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Gil,cada vez mais virtual

Ana Cristina Pereira

Pela internet, o cantor e compositor falou sobre novo disco com jornalistas do Brasil e do exterior

A palavra compartilhamento permeou o discurso de Gilberto Gil durante a coletiva virtual de lançamento de Banda larga cordel, seu primeiro disco totalmente de inéditas nesta década. Direto do Rio de Janeiro, ontem, o ministro da Cultura respondeu a uma saraivada de perguntas, de jornalistas de todo o país e do exterior, reiterando, de muitas maneiras, seu interesse pelas novas formas de criação, divulgação e disponibilidade pública de sua obra. A própria entrevista pode ser lida na íntegra no site www.comunique-se.com.br.


No plano artístico, refletiu Gil, estas novas dimensões estão abalando todas as relações. A sua com a Warner, por exemplo. Ele responde por todas as etapas do trabalho (criação, produção, gravação) cabendo à gravadora apenas a distribuição do disco físico, que chega às lojas do Brasil e de outros 27 países no dia 17 de junho. Na mesma data, as 16 faixas podem ser adquiridas no varejo da internet, como bem desejar o freguês.

“Não preciso me preocupar mais com a ordem das músicas. Cada um monta o disco que quiser”, afirmou um jovial Gil, acrescentando que o objetivo é aumentar as possibilidades de divulgação e não enfrentar a pirataria. Ele caçoou até da velha idéia de projeto que norteava os artistas, que ia da capa à melhor seqüência de apresentação das músicas. “O máximo que consegui foi colocar um nome no disco”, disse. E escolheu um que propõe o diálogo da modernidade com a tradição, para ratificar todos os seus interesses.


As novidades são extensivas ao processo de criação. Gil escolhe como exemplo a música Oco do mundo. Fez a letra numa viagem para a Espanha. Quando chegou, mostrou ao filho Bem – que agora integra sua banda como baterista – e disse mais ou menos o que queria em termos de sororidades. O rapaz contrapôs oferecendo várias programações computadorizadas, que apresentaram “células rítmicas muito fortes” e que estão presentes em todo o disco.


Com Banda larga cordel, Gil anuncia seu retorno mais intenso ao mundo artístico. “Meu tempo como ministro está chegando ao fim”, disse. O primeiro sinal foi a abertura de um espaço maior para o “desejo poético“. Ele compôs quase todas as músicas – algumas com parceiros – e fala de temas variados, da própria questão tecnológica (Banda larga cordel, Máquina de ritmo) à Africa (La renaissance africaine). Também homenageia a mulher, Flora, e a matriarca dos Velloso, respectivamente com A faca e o queijo e Canô, e reflete filosoficamente sobre a morte em Não tenho medo da morte.


Velhas questões – No início do ano, começou a funcionar no YouTube o canal exclusivo de Gilberto Gil, com videoclipes, cenas de bastidores, bem como vídeos produzidos pelos fãs nas turnês pelo mundo. Ele foi o primeiro artista da América Latina a contar com a ferramenta. Também foi um dos primeiros cantores brasileiros a aderir à internet, em 1996, e a se arriscar a lançar uma música ao vivo em tempo real (Pela internet, no mesmo ano). E garantiu que a conversa com a Warner, para a disponibilidade dos fonogramas das suas músicas, segue adiantada.
Todas estas ações têm dado um status de modernidade a Gilberto Gil. Mesmo que elas tenham se intensificado em tempos de internet, sua atenção para assuntos desta natureza é bem anterior. “Parabolicamará já traduzia meu interesse em tecnologia, que vem de longe”, localizou. O disco é do início da década de 1990, mas Gil diz que lá nos anos 60 estão Cérebro eletrônico e Futurível, que já apontavam suas antenas para cá, conduzidas por Rogério Duprat.


Quando questionado porque resolveu lançar o CD ainda da forma tradicional, já que está tão empolgado com o mundo virtual, Gil mostrou que tem os dois pés no chão: “Estamos lutando para incluir as pessoas na realidade virtual, mas ela ainda vai demorar muito. Ainda precisamos de uma outra abolição, de uma melhor repartição do bolo”, disse.


Cheio de planos, Gil disse que hoje se sente um homem muito mais livre. “A prestação de serviços públicos me fez muito bem, me deu muita alegria. Acho que este sentimento de liberdade também tem a ver com a idade. Já estou entrando nos últimos quarteirões da minha vida, tenho que dialogar com a consciência da finitude”, filosofou. No próximo mês, ele inicia a turnê internacional de lançamento de Banda larga cordel, que passará por várias cidades americanas e européias. Na volta, começa a nacional, em agosto ou setembro, sem data ainda definida para show em Salvador.


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FICHA


Disco: Banda larga cordel
Artista: Gilberto Gil
Gravadora: Warner
Preço: R$28 (média)



in Correio da Bahia, 15.05.2008
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