Produtivo, sem medo da morte, Gil chega aos 75 anos como ‘Buda nagô’

Mauro Ferreira

Gilberto Gil. O nome artístico já evoca a rara musicalidade que move o artista. A primeira sílaba do nome se repete no sobrenome, produzindo sons. Gil parece mesmo uma máquina de ritmos que continua em plena atividade. De bem com a vida, o cantor, compositor e músico baiano completa hoje 75 anos com turnê nacional programada para começar em agosto (ao lado de Gal Costa e de Nando Reis) e com álbum de músicas inéditas em processo de gravação na cidade do Rio de Janeiro (RJ) com produção do filho Bem Gil.

A produção incessante da máquina rítmica do artista contrasta com a postura zen do cidadão. É como se Gil encarnasse com mais propriedade, a cada dia, a cada ano, o espírito do Buda nagô que visualizou em Dorival Caymmi (1914 – 2008) na música de 1992 com que Gil celebrou o mestre e que é intitulada justamente Buda nagô.

Na praia musical de Gil, há Caymmi, mas não há fronteiras no horizonte. Com Gil, o sertão de Luiz Gonzaga (1912 – 1989) virou um mar de referências que, desde 1961, moldam cancioneiro que embute tanto a bossa de João Gilberto quanto o afrobeat de Fela Kuti (1938 – 1997), passando pelo rock dos Beatles e pelo reggae de Bob Marley (1945 – 1981). Porque Gil sempre soube que a refavela era tão bela nas misturas que fazem o asfalto ferver.

O Expresso 2222 de Gil circula pelos trilhos urbanos do mundo, sem nunca ter perdido de vista a Bahia natal, cenário das primeiras músicas, compostas em 1961 ao violão, instrumento que, nas mãos do artista, passou a ocupar o lugar do acordeom recorrente na década de 1950 quando Luiz Gonzaga mostrava ao Brasil como era feito o baião.

Como o baião, a música de Gil vem do barro do chão. Voz que emerge desse chão tão brasileiro quanto universal, Gil não tem medo da morte. Gil crê em Deus. E Caetano Veloso, amigo de fé e irmão musical camarada, nunca deixou de crer em Gil, único artista da genial geração da MPB projetada na década de 1960 que parece ter a alma tão grande quanto a obra de antropofágica natureza tropicalista.

Hoje, como ontem, Gilberto Passos Gil Moreira é um dos maiores nomes da música brasileira. Com fé na vida, na festa e na deusa música, o artista já transcende rótulos e chega aos 75 anos com aura mítica, como um Buda nagô. Gil é tão grande que já nem cabe em si.



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in G1, 26.06.2017
 
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