Na cota do forrozeiro

DALWTON MOURA

Gilberto Gil cai no forró em seu novo disco, "Fé na festa", trabalho que marca o fim de mais de três décadas de união com a Warner e chega com patrocínio da Natura

Se não tem cota a gente leva na lorota, mas o dinheiro sempre ajuda, companheiro... Os versos são de "Aprendi com o rei", xote de João Silva que por aqui se tornou conhecido na voz de Waldonys, enfatizando as bênçãos gonzagueanas ao batizar os dois primeiros discos do acordeonista cearense. "Opa, vá deixando o meu aí... Ô, é dois pra lá e dois pra aqui", canta Gilberto Gil, em sua releitura para a canção, incluída em seu novo disco. "Fé na festa" chega trazendo a reboque diversas novidades. A começar pelo retorno mais substancioso do ex-ministro da Cultura à composição, prática que, segundo Gil chegou a declarar durante seus seis anos como gestor, tornou-se bem mais escassa, diante dos inúmeros compromissos de terno e gravata.

Das 13 faixas do novo disco, nove são assinada por Gil, que mostra parcerias com Vanessa da Mata ("Lá vem ela", música que fecha o trabalho) e Nando Cordel ("São João carioca", puxando o arrasta-pé). De seu clássico disco "Refavela", pinça a parceria com Perinho Santana e Moacyr Albuquerque, em "Norte da saudade", xotezinho em tom de viajante, cantando o sabor de cair na estrada, "logo cedo, pra não ter porém, pra não ter noite passada, pra não ter ninguém atrás". As imagens de simplicidade caem bem na atmosfera popular nordestina proposta pelo baiano no disco, calcado em xotes e baiões e entremeado pela temática junina, embora em um leque mais amplo, como é costume de Gil.

A própria produção do novo trabalho está entre as novidades para o cantor e compositor, que aos 67 anos, mais de 30 deles sob contrato com a multinacional Warner, contou com um patrocinador para a gravação do disco e a turnê de lançamento: a Natura, que já patrocinou artistas como Marisa Monte e Hamilton de Holanda. "As gravadoras não têm mais condições de fazer isso (bancar o artista), estão descapitalizadas, aquele modelo entrou em colapso", justificou Gil, em entrevista à Agência Estado, dando de ombros para possíveis críticas quanto ao fato de o álbum ter sido bancado pela empresa cujo presidente, Guilherme Leal, será o candidato a vice-presidente na chapa de Marina Silva, do Partido Verde, o mesmo de Gil. "Digamos que a Natura chegue para mim e diga ´Nós só aceitamos continuar patrocinando você se você aceitar se alinhar ao presidente da Natura´. Cabe a mim dizer sim ou não", declarou, sem deixar de cutucar os artistas "completamente submetidos ao sistema televisivo" e ao "jabá".

Gil no forró

Deixando a música falar mais alto, é preciso advertir que quem esperar, nas novas músicas de Gil, a elaboração harmônica e a densidade lírica que o tornaram um dos eternos mestres da canção brasileira vai dar de cara com características bem diferentes. Gil retorna às inéditas em proposta bem mais despretensiosa, privilegiando o acordeom e abordando temas como as festividades populares e o jogo de conquista nas "baladas e forrozões". "Festa na fé, fé na festa", puxa o refrão da faixa-título, entre citações ao São João e à "motoca jumenta" a conduzir um casal à festa. "O livre-atirador e a pegadora, a pegadora e o livre-atirador", insiste, no xote que se segue, mais melodioso e radiofônico, como que a dar a senha para a simplicidade pretendida, ao mesmo tempo em que procura atualizar o tema para a turma dos vinte e poucos anos.

Cantando em tom mais tradicional as coisas do amor, aparecem a dançante "Assim, sim" e o xote "Maria minha", de Eliezer Setton e Targino Gondim, que já brindou Gil com o hit "Esperando na janela". "Dança da moda", que na referência ao Rio casa com a parceria entre o baiano e Nando Cordel, completa as releituras do disco.

Entre baiões e arrasta-pés, Gil não deixa, porém, de pontuar temas trabalhados ao longo de sua obra. "O tempo não falha/o tempo atrapalha/O tempo não tem pudor", entoa em "Estrela azul do céu", mesmo entre mais referências ao São João. "Marmundo" joga com as palavras, menos para o concreto que para a brincadeira. Acaba no meio do caminho.

Outro velho mote, vida e morte dão as caras em "Vinte e seis", referência ao dia de nascimento do cantor, e "Não tenho medo da vida", a mais introspectiva. Filosofando, mas também caindo na pisada nordestina, em um disco que, mesmo sob o olhar do despretensioso, fica bem aquém do que se espera de Gil.

LETRA

"O LIVRE-ATIRADOR E A PEGADORA"

Não é casal porque não são casados
Não é um par porque logo são
três - ou mais
O fato é que já estão acostumados
Namoradas, namorados vários
de uma vez
Muita performance, muita parada
Muita balada, muito forrozão
Não tem romance, não tem
paixão frustrada
De valenaite não precisam não

Eh vale dia e noite, eh vale noite e dia
Vale pro carnaval, vale pro São João
Vale pro Rio, pra São Paulo, pra Bahia
Vale pro Ceará, vale pro Maranhão

O livre-atirador e a pegadora
A pegadora e o livre-atirador
Que amor pra eles é amor-pletora
Quem namora, quem namora, quem namora quem

Quem Timbalada, quem
Babado Novo
Quem Psirico, quem calcinha azul
Calcinha preta com cuequinha branca
Quem vale norte, vale norte a sul

CD
"Fé na festa"
Gilberto Gil
R$17,90
13 FAIXAS
GELEIA GERAL
2010



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in Diário do Nordeste, 02.06.2010
 
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