Loteria musical em campo

Leonardo Maia

Indústria e artistas tentam emplacar o hino do Brasil na Copa, mas é a torcida quem dá o apito final

Famílias e amigos se reúnem e, pelo menos nas últimas edições, a Seleção Brasileira tem colaborado para uma completa farra pós-jogo. Naturalmente, a diversão é regada a muita música, desde as clássicas em louvor ao escrete canarinho até animados temas que trazem o esporte nas letras, em ritmos que colocam o esqueleto para balançar. Entretanto, desde a última Copa, quando Festa, de Ivete Sangalo, invadiu os estádios, a indústria cultural passou a mostrar toda a sua voracidade, na expectativa de emplacar o hino da vez da torcida, que tanto pode forjar uma celebridade instantânea quanto render dividendos a veteranos e suas produtoras e gravadoras.

Na terra onde só se veste verde-e-amarelo no período em que rola a maior das competições futebolísticas, as recentes vitórias e o otimismo desenfreado abrem um interessante mercado para os mais diversos artistas cantarem o futebol. Entre os que pegaram carona no oba-oba da Copa do Mundo - que começa sexta-feira com Alemanha x Costa Rica - destaca-se Latino, que chegou ao topo das paradas de sucesso com Meu gol de placa. Com letra de duplo sentido, a canção utiliza termos futebolísticos para falar de um rapaz que engravida uma menina, marcando um "gol de placa". Mesmo trabalhando a música num período propício, Latino nega que tenha aproveitado o momento estrategicamente. "Nada disso foi pensado, eu pude perceber que o futebol e o sexo moram juntos. Dependendo da forma que você pronuncia as palavras, tudo acaba em gíria futebolística. Não imaginei que seria esse sucesso todo. Acho que o momento colaborou", pondera o cantor, que, durante a turnê de Meu gol de placa, se veste de jogador de futebol e brinca com a platéia.

Outros dois artistas populares também entraram no gramado. Neguinho da Beija-Flor foi convidado para animar os jogadores em Weggis, na Suíça, e logo tratou de compor Olha a Seleção aí gente, de conteúdo altamente patriótico. Na cola, Marcelo D2 apresentou no Domingão do Faustão, na semana passada, uma música em homenagem a Ronaldo, o Fenômeno, que será inclusive lançada em uma edição especial do seu mais recente disco, Meu samba é assim. Em boa hora, afinal D2 segue em uma turnê de dois meses pela Europa, passando, claro, por uma Alemanha em plena competição.

Duas baianas também estão investindo no Velho Continente, afinal, nesse período, o nome Brasil dá ainda mais frutos. Ivete Sangalo e Daniela Mercury, que possuem um considerável número de fãs em Portugal, já estão fazendo shows na Europa e reservaram algumas datas para a época que a antiga Germânia vai fervilhar. Ivete tenta abocanhar mais uma fatia do bolo, afinal teve a música mais celebrada em 2002, mas agora pode ser a vez da Levada brasileira, de Daniela, que, como a canção de Ivete, não faz referência ao futebol, mas carrega na brasilidade.

Carlinhos Brown e a banda Jammil também não deixaram o momento passar em branco. O músico do Candeal tirou da cartola um forte candidato a hit, Futeboleiro, aquele que traz o verso "Ê, ê, ê, ê, ê, eu sou um brasileiro e mando um beijo pra você" e virou jingle da empresa Vale do Rio Doce.

O Jammil lançou, no recente disco ao vivo, a faixa Brasileríssima, com letra do baixista Manno Góes. "Quando compus a música, quis justamente me referir a esse aspecto curioso de `patriotismo´ exacerbado que toma conta do país. Falo dos problemas que são esquecidos, pois nessa época tudo gira em torno do futebol. Copa pra mim é diversão. Se o Brasil vencer, ótimo. Se a Argentina perder, maravilha!", brinca o autor da canção. Os frutos já estão sendo colhidos, já que o grupo vai tocar num evento oficial da Fifa, o Vila Copa Philips, em São Paulo, logo depois do primeiro jogo do Brasil, contra a Croácia, no dia 13.

Futeboleiro e Brasileríssima, ao lado de Meu gol de placa e Goleador, estão hoje entre as mais tocadas da rádio Piatã FM, de acordo com o radialista Jeffinho. "Nos dias dos jogos, vamos tocar músicas que marcaram época, como Pra frente Brasil e A taça do mundo é nossa, além das quatro novas, que já estão tocando bastante", pontua.

Vale ainda citar a homenagem do ministro da Cultura e cantor Gilberto Gil à equipe de Parreira. O artista lançou um single com Balé de Berlim, contando com a ajuda de Zeca Pagodinho nos vocais. A letra traz referências ao Senhor do Bonfim, Carnaval e até ao mítico saci, encerrando em clima de reverência a atletas das mais diversas estirpes, como Pelé, Beckenbauer, Puskas, Garrincha, Bobby Charlton e até o baiano Bobô, que nem Copa jogou, mas rima bem com o camaronês Eto''o. É Gil repetindo a dose, como fez durante a Copa da França, em 98, com a canção Balé da bola.



in Correio da Bahia, 05.06.2006
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