Marcado por temas políticas, último ensaio do Cortejo Afro tem participação de Gil

Foi bonito ouvir a voz de Gilberto Gil ressoar nas ruas do Pelourinho. Se desse para ver do alto, a multidão na Praça das Artes contrastaria com as ruas desertas do final da noite desta segunda-feira (20). Ao lado direito e ao fundo do mestre, os músicos do Cortejo Afro, anfitriões da festa, o admiravam ou ajudavam no compasso de sua música em um show político (não poderia ser diferente com essas duas potências no palco).

Antes da apresentação musical, o letrista Carlos Rennó, que se identificou como amigo do Cortejo, antecipou no microfone o contexto da música que abriria a participação de Gil no show horas depois. Ele lembrou que há exatos 40 anos Gil lançava “Não Chores Mais”, uma versão do baiano de “No Woman, No Cry” para denunciar os presos e mortos da ditadura.

Rennó defendeu ser essa uma música atualizada em 2017 por conta de uma “realidade mais opressiva e numerosa que é a dos jovens negros presos e mortos nas periferias do Brasil”. A frase da campanha da Anistia Internacional grafada em sua camisa, “Jovem Negro Vivo”, junto com o seu discurso, pôde ser interpretada por desavisados como: a voz do preto não é só divertimento, mesmo em ensaio pré-carnavalesco. Ela é também resistência e, novamente, política.

Homenagem batucada

Homenageado este ano pelo Cortejo Afro, Gil lembrou como esses atributos do canto dos blocos afros foram e são importantes para o desenvolvimento da cultura brasileira. “Curiosamente o Cortejo é o último a surgir depois do Olodum, Ilê, Muzenza, em 1988. É o bebê dos blocos afros e tem uma proposta muito importante, do designer, da moda...”, afirmou Gil.

Sem modéstia, ele revelou encarar com naturalidade receber homenagens como a do CorteGil. “É interessante a gente ter homenagem em vida. Depois de um certo tempo, tendo tido uma certa atuação na vida cultural do país, e especialmente na Bahia, as homenagens acabam aparecendo e pra mim são muito naturais. Como é natural homenagear Caymmi, Dodô e Osmar e tantos outros”. Quem pode discordar?

Ele só dispensou o título de descobridor do Brasil, dado poir Alberto Pitta em tom poético em uma das músicas do grupo que lhe homenageia. Veja no vídeo seu depoimento:

Musica e política do beijo

Mesmo antes da participação de Gil, que já avisou que vai pegar leve neste Carnaval para conservar a saúde, as músicas dele estiveram presentes no repertório do show do Cortejo. Aloísio Menezes, por exemplo, aqueceu o coração da plateia ao cantar “Super-Homem - A Canção”.

Acompanhado do Núcleo de Ópera da Bahia e do maestro Aldo Brizzi, Gil cantou clássicos como “Expresso 2222” e “Andar com fé”. Já no final da apresentação, o compositor de “Aquele Abraço” tirou o riso e os aplausos da plateia ao comentar uma entrevista que viu na TV do deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-SP). “(Ele disse) ‘lá em casa não se criou o hábito de ninguém se beijar. Nem pai, nem filho nem ninguém’. Eu achei engraçado. Lá em casa não, lá em casa nós criamos esse hábito. Há casas... e casas”, brincou o pai da Bela, da Preta, do Bem, da Nara, da Maria, da Marília, e do Pedro.

Abertura da participação de Gil no último ensaio da temporada do Cortejo Afro



in Correio 24 horas, 21.02.2017
2536 registros:  |< < 1 2 3 4 5 6 7 8 > >| 
 
2009 © Gege Produções Artísticas Refazenda fez