Caetano e Gil completam 100 anos de talento e vanguarda

Pasquale Cipro Neto

Sobem as cortinas. No fundo do palco, um grande painel com bandeiras dos Estados brasileiros. Já sentados em seus banquinhos, violões em punho, Caetano e Gil abrem o show com "Back in Bahia" (de Gil), bela, madura e contundente reflexão sobre o exílio ("Ilha do norte, onde não sei se por sorte ou por castigo dei de parar").

O que vem a seguir é uma torrente de maravilhas, em que se alternam temas político-sociais e canções doces.

O repertório evidencia a vanguarda de Gil e Caetano. "Tropicália" (de Caetano) e "Marginália II" (melodia de Gil, letra de Torquato Neto), por exemplo, poderiam ser compostas no ano que vem.

Depois de seis canções antigas, eclode a recente e forte "As Camélias dos Quilombos do Leblon", de Gil e Caetano, magistralmente interpretada por ambos. Escrita em 2015, depois da visita dos dois a Israel, a canção funde a paisagem das "tristes colinas ao sul de Hebron" ao bairro carioca do Leblon, no qual havia um chácara em que se refugiavam escravos. Lá se cultivavam camélias, um dos símbolos do abolicionismo.

Diz a letra: "As camélias da Segunda Abolição / Cadê elas? / Somos assim, capoeiras das ruas do Rio / Será sem fim o sofrer do povo do Brasil? / Nele e em mim / Vive o refrão / As camélias da Segunda Abolição / Virão".

Um pouco depois, Caetano canta deliciosamente a deliciosa "Odeio". No refrão ("Odeio você, odeio você, odeio você..."), a plateia gritava "Temer", e Caetano fazia aquela cara de Caetano, irreverente, franzindo a testa, movendo os olhos, lembrando a Gioconda.

Depois de "Drão" (de Gil), outro ponto altíssimo do show, Gil canta "Não Tenho Medo da Morte", soco no estômago de quem tem melindres para ouvir ou falar do tema. A dramaticidade da interpretação de Gil, quase "a cappella", com a voz um tanto rouca, é reforçada pelos toques na primeira corda do violão e pela batida com a mão no próprio violão. Ninguém respira no auditório.

Terminada a canção, a plateia aplaude de pé o grande Mestre. "Saúde!", "Vida longa, Gil", dizem as pessoas. O momento é de pura comoção.

Gil encanta pela postura tranquila, serena, doce. É lindo ver a sua cabeça branca e o seu sorriso de menino quando interpreta canções como "Toda Menina Baiana", "Esotérico", "Andar com Fé".

Havia muito zum-zum sobre a saúde de Gil e a sua aptidão para o espetáculo. Gil foi maravilhoso, perfeito. Deu até alguns dos seus agudos.

E quando chegou a vez de cantar "Domingo no Parque"... Nova comoção. E Gil segurou firme, até o fim.

Há algum tempo, Caetano disse que o Brasil ainda não tinha feito por merecer a bossa nova. E ainda não fez. Assim como ainda não fez por merecer a grandiosidade de Caetano Veloso e Gilberto Gil.

Muito da história dos últimos 50 anos do Brasil está na obra desses dois grandes brasileiros. E também muito do que veio antes deles, já que eles sempre tiveram a inteligência e a generosidade de buscar e mostrar o nosso glorioso passado, na música, na literatura, no cinema e onde mais isso for possível.

O espetáculo que celebra os mais de 50 anos do encontro deles retrata um pouco de toda essa maravilha. É isso.



in Folha de SPaulo, 19.09.2016
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