Cortejo Afro: Carnaval na Bahia com Gilberto Gil

Alberto Pitta

Estamos em janeiro, mas o Carnaval já começou em Salvador... Na última coluna eu contei sobre os agitos eletrônicos no sul da Bahia e minha viagem a Cumuruxatiba. Pois bem, subi mais um pouquinho e parei no epicentro do carnaval brasileiro: Salvador!

Posso estar parecendo meio bairrista com a minha colocação, mesmo porque minha familia é inteira daqui, mas é a mais pura verdade.

Tudo começa aqui, aliás, desde o descobrimento do Brasil (risos). É aqui que começam os hits do verão, as coreografias, o tititi de famosos... Até agora há pouco, circulava por aqui o diretor espanhol Pedro Almodovar, hospedado na casa de Caetano, que veio para uma longa temporada de verão.

Muita coisa de música acontecendo na cidade e vou começar é claro, pelo bloco que se tornou digamos, uma tradição contemporânea do carnaval baiano: o Cortejo Afro.

Fundado pelo artista plástico e compositor Alberto Pitta (sim ele é meu primo-irmão de primeiro grau), desde 1998 o Cortejo Afro contou com colaborações importantes para se tornar aos 20 anos de idade um dos blocos mais festejados da cidade.

Sem abadás e, sim, fantasias com os panos e estampas que consagraram Alberto Pitta, o bloco agrega a platéia mais eclética que se pode encontrar em um bloco afro: intelectuais, artistas, boemios e gente bonita.

Vocalistas do Cortejo Afro que homenageia Gilberto Gil

Não há distinção de raça para participar ou qualquer outro esquema, o Cortejo é de todo mundo e para o mundo todo. E esse ecletismo invade o palco da banda que além de 6 ótimos cantores, recebe a cada semana um convidado especial, para agitar as mais de 3 mil pessoas que lotam a Praça das Artes no Pelourinho toda semana para assistir aos ensaios.

Minha ligação com o bloco é intensa claro, já fiz duas músicas tema Panos Bonitos, em homenagem a obra de Alberto e Agua Tudo, música que fiz para o ano que tivemos Preta Gil como vocalista e acabei gravando com novos arranjos em meu primeiro disco.

Esse ano o tema é Gilberto Gil, e acabei de compor com o diretor Estevão Ciavatta e meu primo uma nova canção que diz: "Quem Descobriu o Brasil foi Gilberto Gil".

O Cortejo é passagem obrigatória para quem está em Salvador em alguma segunda feira do verão. Estavam no ensaio Luana Piovanni, Regina Casé, Compadre Washington, Paulo Borges, Fause Haten, entre outros fãs do bloco e da arte de Pitta, entusiasmados pela bateria do mestre Gordo.

Ontem, ficou ainda melhor com a entrada de uma orquestra compactada, regida por nada menos do que o maestro italiano Aldo Brizzi. Aldo fez a pedido de Alberto, doze arranjos para canções clássicas de Gil, então quem for aos ensaios a partir de agora vai encontrar tchello, violinos piano, e metais acompanhando a percussão do Cortejo Afro.

Um presente para os olhos e para os amantes de Gil e da música brasileira.

Além do Cortejo, fui em coisas muito bacanas, como no terno de Reis em Santo Amaro, onde sai em procissão pelas ruas com Caetano Veloso e filhos, teve o Museu do Ritmo onde o mestre Carlinhos Brown fez um show para saudar o Senhor do Bonfim com participação do Diogo Nogueira e Timbalada, vi Moraes Moreira cantar seus maiores sucessos no largo de Santo Antonio, em um evento que pasmem...rs parecia uma mercadinho no Brooklyn em Nova York.

Vi o Araketu e seus zilhões de hits, sofrendo a troca de vocalistas, e também no clima mercadinho de pulgas para milhares de pessoas, a poderosa Margareth Menezes e seu Mercado OIÁ, na Ribeira.

O mercado é uma locação maravilhosa para o show e a feira de artesanato que Maga armou ao redor de seu espetáculo. Claro, de convidada especial a "Madonna Baiana" Daniela Mercury, que também era estava no ensaio do Araketu.

Daniela parece estar na corrida para sua música, Cidade da Música, ser eleita a musica do carnaval. Onde ela vai, canta, com sua energia que parece infindável. Ninguém desliga Daniela Mercury ao vivo.

Mas pode correr muito Daniela, porque os baianos parecem já ter elegido duas canções esse verão: "me libera nega" de Mc Beijinho, que conheci visitando uma amiga.

Mc Beijinho causou polêmica ao assumir que roubou um telefone para gravar sua canção. Polemicas e julgamentos a parte logo ganhou o carinho de Caetano, que fez um video viral, onde canta e toca no violão "me libera nega".

Pronto faltava isso para explodir e explodiu, Nesse dia na casa dessa minha amiga querida, Caetano ouviu ainda mais canções de MC Beijinho como em um sarau. Foi ótimo.

A outra música eleita pelo povo, tem uma frase inesquecivel: "não preciso mais beber ou fumar maconha, tua presença, me deu onda..." risos. Essa amei de paixão, e em qualquer rodinha de praia, festa, no onibus, na mansão ou na favela, o assunto é essa música. Do Oiapoque ao Chuí.

E isso, como diz uma expressão popular baiana: só se vê na Bahia!!!!



in Diário de São Paulo, 18.01.2017
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