o mundo louco; louco, também, de vê-lo e ser parte dele.

"Na segunda estrofe, outra auto-crítica: à mania de bondade. E na última, à irracionalidade do ímpeto como algo de eficácia indiscutível; à pretensão de que do impulso decorra tudo que se quer (ali, também, uma referência oculta a Caymmi: 'Um velho sábio na Bahia').

" 'Cada tempo em seu lugar': pra passar mais uma vez essa idéia de indissociabilidade do tempo-espaço, de que eu gosto muito."