Gil patriarca

Leonardo Lichote

O DVD “BandaDois” (Warner), de Gilberto Gil (lançado também em CD, com 16 faixas em vez das 23 do vídeo), pode parecer redundante ao revisitar, baseado em voz e violão, um antigo repertório. Afinal, discos como “Unplugged” (de 1994, com banda acústica) e “Gil luminoso” (de 2006, só voz e violão) se aproximam demais desse universo. Mas o show (gravado em São Paulo, com direção de Andrucha Waddington) se afasta com grandeza dessa armadilha, e não apenas por trazer arranjos novos e canções inéditas (“Das duas, uma”, “Quatro coisas” e “Pronto pra preto”).

O risco de soar repetitivo é descartado quando notamos que Gil traz consigo — no canto, no violão, nas palavras — o tempo. O show se torna então a materialização do que ele canta em “Tempo rei”: “Tudo permanecerá do jeito/ Que tem sido/ Transcorrendo/ Transformando”. Ou em “Máquina de ritmo” (talvez a melhor de seu CD anterior, “Banda larga cordel”): a máquina de ritmo digital aposenta o surdo para que no futuro “pós-eternos” venham retomá-lo. O passar do tempo, enfim.

Em “BandaDois”, aos 67 anos, Gil assume — com autoridade natural — o papel de patriarca. E, como patriarca, senta-se, cerca-se dos seus e fala do que aprendeu. Os seus, no caso, são Flora (a mulher, homenageada em duas canções, que ajeita sua roupa e o beija segundos antes do início do show) e os filhos Bem (que toca com ele violão, pandeiro e tamborim), José (que participa como baixista), Maria (lembrada em “Das duas, uma”, feita para seu casamento) e outros citados pelo cantor.

Mas não só eles. Gil expande sua família e se põe como patriarca da música popular brasileira. É o (jovem) ancião que recupera o que aprendeu de seus antecedentes e lança no futuro (como na cadeia filho-pai-bisavô-tataravô, que canta em “Babá alapalá”). O cantor lembra “fontes” — é assim que chama — como Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Dorival Caymmi (dos dois últimos, canta “Chiclete com banana” e “Saudade da Bahia”) e Beatles (assovia “Penny Lane” no fim de “Metáfora”). Em outro sentido, assume paternidades (“Moreno, Domenico, Kassin/ Assim meus filhos, filhos seus”, novamente versos de “Máquina de ritmo”). A participação de outra de suas “filhas” musicais, Maria Rita, cantando uma música sua (“Amor até o fim”) que foi gravada pela mãe, Elis Regina, é mais uma afirmação desse fluir do tempo.

Mais que lições práticas para músicos, o extra “Aulas de violão” aprofunda o DVD. Ao ensinar como se tocam cinco músicas suas, Gil explicita referências. Mais importante: ao desnudar o segredo, expõe o mistério. Como um bom patriarca.

Cotação: excelente



twitter
in O Globo, 15.12.2009
 
3112 registros:  |< < 295 296 297 298 299 300 301 302 > >|