Gilberto Gil e os 75 anos de uma vida encantadora

Gilberto Gil faz aniversário hoje. Em 2007, eu o entrevistei quando ele era ministro no governo Lula

A nossa entrevista durou apenas 17 minutos. Mas isso não foi conseguido com facilidade. O compositor, cantor, músico, agitador cultural, então ministro Gilberto Gil, pelo cerco e pelo assédio da imprensa, pela corte que lhe seguia, pela roda de pessoas excitadas com a sua presença, pela quantidade de fotos e imagens que a todo minuto lhe tiravam, pelos interesses econômicos, financeiros, culturais que o envolviam, que o desejam a todo instante, o senhor Gilberto Gil era um pop star. que estava no poder político. Todos lhe sorriam. Todos lhe eram simpáticos.

Por várias vezes pensei desistir. Não fosse a minha mulher, eu teria fugido dali. Aos meus desabafos, enquanto caminhava ao longo de um préstito real, sufocado, quando eu dizia, “vou desistir”, a senhora Francêsca era mais prática, como todas as mulheres de indivíduos desastrados: “Você fez o mais difícil. Não pode mais desistir”. E por isso eu segui, com o mesmo sentimento dos que seguem para o primeiro avião da vida. Talvez um segundo antes do voo, eu pudesse desistir. E por isso eu fui.

Entendam a razão. Quando o compositor desceu do palco do Teatro Hermilo, onde respondera a perguntas do auditório, ao me acercar dele recebi cotoveladas, discretos empurrões, golpes elegantes no ventre e passagens bloqueadas como por acaso. As pessoas educadas, finas, se agridem com etiqueta. Impossível não lembrar de O Anjo Exterminador. Com a diferença de que, agora, todos podiam sair da sala e não queriam. Desejavam todos estar bem próximos do astro, e o inimigo era quem pensasse igual. Todos queriam estar perto, conversar, receber um olhar, um incentivo, sair na foto com o Ministro, que vinha a ser a mesma pessoa do compositor mundialmente famoso. Senti-me sob constrangimento por ser mais um dos que lhe sorriam, que procuravam ser simpáticos, úteis, camaradas. Tão íntimos, não é? Em resumo, o escritor que lhes fala era mais um dos que adulavam o pop star. O sorriso deles, o ar obsequioso, era o meu. Eu os censurava e os repetia.

“Eu vou desistir, eu vou...”. A simpática assessora Nanan Catalão me concedeu: “Você tem 15 minutos”. Mas onde? Iremos para algum lugar sossegado, uma reserva de paz nessa agitação? - A realidade tem a perversão de não ser conforme o nosso desejo. Eu não sabia que o mundo pop está acostumado a conversas sob luzes, câmeras e público. Para reforço do “eu vou desistir”, o compositor sentou-se em um banquinho, bem à vista de todos, na entrada do teatro. Um círculo se abriu em torno de nós dois. Ficamos numa arena. “Aqui mesmo”, Nanan apontou. Passei então a sorrir. Tiravam fotos do ministro. Ao trabalho.

Mas o que fazer do meu improviso escrito, com a pesquisa feita durante todo o dia, em que profetizei perguntas, ditos espirituosos para a sala fechada, eu e Gil? “A sua vez é agora”, ouvi de Nanan. O diabo é que entre as minhas habilidades a pior é mexer com o gravador. Então vamos, eu me disse, com uma resolução dos náufragos, se é que os náufragos têm alguma resolução. Notei então que a fita atingira o fim. E procurei, enquanto o Senhor Ministro esperava, achar a misteriosa tecla para a fita sair. Olhei para a minha mulher, e a sua cumplicidade me fez achar o caminho. Mudei o lado da fita. Muito bem, apertei a tecla vermelha. Gravando.

O espaço do jornal acabou. Recupero a pergunta e resposta final:

“Se você não fosse um homem negro, que artista você seria?

Gil - Eu não faço a menor ideia. (Risos.). Eu não teria essa sestrosidade rítmica que eu tenho, isso é uma coisa que eminentemente muita gente tem, outras raças, outros contextos étnicos propiciam, mas a vivência negra, da cultura negra... e quando eu digo raça, digo nesse sentido, de mais no sentido da cultura, de ser negro culturalmente negro me dá uma relação com a música, com o ritmo, com o mundo religioso, com tudo enfim que eu não teria não sendo negro, e portanto não seria o artista que eu sou. Seria outro. Outra pessoa”.

Parabéns, eterno Gilberto Gil.



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in Diário de Pernambuco - Recife, 26.06.2017
 
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