Gil, Nando e Gal Costa dividem palco em Curitiba

A moça, o rapaz maduro calejado pela idade e o menino impetuoso e viril. Gal Costa, Gilberto Gil e Nando Reis são apresentados assim em “Trinca de ases“, música inédita do baiano que batiza o show que o trio estreou em São Paulo e chega a Curitiba no dia 08 de dezembro, para única apresentação no palco da Ópera de Arame. “Três mosqueteiros, três patetas, três poetas da canção”, como descritos em outro verso da canção, juntos para celebrar a história de cada um, como elas se cruzam e o novo que brota do encontro. Os ingressos estão à venda a partir de R$235.

A reunião foi realizada pela primeira vez no ano passado, em Brasília, em homenagem ao centenário de Ulysses Guimarães – idealizada pelo jornalista Jorge Bastos Moreno. Naquela noite de caráter especial, realizada quase sem ensaio, mostrou-se a potência da união: o diálogo dos violões de Gil e Nando, a voz de Gal revendo as canções do amigo baiano e revelando outras cores da estranheza pop do paulistano e sua “música ruiva”, que ela nunca tinha cantado. Agora, esta potência aparece lapidada – e ampliada. Além de estarem os três o tempo inteiro no palco, em todas as formações vocais possíveis (trios, duetos e solos), eles têm o reforço de dois músicos: o baixista pernambucano Magno Brito, integrante da banda Sinara; e o percussionista baiano Kainan do Jêjê, que trabalha com Ivete Sangalo e também com a Sinara. Como os três mosqueteiros eram quatro, a Trinca de Ases tem cinco em sua composição. Ou sete, como multiplica Gil entre a poesia e a graça:

Seremos três cantores e quatro músicos.

Ou ainda mais, pelo que se viu no primeiro encontro. Gal soa ora clássica (em “Esotérico”, na primeira vez em que a apresenta em dueto com Gil), ora nova (em “Segundo sol”), ora ambas (em “Dois rios”, parceria de Nando e Samuel Rosa que o próprio compositor nunca tinha tocado ao vivo até ali). E não só dois, mais muitos violões, híbridos, surgem quando os instrumentos de Gil e Nando se cruzam, em canções como “Por onde andei” e “A novidade” – numa relação de fascínio mútuo:

Fico muito encantado com o violão rock-folk de Nando, ao mesmo tempo aquilo tudo adaptado às suas canções tão brasileiras – define Gil, que no show de Brasília chegou a dizer que gostaria de tocar como Nando, que na mesma hora respondeu: “Quer trocar?”

Agora, o paulistano reafirma sua devoção:

-Lembro quando “Expresso 2222” chegou lá em casa, o impacto que causou. E como aquilo, quando eu comecei a tocar, já estava em mim.

Gal também ocupa um lugar nobre na árvore genealógica musical de Nando:

Depois de minha mãe, a voz que mais traçou os contornos de minha música foi a de Gal – diz o compositor, que prepara duas inéditas para o show, uma delas em homenagem à cantora.

Gal reconhece a descendência (“Nando é nosso filho”, brinca). Com Gil, o “pai”, ela tem uma longa lista de parcerias: o show “Nós, por exemplo” (1964); o álbum-manifesto “Tropicália ou Panis et Circensis” (1968); a turnê dos Doces Bárbaros (1976); o show em Londres (gravado em 1971, mas lançado em disco só em 2014). Nando é o “menino impetuoso”, o elemento novo na equação que chega como catalisador, gatilho de outros caminhos – num espetáculo com direção musical do trio e assessoria artística de Marcus Preto, que dirigiu Gal em “Estratosférica”.

Tenho uma longa relação com Gil, mas quando Nando entra isso já vira outra coisa. Vou cantar coisas de Gil que nunca gravei – anuncia a cantora, referindo-se a um roteiro que vem cheio de surpresas. – Eu e Gil temos essa coisa de nos lançarmos nos abismos musicais. O arrojo é algo nosso.



in Curitiba Cult, 20.09.2017
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