Pelo bem dos brasileiros, Gilberto Gil não seguiu o conselho do sábio…

Julinho Bittencourt

Na penúltima década do século passado, quando ainda rondava os sessenta anos, Gilberto Gil escreveu, em sua canção “Cada Tempo em Seu Lugar”: “Agora deve estar chegando a hora de ir descansar/Um velho sábio na Bahia recomendou: ‘Devagar’”. Pelo bem dos brasileiros e, provavelmente, dele mesmo, Gil não seguiu o conselho do sábio.

Nesta segunda-feira (26), Gil completa 75 anos em plena atividade. Do conselho para cá, ele gravou ao menos duas dezenas de discos, entre trilhas ao vivo e de estúdio. Além disso, foi também um dos ministros da Cultura mais relevantes do país. Uma trajetória incansável e renovadora, como se houvesse um novo ponto de partida a cada par de décadas produtivas do artista.

Dentre os discos que fez neste período estão “Parabolicamará”, “Quanta” e “Banda Larga Cordel”, onde Gil reflete cada vez mais profundamente sobre a tecnologia e o seu uso, a sua capacidade em gerar bem-estar e restaurar a utopia. O tema, sobretudo a internet e suas possibilidades, foi quase uma obsessão do autor.

Fez também o experimental “Sol de Oslo”, com participação de Marlui Miranda; “Tropicália 2”, com Caetano Veloso, comemorando os 25 anos do lendário álbum “Tropicália”. Gravou, como se alinhavasse a sua própria trajetória, a trilogia em homenagem às três pontas até então soltas de suas influências: o eletrizante “São João Vivo”, para Luiz Gonzaga; a absoluta homenagem a Bob Marley, “Kaya N’gan Daya” e a célula mãe de sua forma e conteúdo “Gilbertos Sambas”, para João Gilberto.

Entre esses ainda podemos contar vários outros discos inspirados. Neste meio tempo, e como se não bastasse, Gil foi arranjar tempo para aceitar o convite do então presidente Lula e virar ministro da Cultura. Nariz torcido por este e outros tantos escribas que acabaram por pagar a língua e a pena. A gestão de Gil, assim como sua vida e música, foi também um caso à parte.

Gilberto Gil Ministro Foto: Commons

O primeiro disco que fez como ministro foi o emblemático “Banda Larga Cordel”, que trazia o símbolo do creative commons na capa. Outra medida do artista foi disponibilizar toda a sua obra na internet. Estava dada a largada para a batalha contra o fim do copyright, o direito de cópia, disponibilizar a reprodução infinda de todas as obras.

Mas a luta de Gil não ficou por ai. Ampliou como poucos o significado da cultura e as suas possibilidades. Abrigou no seu guarda-chuva a luta dos negros, as religiões afro-brasileiras, os grupos LGBT’s, os indígenas entre tantos outros. Criou pontos de cultura em todas as partes do país e inverteu a ordem da verba pública. Ao invés de grandes recursos para grandes projetos, mandava pequenos equipamentos para os lugares mais longínquos e tinha como retorno explosões de produções locais.

Neste tempo em que imaginava descansar, Gil foi mais Gil do que nunca. Hoje, com 75 anos está tão ativo quanto antes. Vai sair em turnê com Nando Reis e Gal Costa, mantém a média de, ao menos, um disco por ano e ainda tem muito por fazer, gravar e cantar.

Longa vida a Gilberto Gil, um grande brasileiro, um artista do mundo.



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in Portal Fórum, 26.06.2017
 
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