Com inéditas, 'Trinca de Ases' nivela Nando Reis, Gilberto Gil e Gal Costa

AMANDA NOGUEIRA e VICTORIA AZEVEDO

Enquanto Nando Reis, 54, era um adolescente, antes mesmo de despontar como o baixista dos Titãs, Gal Costa, 71, e Gilberto Gil, 75, já traçavam novos contornos da música brasileira. "Eu os tinha como ídolos", conta Reis.

Agora, já um músico veterano, ele sobe ao palco ao lado daqueles que, segundo ele, foram decisivos para sua carreira. O trio dá o pontapé inicial da turnê "Trinca de Ases" nesta sexta (4) em São Paulo, antes de seguir para outras capitais brasileiras.

A união dá sequência a uma leva de turnês conjuntas e comemorativas, como as recentes "Grande Encontro", que reuniu Elba Ramalho, Alceu Valença e Geraldo Azevedo, e "Dois Amigos, Um Século de Música", que celebrou as carreiras de Caetano e Gil.

"A gente gosta dessas junções, há muito respeito entre os artistas", diz Gil. A ideia para "Trinca de Ases", ele conta, surgiu depois de um encontro em Brasília durante uma homenagem a Ulysses Guimarães no ano passado.

"Algo aconteceu ali que nos agradou", diz Reis. "Surgiu uma faísca que nos deu vontade de continuar."

Essa reunião, diz, serviu para que seus ídolos conhecessem o seu repertório tão a fundo quanto ele já conhecia os deles. "O trabalho real trouxe uma desmistificação e uma humanização que acabou aumentando a minha admiração por eles."

Gal diz se sentir "muito feliz sendo ponto de referências para artistas" como Nando Reis. "É muito gratificante saber que você pode espalhar sementes por aí."

Os ensaios para a turnê interromperam os projetos paralelos. Gal, seguia com a turnê "Estratosférica", Nando com a do disco "Jardim-Pomar" e Gil com a gravação de seu próximo álbum.

Para além das inéditas de seu novo trabalho, compostas durante suas internações durante o último ano, Gil apresenta agora "Trinca de Ases", que nomeia o projeto e descreve seus idealizadores.

A seleção também inclui outros dois temas inéditos: "Dupla de Ás" e "Tocarte", primeira parceria entre Gil e Nando Reis, e uma série de releituras de obras bem conhecidas do público na interpretação dos três. Uma quarta faixa, composta por Nando Reis em homenagem a Gal, deve figurar em um próximo trabalho da cantora.

"Eu me meti pouco, não dei muito palpite no repertório", diz Gil, que preferiu se dedicar aos arranjos. "Há uma exigência musical de adequação dos nossos números, principalmente das músicas que foram gravadas em estúdios, já muito celebradas", completa.

"Baby", que segundo o Ecad é a canção mais gravada por Gal, é uma das que ganharam uma nova roupagem a partir dos arranjos de Gil.

"É sempre possível lançar um novo olhar sobre uma obra conhecida, é só você ter coragem e se jogar numa sonoridade nova", diz a cantora.

"É um risco", completa Nando Reis, uma vez que canções consagradas "não estão só impressas nos ouvidos, dedos e cordas vocais dos artistas, como também no imaginário popular."

Para acompanhá-los nos shows, sem que houvesse "um vício de linguagem das identidades musicais muito forte dos artistas", diz Reis, foram escalados músicos que não integram as respectivas bandas: o baixista pernambucano Magno Brito e o percussionista baiano Kainan do Jêjê.

Reis, aliás, exalta a preocupação com uma horizontalidade no projeto que o forçou a "dissociar admiração de reverência". "A ideia sempre foi um trabalho coletivo. Não sou convidado, sou um pilar. A contribuição da minha musicalidade está num pé de igualdade."



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in Folha de S. Paulo, 03.08.2017
 
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