'Creio que Lula vai superar crise', diz Gilberto Gil

Miguel Mora - Em Cáceres

O deus da Bahia, o mítico poeta, cantor, guitarrista e compositor Gilberto Gil, recebe esta noite em Cáceres o Prêmio Extremadura. Aos 62 anos, Gil é há quase três o ministro da Cultura do governo Lula, mas, talvez aplicando os sábios ensinamentos de seu admirado Confúcio, continua combatendo sem trégua pelo progresso cultural de seu país-continente, sem deixar de cuidar de sua carreira musical nem esquecer de reivindicar algumas utopias globais, como a liberalização dos programas de informática e das drogas.

Em pleno temporal político devido à crise de corrupção que sacode o Partido dos Trabalhadores, Gil (livre de qualquer suspeita, e não só por ser membro do Partido Verde) mostra seu melhor sorriso sábio e sussurra: "Não se deve ficar deprimido; ao contrário, agora temos de trabalhar mais que nunca. A imperfeição faz parte da vida, por isso nada do que aconteceu me surpreende nem me abate. Talvez seja meu lado de poeta que me leva a tentar aperfeiçoar o imperfeito".

Entre outras medidas que tentam melhorar a situação cultural de um país no qual há milhões de pessoas sem recursos, 8% de analfabetos totais, 30% de semi-analfabetos e 37% de analfabetos funcionais (só 25% da população dominam a língua sem problemas), e no qual, segundo o ministro, "a cultura sempre foi tratada pelos governos como um vaso, como um adorno", Gil elaborou dois planos de choque especialmente interessantes: o do Livro e a Leitura, que isenta as editoras de impostos em troca de que reduzam em 10% o preço de venda ao público e de que invistam 1% de seus lucros em planos de fomento à leitura; e o Decreto do Cinema, que obriga as distribuidoras a ampliar para 63 dias (contra os 35 atuais) o tempo de exibição dos filmes brasileiros nas salas do país.

Mas esse homem hiperativo e tão magro que parece deslizar pelo solo sem tocá-lo é uma contínua fonte de notícias de todo tipo, algumas talvez mais estridentes do que aconselharia a prudência: confessou ter abandonado a maconha aos 50 anos, desenhou uma cadeira para tocar violão que a rede Habitat venderá em todo o mundo por 180 euros e ganhou em 2004 o Prêmio Polar de música (uma espécie de Nobel concedido pela Academia Sueca). E em plena crise nacional saiu em turnê com seu espetáculo "Eletroacústico", título de seu último disco e DVD.

El País - O senhor não tem muito jeito de burocrata.

Gilberto Gil - Que aspecto deve ter um burocrata?

EP - Não sei, terno e gravata.

Gil - Bem, às vezes, quando há um ato oficial, me disfarço do que se considera que deve ser um burocrata.

EP - E o senhor gosta do trabalho de burocrata?

Gil - Gosto. Procuro desfrutar de tudo o que a vida me oferece. Já sabemos que tudo o que se vive tem sua parte boa e sua parte má. Assim, eu tento que cada coisa tenha o maior equilíbrio nesses termos.

EP - E houve mais bem que mal nesses três anos?

Gil - Sim. Se tivesse sido o contrário, eu teria saído. Se continuo é porque sinto que há mais coisas interessantes que negativas. Creio que conseguimos dialogar com a sociedade brasileira e com o mundo sobre o que é a cultura do Brasil hoje. Apelamos à sociedade para que veja a cultura como um elemento estratégico que inclui todas as expressões da vida, as relações pessoais. Além disso, a cultura é um ente político que contribui para formar a cidadania e é um setor econômico muito potente e em permanente expansão. O mundo está mudando muito rapidamente e estamos passando de uma economia dura para uma economia suave, do conhecimento e da informação. Era necessário preparar o Brasil para essa mudança, e eu assumi essa missão.

EP - Como parte do projeto Fome Zero.

Gil - Tudo caminha junto! Os pobres com fome também são culturais e têm fome de cultura! A cultura é o conjunto que resulta dos diálogos de diversas linguagens. Se a gente pobre fala, a escutamos. Se falamos os ricos, eles também nos escutam. Essa é a questão. A cultura é uma fonte de riqueza e de cidadania, e nesse sentido também faz parte da comida.

EP - E o senhor acredita que é possível pôr em prática essa utopia com a globalização vigilante?

Gil - De fato, a globalização também é tudo isso. Tende à uniformidade, mas também é diversidade. A globalização é "glocalização". Alguns tentam impor um padrão hegemônico, mas como é parte da vida e a vida é polaridade, o local também se levanta e pede seu lugar.

EP - O senhor sente que o sonho de Lula tem muitos inimigos?

Gil - Não. Os grandes poderes sempre tentam estabelecer seu domínio. Outros querem o poder como elemento de ajuste. Parte da Europa, África, América e Ásia quer um diálogo pluralista. Outros, como a inteligência e a política dos EUA, continuam buscando a dominação. Mas deve-se dizer que em nossas relações bilaterais com os EUA hoje há mais ações em direção ao diálogo do que o contrário.

EP - Então o inimigo está dentro, e não fora.

Gil - Claro, o inimigo está sempre dentro! A bondade não é um elemento mítico que esteja separado da maldade. Deus é humano e o diabo também.

EP - O senhor acredita que a crise acabará com Lula?

Gil - Creio que não. Creio que ele vai superá-la, ou pelo menos o espero. De todo modo, é preciso aceitar as coisas como elas vêm. A vida é como é, mas os sonhos sempre valem a pena ser vividos, embora tenham obstáculos. Às vezes é preciso lutar mais do que se esperava.

EP - O senhor não parece muito desiludido.

Gil - Eu não tenho desilusões, porque não tenho ilusões.

EP - E Lula, como o vê?

Gil - É um homem de temperamento político, e não creio que tudo isso tenha sido uma surpresa para ele. Deve reagir com a virtude, com a capacidade de tomar a adversidade nas mãos.

EP - Vejo o senhor cada vez mais no plano Confúcio.

Gil - O Oriente é mais sábio que nós. Eles sabem que o meio justo está na igual possibilidade dos extremos. Os ocidentais tendemos a abandonar a observação da sabedoria para adotar o otimismo e a vontade. E isso não é absolutamente necessário.

EP - Mas seu mandato teve uma coisa ruim: não compôs uma só canção.

Gil - Eu esperava isso e o preveni. Antes de começar tinha 400 ou 500 canções prontas. Quando me liberar, farei outras 400.



in El Pais, 10.09.2005
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