Programa de Gilberto Gil na TV é como ver um diálogo íntimo

Patrícia Kogut

'Amigos, sons e palavras' estreia dia 21 de agosto no Canal Brasil

RIO — A sensação que o espectador tem ao assistir a “Amigos, sons e palavras” (a partir de 21 de agosto no Canal Brasil) é a de estar sendo admitido num diálogo íntimo que se desenrola em um espaço privado.

O programa de estreia abre com seu apresentador ao violão, cantando “OK OK OK”. A duração da música — mais de três minutos, uma eternidade para os padrões da televisão — pauta todo o ritmo do que vem depois. O programa que faz jus ao seu título: cada som vale. Na estreia, acompanhamos a conversa de Gilberto Gil com Caetano Veloso.

Os dois baianos se conhecem desde a juventude, se comunicam com as melhores palavras e as mais precisas. Dá para sentir a sintonia entre duas pessoas que se entendem a ponto de também prescindir de palavras (“é... é...”, dizem de vez em quando um para o outro, para mostrar que está tudo compreendido). Por isso a direção competente (Letícia Muhana e Patrícia Guimarães) exerce um papel tão importante nesta atração do Canal Brasil: esse caráter de “encontro privado” está no coração do formato. As câmeras, uma para o plano geral e uma para cada um, mantém a distância respeitosa, não invadem.

Pelo menos na edição de lançamento, o tom não é de entrevista. Gil e Caetano foram se abrindo em medida igual, sem esforço. A conversa fluiu primeiro puxada pelos versos de “OK OK OK”, mas, depois, graças ao encadeamento natural entre os assuntos que emergem entre pessoas que não estão separadas por barreiras ou por cerimônia.

Eles conversaram sobre a cobrança para ter posicionamentos políticos e opiniões, “o artista tem que estar acima do muro” (Caetano); sobre “o destampar da panela que a internet provocou” (Gil); sobre um livro (“Desonra”, de J.M. Coetzee). Mais para o fim, falaram e muito, muito mesmo, sobre filhos. Se houve um momento em que “Amigos, sons e palavras” se aproximou do que poderia ser um programa de entrevistas, isso aconteceu quando Gil perguntou: “E o ageing [envelhecimento], como está para você?”. Foi a deixa para mais um bloco de memórias de infância e uma chance de mostrar que os artistas septuagenários também são garotos, com planos e muita curiosidade.

“Amigos, sons e palavras” já chega à televisão com valor de documento. É para ser visto sem pressa, com muita atenção. Quando acaba, temos vontade de agradecer a alegria de ter participado de uma grande prosa.

Cotação: Ótimo



in O Globo, 11.08.2018
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