Expresso 2222

Paulo Costa Lima

   

Começou a circular o Expresso 2222 da Central do Brasil
Que parte direto de Bonsucesso pra depois do ano dois mil...

A canção já beira os 40 anos de lançamento - e nada perdeu de seu vigor criativo e do horizonte de emoções que vai trilhando, ligando pontos e pólos dispersos e encantados .

É uma canção que trata de encantamento - e de como isso se entrelaça e se confunde com a própria vida, de como mexe e remexe com jeito de trem nordestino, ah sim, tanta coisa depende da cinética nessa canção...

Lá nos 70, a canção tecia um discurso político de afirmação da capacidade de continuar fabulando sonho e viagem, para bem longe de onde a ditadura desejava...

...além de colocar na pauta de toda uma nova geração de criadores uma liberdade especial de conjugar as coisas, com olhos tropicalista-antropofágicos, nordestino-baiano-carioca-paulista, se é que me entendem...

Ao longo dessas quatro décadas de existência a canção acumulou usos e funções - noto que nas interpretações recentes a identidade forró está bem mais acentuada, mas há lá dentro um jeito de samba, um apelo instrumental e improvisatório.

Às vezes penso que o percurso do próprio Gil seguiu o itinerário desse trem fantástico, e que ele agora está em pleno depois...

Vale lembrar que o expresso circula, instaura uma lógica que não é a do vai-e-vem. Ao circular conecta lugares, paisagens, fantasmas, sensações. Roda pra longe e desroda pra perto - refrão e expresso estão sempre reaparecendo. São mágicas que a música sabe fazer, o tal jogo de carretel de que trata a psicanálise (fort/da), os prazeres do sumiço e do reencontro.

De certa forma, a harmonia usada no início da canção (Dó, Sib, Fá...) inclina o vetor tonal na direção de Fá, quando na verdade se está em Dó, trazendo uma cor modal algo premonitória da natureza do trajeto e da metáfora - mas isso é logo eclipsado pela energia vibrante da Dominante real, o Sol7, e sua sensível: sib - si - dó, esse link fica no ouvido.

Sensações multiformes: partir (e tudo que traz consigo), subir, estar no futuro, dançar, evaporar-se numa nuvem, ver Cristo... Encantamento e paradoxo dialogam. Já de saída um itinerário poético com o absurdo entre tempo e espaço: o sonho (trem) vai de Bonsucesso pra depois. Desautoriza a lógica das categorias. Dirige-se à estação final de uma estrada que não tem fim.

A base cinética de tudo é o violão de Gil- fino conhecedor dos segredos de acordes e texturas (digo, batidas), veja gravação de 1972 (YouTube). Esse violão, com sua corrente de semicolcheias é o próprio trem-expresso, embora a ligação seja sutil e nem se preocupe em imitar nada. Estabelece, todavia, o nível mais rápido de pulsação e uma métrica dominante.

É sobre essa pulsação que vai surgindo um castelo fluido de acentos e gestos melódicos, de concretudes e fantasias, agarrando o ouvinte pela gola do espírito, e que quando vê está cantando junto, com a boca cheia de água e sal, menina, trilhos e nuvens...

O percurso circular, ou talvez elíptico, não evita polaridades, acomoda-as ao longo do trajeto:





Portanto, podemos dizer que a canção se instaura como acentos e tensões sobre a base de semicolcheias, mas o seu destino é bem outro, na direção da subversão desse estado rítmico, através de uma certa flutuação fora do tempo

Ex. 1





E se as análises têm um umbigo, diria que chegamos nele, pois esse estado de flutuação rítmica que leva à escassez temporária de tempos fortes seria a metáfora musical do encantamento, do flutuar sobre trilhos ausentes, evaporar-se nas nuvens.

E mais ainda: em termos de análise das durações e proporções, a maior parte desse trecho é construída com o valor das colcheias, só que deslocado. Enquanto o compasso inicial apresenta como ritmo a série de proporções (1+1+1+1+1+1+3...), com ênfase nas semicolcheias, o gesto delimitado pelo colchete registra uma série de ataques com ênfase na duração de colcheia (2+2+2+2+2+2+2...) - ou seja, o nome do Expresso. Pode? Aliás, quem disse que a análise não pode ser encantada também?

A flutuação por deslocamento desemboca em outro tipo de flutuação, agora por nota longa (duração de 8). Ao cantar "do tempo vai....dar" (no c. 9, final da segunda linha) Gil articula e acentua essa terminação. Por quê? Ora, ela coincide com a última semicolcheia do compasso, aquele mesmo lugar sempre marcado pelas batidas da zabumba, agente oficial da desestabilização do regime (métrico).

Portanto, é também de humor esse trem, pois a resolução da sonoridade longa vai sempre imitar o tempo forte que não é, fingindo uma normalidade falsa. Isso tudo se transforma em alegria de retorno quando do surgimento do acento no primeiro tempo do penúltimo compasso (tal como marcado no exemplo).

A flutuação rebelde potencializa o retorno à normalidade métrica no penúltimo compasso (vide exemplo), fechando a seção pela via daquele tradicional tropo nordestino, "ou menina do tempo vai", e anuncia o recomeço de tudo: trem, partida, encantamento, subversão, sonho e raízes .

1 Agradeço a leitura prévia desse artigo por Tuzé de Abreu.
2 O início destaca os gestos ascendentes, mas a segunda parte investe numa longa descida fora do tempo que vai até o dó grave (dó3), para depois ir alçando vôo até o clímax final; esse encaixe de descida e subida funciona como uma espécie de desenvolvimento e liquidação das idéias temáticas iniciais, preparando seu retorno.
3 Tomamos como referência a transcrição do Songbook de Almir Chediak, com algumas alterações para adequá-la à performance da gravação de 1972; vale a pena conferir a improvisação que Gil insere nesta execução - é um lado londrino/jazzístico, bem representativo da época.
4 Vemos, nessa viagem, que o gesto musical inicial reserva ao 2,2,2,2 proporções tais e quais, ou quase...
5 Nesta incursão analítica tratamos principalmente do processo rítmico e sua participação na metáfora musical da viagem; vários outros aspectos
Paulo Costa Lima é compositor. Bacharel e Mestre (University of Illinois), Doutor (USP e UFBA). Professor de Composição e Análise - UFBA. Pesquisador-CNPq. Membro da Academia de Letras da Bahia. Apresentações de sua obra musical (em 2010) incluiram festivais no Brasil, China, Suécia, Estados Unidos e França. Outras informações: www.paulocostalima.wordpress.com
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in Terra, 09.09.2011
 
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