Gilberto Gil fala de novo CD, torcendo pela implementação das infovias

Leandro Souto Maior

RIO - O cérebro eletrônico de Gilberto Gil sempre foi futurível. Desde uma de suas primeiras músicas, Lunik 9, passando pelo clássico disco de 1969 batizado apenas com seu nome - praticamente todo dedicado às novas tecnologias, discos voadores e robótica - e por outros lançamentos emblemáticos de sua carreira, como Parabolicamará e Quanta, incluindo aí a canção Pela internet (primeira música brasileira a ser oficialmente lançada na rede, ao vivo, em tempo real), que o cantor e compositor namora firme com o tema.

- Gosto de ser um apologista das tecnologias, mais até do que ser um usuário. Não sou um freak, como costumam dizer, mas gosto de usar essas ferramentas, mais como exemplo, para estimular as pessoas. Gosto de estimular o bom uso das tecnologias - disse Gil, em entrevista coletiva virtual para divulgar o mais novo filho dessa sua paixão cibernética, o CD Banda larga cordel. Nada mais apropriado que o lançamento fosse feito dessa maneira.

O músico é o primeiro artista brasileiro a ter canal proprio no site YouTube e se mostra antenado com as novidades do presente. Entretanto, neste lançamento, não pretende antecipar o futuro, como fez há 40 anos em Cérebro eletrônico, se referindo aos computadores, prevendo que eles fariam tudo, ou quase tudo...

Quase tudo é tecnologia neste novo lançamento... mas nem tudo: no repertório, duas homenagens: à Flora, sua mulher, e à Dona Canô, mãe de Caetano Veloso.

- Outro dia a Flora disse: puxa, faz tempo que você não faz uma musica para mim! E era mesmo verdade! Fiz muitas músicas para ela ao longo de nossa vida em comum, como A linha e o linho, Flora, O seu olhar, e agora fiz essa, A faca e o queijo. O cano eu fiz de presente para os cem anos de Dona Canô. Gostaria de ter cantado a música para ela no dia de seu aniversário, em Santo Amaro, mas neste dia mas estava muito rouco. Agora eu cantei através do disco. É um presente de aniversário atrasado, mas presente é sempre um presente. E como a música diz respeito aos cem anos dela, queria que ela significasse também uma extensão aos cem anos do Oscar Niemeyer e da Dercy Gonçalves, que acho que até já passou dos cem. São pessoas que estão aí com essa idade e com uma vivacidade impressionante, podendo compartilhar com os outros as suas vidas. São exemplos extraordinários de uma longevidade física e espiritual - revela.

Assim como as invencionices que o maestro Rogério Duprat utilizou para forjar o futurismo das canções do álbum de 1969, desta vez Gil recorreu ao seu filho e músico de sua banda, Bem Gil, para usar efeitos de estúdio e programações neste novo lançamento.

- Na música Oco do mundo, eu fiz o poema e fui para o estúdio com meu filho, que sugeriu que fizéssemos uma programação rítmica, para que eu pudesse um pouco cantar e um pouco recitar, e ficar à vontade entre essas duas coisas. Ele programou uma célula ritmica muito forte e dali eu fui fazendo um pouco a recitação daquele poema, e aqui e ali fui colocando notas musicais que acabaram compondo uma canção. Outra música nova que foi feita assim foi Não tenho medo da morte. A composição foi toda feita ali, na hora, com o poema e a programação. No computador tem um recurso que produziu uma dobra eletrônica da minha voz que deu um efeito esquisitíssimo e que eu achei muito interessante.

Outra novidade para Gilberto Gil foi a falta de preocupação com a ordem das músicas no disco, aspecto que sempre demandou sua atenção.

- Antigamente eu queria que a faixa que abria o disco tivesse um sentido E depois a seqüência toda teria que fazer sentido também, porque aquela ordem estaria ali para sempre. Hoje, com as lojas virtuais, que possibilitam que se compre uma ou algumas músicas, e que cada um produza o seu próprio CD, com a sua ordem preferida, pela primeira vez não me preocupei com a ordem das canções. No mundo prático, claro que vão ter pessoas que vão comprar o formato disco, mas muita gente vai comprar uma, duas, três músicas apenas.

Apesar de estar lançando o Banda larga cordel por uma major, isto é, por uma grande gravadora (Warner), Gil reconhece que essas organizações tenham começado tarde a se atualizar às modificações e possibilidades que as ferramentas tecnológicas vêm possibilitando.

- Vai depender delas recuperar o tempo perdido. Para começar, vão ter que abrir mão da exorbitante margem de lucros que tiveram no passado. Antes as gravadoras eram 100% do mercado, mas os independentes no Brasil já são quase 50%. Estamos entrando na era do microempreendorismo de participação no mercado e as majors vão ter que tender para esta fragmentação para compartilhar as vantagens economicas que elas oferecem.

Apesar de tratar bastante da tecnologia e das novas formas de consumir música, Gil lançou seu novo disco no formato físico, e não apenas pela internet, no formato virtual, como seria condizente com seu discurso. O cantor se justifica, dizendo que muita gente no Brasil ainda não tem acesso ao computador.

- Precisamos implementar rodovias e ferrovias, mas só agora começa-se a falar das infovias. Teremos que lançar disco em formato físico talvez ainda por um bom tempo. Esperamos que seja rápido o processo de inclusão digital.



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in JB Online, 14.05.2008
 
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