Doce Maestro

Henrique Nunes

Gil revisitou pelo menos duas parcerias, em um mesmo projeto: com o diretor Andrucha Waddington, com quem filmara "Tempo Rei" e "Viva São João", e com Caetano, Bethânia e Gal, com quem - como quase todo mundo já sabe - revivera, há dois anos, sob o patrocínio de uma rede de supermercados, uma formação das mais efêmeras, transgressoras e fundamentais da música brasileira, os Doces Bárbaros. Assumindo a direção musical do ainda mais efêmero reencontro, o Maestro Gil mostrou empenho em reviver, com a maior originalidade possível, o clima daquela turnê que agitara o Brasil em 1976, compondo também duas músicas inéditas, inclusive a que acabou denominando o projeto: "Outros bárbaros"

O DVD foi produzido pela gravadora Biscoito Fino em parceria com a Conspiração Filmes. Segundo o próprio Andrucha revelou em entrevista coletiva durante o lançamento do projeto, o material foi selecionado nas apresentações no Parque do Ibarapuera e na Praia de Copacabana e ainda nos ensaios no estúdio Palco, de Gil. Depois de dois anos de edição, o resultado chegou paralelamente ao relançamento das novas cópias do filme "Doces Bárbaros", dirigido por Jom Tob Azulay, também em 76, não será transformado em CD.

Gil abre o DVD concentrado, ao violão e de headphone, no oitavo dia de ensaios para o primeiro show, cantando "Máquina de Ritmo", letra inédita em levada de samba que, entre os requebros de Caetano, vai falando em "tecno-ilusões" e outros baratos e contradições tecnológicas que o atraem pelo menos desde "Cérebro eletrônico". Caetano lembra que é um "samba daqueles que deram em Djavan", de quando os dois mestres bárbaros se conheceram na Bahia, quando Gil compunha coisas como "Serenata de Telecoteco", ensinando, na prática, Veloso a pegar no violão... Conversa boa até Gal chegar, "de goiaba", conforme o debochado Caetano. Logo os dois dividem gargalhadas com o desespero da Fatal em decorar os versos de "Ai, São Jão, Menino"...

Como ao longo de todo "Outros (doces) Bárbaros", as seqüências são logo cortadas. Estas do estúdio são guiadas por entrevistas feitas pelo sociólogo Hermano Viana. Na próxima, estaremos em uma das entrevistas coletivas. E, claro, haverá a guinada maior para os shows. No sexto dia de ensaios, a primeira coletiva registra, na voz de Gil: "Não faço nada na minha carreira para acrescentar. Eu faço para ser cada momento íntegro como o primeiro. Não há esse sentido aritmético".

Caetano explica a origem do nome do grupo, reunido para satisfazer, à princípio, um desejo de Bethânia reunir novamente os quatro, como no começo de suas carreiras... Doces Bárbaros: o Pasquim havia declarado guerra aos "baiúnos" que invadiam a música do Rio. Mautner falou: o bárbaro mais avassalador tinha sido o "doce" Jesus...

Em oito de dezembro, show em Copa. Multidão, grande estrutura. "Agora não pergunto vai aonde vai a estrada". Era "Fé cega, faca amolada", de Milton e Ronaldo Bastos tratavam de popularizar há 28 anos. Logo Caetano está falando que Bethânia gostava mais de Jovem Guarda do que do Fino da Bossa. "Os sambas do Gil eram muito samba-jazz", estilo que ele achava cafona. Bethânia canta "Viramundo", que Gil e Capinan fizeram na época dos Doces Bárbaros, mas que não constara do repertório. Histórias de Caetano, enquanto Gil, de head-phone, ouve e come pipoca. "Mucha história".

Bethânia chega ao segundo dia de ensaio atrasada. Gil logo lhe apresenta "Outros bárbaros", que parece emocionar mais a Gal com seus melancólicos lalalás introdutórios e letra que, com a mesma plangência, fala... Deles, "por exemplo". Barbarize-se: "Será que ainda temos o que fazer na cidade?/Em nossos corações ainda resta um quê de ansiedade/Apesar de ter sido um grande prazer para todos/Resta saber se ainda queremos seguir querendo-nos mútuo prazer/Outros bárbaros, tão doces, tão cruéis, seguem vindo/Vivendo seus papéis, de mocinhos e de bandidos/Será que ainda temos o que fazer na cidade?/Em nossos corações já reside um quê de saudade...".

Empolgadíssimo, Gil diz que a música, composta naquela manhã, deveria vir no final do show, "depois que todo mundo já cantou e tal", para as gargalhadas, agora, de Bethânia. Manda copiar a letra e tal, enquanto Gal diz que só não chorou pra não passar vergonha e Gil escancara logo que já chorou tudo em casa. "Eu sou um horror". Nem o Rei e suas tantas emoções.

Noutro dia, Gil diz que deixou de fazer pós-graduação em Administração nos Estados Unidos porque sentia que aqueles quatro... Sobre seu ecletismo, que o fazia admirar Hendrix e outras experimentações: "Em mim era um misto de gostar mesmo de muita coisa e um pouco de gostar de gostar". E tem quem não goste de um cara desses. Gil, Sérgio Chiavazzoli e Jaime Alem estão cuidando agora do arranjo de "Outros Bárbaros". "Penny Lane", rege ou sugere o maestro em seus acordes imaginários, que logo os quatro cantam no show.

Logo, outro ensaio rolando "Um Índio". Como na gravação original, é Bethânia que assume os vocais da letra do mano. Mas aqui vamos ter que nos contentar com uma pequena parte da letra, com direito a rap bethânico. Também se resolve apenas no estúdio "Eu te amo", outra de Caetano, com Gal bem mais contida do que na primeira versão. Aliás, como estão todos. Até mesmo Gil. Na seqüência, ainda em ritmo de ensaio, "O seu amor", de Gil, que tenta organizar o seu velho, e ainda espirituoso, "grupo-alma"...

Corta para um fim de ensaio em que Gil leva "Andar com fé" ao violão. Todos vão, Gil fica. No outro dia, de volta ao Palco, uns desentendimentos sobre as divisões de "Os mais doces bárbaros", o tema, feito com inspiração por Caetano... "Se não querem fazer assim não faz assim. Eu só dei uma sugestão". "Tá bom, Gilberto", adoça Bethânia. Os quatro relembram depois, no palco, "Atiraste uma pedra", velha canção de Herivelto martins e David Násser.

Brigas e harmonias são comentadas em entrevistas. Nova do repertório da "Brasileirinha" Bethânia, do sobrinho Jota Veloso, "Santo Antônio" chega no ensaio e no show, sob a atenção de Gil e seu "eletracústico". E nada da "São João, Xangô Menino"... O violão de Gil no show rege também sua "Chuckberry fields forever", com vocais mais tranqüilos, dele e de Caetano. Onde andariam as duas amazonas do Após-calipso? E de volta ao ensaio, Gil viaja sobre a chegada de todos ao tal "século XXI" que sua letra dimensionava.

Eis que chega "Esotérico", com Gal e Bethânia repetindo um duo clássico. Gil tocando e dando o colo, o ombro, a Caetano, acalanto de almas até que nem tão diferentes assim. Avião, Ponte Aérea. Bethânia, de copinho de cerveja na mão, viaja sobre seus erros no show em Sampa... Justamente em "Os mais doces bárbaros", reconhecendo que Gil confiou nela e deu no que deu... Não, ninguém brigou, como se preocupara um dos jornalistas dias antes. Pelo menos não diante de Andrucha. A paz invadia o palco desde os brancos e azuis das vestes, tão diferentes daquelas de 28 anos atrás, quando os quatro baianos preparavam, de "alto-astral", sua doce invasão de "lindas canções". Tão diferentes como aqueles próprios outros bárbaros, projetados no final do show e do DVD. "Tudo ainda é tal e qual/E no entanto nada igual"...

Talvez algumas boas pistas para decifrar os enigmáticos bárbaros regidos por Gil e pelo jovem cineasta durante aquelas duas noites de pura fantasia estejam nos extras do DVD. "Gênesis", de Caetano, no show e no estúdio, sugere que "existe uma tribo/de gente que sabe o modo/de ver esse papo todo". Então, será que o segredo que se esconde por trás desses quatro civilizados é o mesmo guardado por "Um índio", o óbvio? Será que está então numa música de Caymmi que Gal, Gil, Bethânia e Caetano cantaram no finalzinho desta doce jornada, falando que esse mundo é feito de maldade e de ilusão? Entre "a saudade e a glória", quem sabia o tempo todo dos bárbaros era o doce Buda baiano...



in Diário do Nordeste, 03.01.2005
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