Gil lança CD voz-e-violão que reúne seus "retiros espirituais"

Luiz Fernando Vianna

Ao recordar, na entrevista coletiva de quinta-feira, como tinha feito as músicas reunidas no disco "Gil Luminoso", Gilberto Gil recitava, a cada explicação, um texto parecido: "Eu estava sozinho na sala, o pessoal já tinha ido dormir, peguei o violão..."
Adjetivadas de "espirituais" e "filosóficas" pela gravadora Biscoito Fino, que está lançando a primeira tiragem comercial deste CD feito em 1999 para acompanhar o livro "GiLuminoso: a Po.ética do Ser", de Bené Fonteles, as 15 canções têm esse clima de madrugada, silêncio, posição de lótus e "retiros espirituais" (título de uma das faixas).
São reflexões à moda de Gil sobre homem, tempo, universo etc. Mas, para ele, a abstração tem um pé na concretude.
"É o zen-mundismo. Bené já disse algumas vezes: a finalidade é poder meditar na avenida Paulista. No mundo de hoje, não é possível meditar no mosteiro. Nosso mosteiro é a rua, a praça, são os ambientes políticos, artísticos", afirmou.
Por ser o único item integralmente voz-e-violão da extensa discografia de Gil, o CD já tem valor histórico. E ele ainda chega às lojas no ocaso do (primeiro?) período do artista à frente do Ministério da Cultura.
"Foram quatro anos muito saudáveis. Gostei muito. Sinto que realizamos algumas coisas. Até gostaria de dizer que estou realizado, mas isso é impossível para um ser social", avaliou.
O fato de só ter composto uma música nesses quatro anos não se deve só às atribuições de ministro. Gil disse que está se desobrigando de compor, "deixando de ser profissional", e quer se afastar das exigências do mercado fonográfico.
"Passei muito tempo envolvido em interesses de gravadora e das pequenas corporações aglutinadas ao meu trabalho. Estou querendo sair dessa cadeia", avisou ele.
"Gil Luminoso" é um caso à parte. Gil rearranjou músicas sem objetivo comercial e registrou duas pela primeira vez: "Você e Você" (1993), lançada por Gal Costa, e "O Som da Pessoa", melodia de Fonteles para um poema seu escrito nos anos 80 para o jornal "Grão de Arroz", de um restaurante macrobiótico de Salvador.
"Copo Vazio", que fez para Chico Buarque cantar no disco "Sinal Fechado" (74), só tinha dele uma versão ao vivo.
"Quando Chico me pediu, pensei: "meu Deus, fazer uma música para Chico!". Achei melhor procurar algo que ficasse entre o fazer e não-fazer. À noite, o pessoal já tinha ido dormir, peguei o violão, acendi um cigarro, pus vinho num copo e fiquei pensando. Quando olhei, o copo estava vazio. Mas estava cheio de ar. Aí bateu: "É sempre bom lembrar que um copo vazio está cheio de ar". "Isso é filosofia popular, o Chico vai gostar", pensei", contou.
"Cérebro Eletrônico" (69) destoa da origem das outras canções do CD, pois foi uma das quatro que Gil fez na prisão, no Rio, depois que o sargento Juarez convenceu o comandante do quartel a liberar um violão para o compositor. Mas, para Gil, talvez não faça tanta diferença. "A arte de viver é igual à arte de compor. É estar pronto para morrer", filosofou.



in Folha de São Paulo, 02.09.2006
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