O poético e o político
 
O poético e o político
Antonio Risério/Gilberto Gil - São Paulo
Paz e Terra - 12/1988
ISBN: -----------

Ainda não sabiam em 1970 o que fazer com a Gare d'Orsay, a imensa estação de ferro do século XIX à beira do rio Sena, em Paris. O hotel d'Orsay, dentro da estação, desativado, havia se transformado em cenário de filme. Seus corredores viram até "racha" de motocicletas. Havia shows também. Numa noite, depois de ultrapassar o labirinto de corredores, numa aura de iluminação imprevisível, lá estava Gilberto Gil, um palco improvisado num salão pesado de lustres e dourados, cantando. Muitos anos depois, em 1988, Severo Gomes promove no Senado um seminário sobre cultura negra, no centenário da Abolição. Lá estão em cada canto da mesa Antonio Candido e Gilberto Gil.

Insólito encontro. Somente nas imagens, do mais despojado crítico e teórico da literatura e do mais exuberante de nossos cantores-poetas. O confronto parava ali. Depois de Antonio Candido falava Gilberto Gil, envolto num traje azul, que podia ser africano, e sandálias. O que se ouviu ali sobre a cultura negra no Brasil foi de extremo rigor e precisão. É claro que a poesia estava envolvendo toda a fala. Uma indignação armada de conceitos, sem concessão à emoção fácil. E no debate, uma abertura para o diálogo, nenhuma nota de triunfalismo. O encantamento da audiência não era só com o grande artista mas com um pensamento crítico, agudo, implacável sem perder a sensibilidade.

Este livro, que em boa hora reúne textos inéditos, algumas entrevistas (Gilberto Gil sempre foi mágico nessa forma de diálogo público) e poesias de Gilberto Gil e Antonio Risério, permite o reencontro com a aura daquele debate. Uma confluência extraordinária entre um exercício de transparência sobre as terríveis e bárbaras condições da vida do povo brasileiro e apontamentos de enorme lucidez sobre as possibilidades de ir além dos obstáculos. Por novas vias, fora de caminhos batidos, das interpretações convencionais.

E claro que o desvendamento da Abolição está feito em textos completíssimos que devassam as escravidões do presente. Mas são todas as relações na sociedade que estão em causa, rompida a dissimulação do discurso ou da dominação. Sem deixar de lado a prática política, que irrompe agora como uma via necessária para a libertação. Sem abalar a força da imaginação e da poesia. Um Gilberto Gil na sua melhor e mais completa fase.

Os editores



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