'É no palco que refaço as energias', diz Gilberto Gil

Henrique Porto

Forró, reggae, samba-de-roda... É Gilberto Gil de volta aos palcos brasileiros na estréia da turnê “Banda larga cordel”, mesmo nome que batiza seu primeiro CD de canções inéditas em 11 anos. Os cariocas terão a oportunidade de conferir o novo espetáculo neste fim de semana (18 e 19), no Vivo Rio. E, dessa vez, verão o artista por inteiro, não mais tendo que dividir a agenda entre a música e os compromissos como ministro da Cultura.

“É difícil dizer, mas é possível e provável que essa experiência política influencie minha obra daqui por diante”, avaliou o compositor, recém-chegado de uma temporada no exterior, que incluiu Canadá, Estados Unidos, Japão, Argentina e Paraguai.

Ainda com disposição de rodar o mundo tocando e cantando, Gil conta que as excursões hoje são menos extensas do que em outros tempos (“já sou um rapaz de 66 anos”), mas reconhece que o palco é o lugar de recarregar as energias. “É ali o grande banquete, é onde me farto”, explica.

Gil recebeu a equipe de reportagem do G1 em sua produtora, na Zona Sul do Rio de Janeiro, e conversou com exclusividade sobre o novo disco, música, tecnologia e política. Confira trechos do bate papo também em vídeo.

G1 – Como foi o processo criativo de seu último disco?
Gilberto Gil —
Em “Banda larga cordel” reuni canções que compus nos últimos 11 anos, com exceção de “A faca que o queijo”, que já existe há mais tempo. Venho mexendo com gêneros propriamente brasileiros e esse disco, mais uma vez, reitera isso. Não o vejo como uma novidade em si. É como “Parabolicamará” ou “Quanta”... Esse último, sim, era um disco ambicioso no sentido conceitual, querendo discutir questões científicas e artísticas.

G1 – O Sr. acabou de retornar de uma excursão internacional. Como é a receptividade do seu trabalho como músico no exterior?
Gil —
O que acontece é o seguinte: temos na Europa, no Japão e nos Estados Unidos um público que já tem referências da música pop brasileira, com certa ênfase na bossa nova, que é o elo mais firme. É o que eles mais conhecem e o que mais identificam como música brasileira. Apesar disso, muita gente também vem seguindo o pós-bossa nova, se interessando pelo tropicalismo e por artistas subseqüentes ao movimento, como Ivan Lins, Djavan, Carlinhos Brown, Marisa Monte, Lenine... Todo esse pessoal tem hoje um pequeno nicho desse território brasileiro no exterior. Eu sou um deles. No meu caso, estamos falando de fãs que vêm se acumulando há 20, 30 anos. Já é um pouco como no Brasil.

G1 – E como anda a disposição física para mais uma turnê?
Gil —
Não é mais como no tempo de “Refazenda” e “Refavela”, em que fazia 200 shows por ano e passava por 60 ou 70 cidades. O “Banda larga” deve ir a umas 20 cidades, que já está de bom tamanho. Antigamente, fazia nessas excursões quatro ou cinco shows seguidos. Agora não pode ser mais assim. Eu sou um rapaz de 66 anos (risos). Mas o palco é o lugar de refazer as energias. É o grande banquete. É ali que eu me farto. Ali eu danço, canto, toco, mostro minha poesia, mostro minha música, minhas composições e arranjos, a forma de me relacionar com os novos timbres e novos instrumentos.

G1 – De onde vem esse seu interesse por ciência e tecnologia?
Gil —
É um fascínio que tenho desde criança. Gosto de estar ligado ao pioneirismo disso tudo e de acompanhar essa transferência que o Homem tem feito para o mundo mecânico, para as máquinas. Essa concessão de espaço que damos aos mundo automático e matemático, que vai tomando conta da vida da gente. Como já previa Nietzsche, é a consciência dando espaço para novas formas de vida e novas formas de Humanidade. Tenho muito interesse por ciência, cibernética, nanotecnologia e biotecnologia. Sou um curioso, fico acompanhando essas possibilidades: onde a ciência, a técnica, a filosofia e a política estão indo? Fico ligado nessa transformação conjunta que a Humanidade vai sofrendo.

G1 – Você é um dos grandes entusiastas da internet. Como se dá essa relação entre sua obra e a rede?
Gil —
Sou um disponibilizador, disponibilizo minha obra para esses experimentos. Não gosto de ser um artista com sua própria visão fechada das coisas, uma visão de exploração de um determinado território seu. Quero reexperimentar e abrir espaços. A internet mostra muito claramente que é isso o que está acontecendo.

G1 — Três meses após sua saída do Ministério da Cultura, como o Sr. avalia esse trabalho?
Gil —
Posso dizer que me preocupei com elementos básicos enquanto gestor da cultura no Brasil. Como fazer essa associação entre economia, cultura e distribuição de renda. A questão das verbas: continuar fazendo um trabalho convencional de repasse ou incluir novas áreas? Identificar os incluídos e excluídos nesse processo, avaliar se esses recursos estão sendo distribuídos para alguma coisa realmente relevante. Como investir em novas áreas e instrumentalizar novas potencialidades que não estão nos museus e nas bibliotecas. Cuidar da cultura que ainda não é consumida porque não encontrou espaço para se expressar ou porque não chegou àqueles economicamente deprimidos. Esse foi o papel do Ministério, evidentemente junto de outros setores da sociedade. Levamos esse discurso sob a necessidade de haver um reprocessamento em função dessas emergências, dos novos necessitados dos recursos públicos e privados para a cultura.

G1 — O Sr. carrega alguma espécie de culpa com relação à sua gestão política?
Gil —
Não. Qual seria a culpa de ter desejado, tentado e, de alguma forma, conseguido realizar um trabalho público para o Estado brasileiro?

G1 — O Sr. acha que o trabalho como ministro vai influenciar seu processo criativo daqui pra frente?
Gil —
É difícil dizer, mas é possível e provável que sim. Muita coisa ficou na memória e no coração: as imagens da nossa gente, as manifestações e expressividade cultural brasileiras, nossas heranças indígenas, africanas, européias e asiáticas. Isso tudo acabou me impressionando muito. Claro que já tive essas experiências como artista. Mas, como ministro, tive a oportunidade de ver além das platéias. Acho que, de alguma maneira, vai impactar sim o futuro da minha criação, da minha música, da minha poesia e do meu discurso. É natural que assim seja.



in G1, 18.10.2008
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