Gilberto Gil quer experimentar possibilidades da tecnologia com novo disco, "Banda Larga Cordel"

Marcus Marçal

Em seu novo disco, o ministro da Cultura Gilberto Gil reafirma a influência da tecnologia em sua música. Produzido pelo ex-Mutantes Liminha, "Banda Larga Cordel" mistura Internet e artesania cordelista em seu título e aborda poeticamente relações entre arte e tecnologia.

Em entrevista coletiva virtual nesta quarta-feira (14), o cantor e compositor de 65 anos declarou que este foi o único modo de abarcar a totalidade de temas em um só conceito. "Hoje é bem diferente de tempo atrás. Vivemos uma época mais estimuladora e com grande impacto na criação e rearranjo de idéias, em função das possibilidades atuais de copy & paste para a criação poética, além da velocidade e acessibilidade na propagação de informações. E com todas as referências de recombinações, abertura e a quantidade de faixas, o máximo que eu poderia fazer é juntar as diferentes canções sob o título 'Banda Larga Cordel'. O título é o máximo de amarração que poderia dar a esse repertório", declarou.

"Banda Larga Cordel" será lançado em 17 de junho e é também o primeiro disco após o fim de antigo contrato com a Warner, que comercializará o material em diferentes formatos. Temas como inclusão digital, Creative Commons, Software Livre são assuntos recorrentes na pauta do ministro e também tangenciam sua música. E em se tratando de trabalho autoral de um ministro da cultura, o lançamento abre precedente para discussões relacionadas às questões da comercialização de fonogramas e autoralidade, entre outras.

A faixa-título é a mais politizada canção do álbum e estimula a política de inclusão digital, em função das amplas possibilidades de comunicação propostas pela tecnologia. Dentre as 16 faixas do disco, também se destacam o samba minimalista "Formosa" e "La Renaissance Africaine", canção sobre o abandono do continente africano e, segundo o artista, "a última fronteira da exploração e do colonialismo". Outro tema forte de "Banda Larga Cordel" é "Não Tenho Medo da Morte", no qual tece reflexões sobre "a consciência de finitude de sua vida e dimensão de eternidade".

Defensor do Creative Commons
O cantor declarou que pretende oferecer seus fonogramas para uso público, disponibilizando áudios das canções, trechos instrumentais, gravações alternativas que não entrarem no disco, para que as pessoas possam reprocessá-lo do modo que queiram, à medida que também cheguem novos produtos ao mercado. E destacou a adaptação da cena tecnobrega paraense como bom exemplo no uso dos novos formatos permitidos pela tecnologia atualmente. "Esse pessoal sabe se articular de forma auto-suficiente. Usam palcos ambulantes, em função da mobilidade de instalação e movimentação local. Com os computadores, aproveitam a rapidez na difusão de informações na Internet, além de gravarem seus shows, editarem e venderem discos --com a produção endossada por rádios que veiculam seus trabalhos. Assim exploram realidades e territorialidades novas, lançando mão de novas maquinarias", disse.

O ministro deu seu ponto de vista em relação a questões como remuneração, liberdade e autonomia, comuns ao cenário musical atualmente. "Há uma tendência real da fragmentação do poder político e das vantagens econômicas distribuídas entre um número maior de agentes. Os selos independentes já são metade do mercado nacional, levando em consideração os já-consolidados. As majors atuam na logística como redistribuidoras e acredito que tudo isso ainda será dividido futuramente com a micropulverização do empreendedorismo e organização de mercado", disse.

Assim pretende instaurar discussões sobre novas categorias de autoralidade, em função da abertura de um espaço para a experimentação, melhor representado por uma interrogação, conforme opinou a respeito das atuais tendências de distribuição e remuneração de música. "Isso faz parte de um experimentalismo gradual e necessário para que possamos avaliar o funcionamento dessas novas possibilidades. Não seria prudente eu radicalizar em todas as formas de distribuição, ainda ligadas de certa forma a antigos funcionamentos. Acho adequado utilizarmos a tecnologia com moderação, para não tomarmos um porre de abertura que não daria em nada. Prefiro usar com moderação."

Mas a inclinação à tecnologia aparece muito antes em seu trabalho. Gravações suas como "Cérebro Eletrônico" e "Futurível" já abordavam questões sobre possibilidades futuras em 1969, temas eventualmente recorrentes em posteriores lançamentos do cantor.

Como personalidade importante na linhagem histórica da música popular brasileira, Gilberto Gil também divagou sobre o futuro possível da arte cordelista hoje em dia. "Não sei se será possível uma computadorização do cordel ou mesmo até que ponto as associações de trovadores nordestinos lidam com o impacto da tecnologia atualmente em sua produção e vida cotidiana."

O artista também disse não saber como a prática antiga do nordeste brasileiro se adaptará aos padrões atuais tão vinculados à tecnologia. "Não sei como o cordel se adequará ao hipertexto, mas os prosadores podem optar por desaparecer, assim como aconteceu com os Maias, e isso pode acontecer em função dos novos formatos e suportes. Até lá, acredito que eles continuarão como sempre, pois muita gente ainda hoje descobre o prazer leitura com a literatura de cordel e talvez a prática fique como um fetiche ainda por algum tempo e nunca perca suas características tradicionais", especula.

Em julho, Gil promove o disco em turnê no exterior e só se apresentará no Brasil a partir de agosto. Sua banda é formada por Arthur Maia (baixo), Alex Fonseca (bateria), Claudio Andrade (teclados), Gustavo de Dalva (percussão), Sergio Chiavazzolli (guitarras) e seu filho Bem Gil (guitarra).



in UOL, 14.05.2008
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