Novo show de Nando Reis, Gal Costa e Gilberto Gil chega ao Rio

Silvio Essinger

RIO — Como juntar Gilberto Gil, Gal Costa e Nando Reis num só show? Gil e Gal têm uma longa história em comum, de Salvador, Tropicália, Doces Bárbaros e interpretações imortais da cantora para as músicas do amigo. Já com Nando, a conexão pode vir por intermédio de um reggae, digamos — gênero que tanto ele (na época em que era um dos Titãs) quanto o baiano ajudaram a propagar pelo Brasil. “Nos barracos da cidade”, sucesso de Gil de 1985 (parceria com o produtor Liminha) é uma dessas músicas que unem o trio, batizado de Trinca de Ases, no show que estreou na semana passada em São Paulo e que agora chega ao Rio, nas noites de sexta e sábado, no Km de Vantagens Hall. “Gente estúpida, gente hipócrita!”, promete cantar com eles um público em estado de fervor político.

— Essa música tem esse sentido crítico atemporal, geral. Ela critica todo esse tipo de insensibilidade ao compromisso com o outro, à equalização dos direitos e dos deveres. No caso do Brasil de agora, ela fica mais evidente — analisa Gil.

Gal mede menos as palavras ao comentar a atualidade da canção.

— Nesse momento, ela é muito apropriada. Você fala de ganância e de usura bem mais do que em outros momentos. No Brasil e no mundo.

“Trinca de ases” nasceu no ano passado como uma homenagem ao centenário de Ulysses Guimarães, idealizada pelo jornalista de O GLOBO Jorge Bastos Moreno — um show em Brasília, em outubro, só com as vozes do trio e os violões (e canções) de Gil e Nando. O espetáculo intimista de Moreno (que faleceu em junho) foi ganhando uma nova cara e também encorpou. Agora, no palco, não estão mais lá apenas “a moça”, “o rapaz maduro calejado pela idade” e “o menino impetuoso e viril” (como denominou Gil na letra da inédita “Trinca de ases”, que abre o show), mas também o baixista pernambucano Magno Brito e o percussionista baiano Kainan do Jêjê (ambos integrantes da Sinara, banda que reúne filho e netos do baiano).

— Eu pedi aos dois (Nando e Gal) que a gente fizesse o show em pé e que acrescentássemos um baixo e uma percussão para realmente chegar a esse mínimo de robustez que ressaltasse os gêneros musicais — explica Gil.

— E isso trouxe mais elementos musicais para que a gente não fique só na relação do intérprete com a canção, o que deixaria o show muito desmembrado entre nós, que somos compositores, e a Gal. Agora tem essa trança coletiva de interferências, é menos recital — avança Nando.

— Estamos mais juntos agora, com o show mais equilibrado — completa Gal. — A gente vai amadurecendo, um se intromete na música do outro.

Ao longo da travessia, canções entraram na barca. Por sugestão do produtor Marcus Preto (que dirigiu Gal no disco/show “Estratosférica” e fez assessoria artística para “Trinca de ases”), a cantora se apoderou de “Meu amigo, meu herói”, de Gil, sucesso na voz de Zizi Possi.

— Me comoveu a ideia de cantar para ele essa canção — justifica-se Gal, que ainda pediu a inclusão de outra de Gil, “Retiros espirituais”, e de “Lately”, de Stevie Wonder, que Nando começa cantando em inglês e ela segue em português, na versão de Ronaldo Bastos (“Nada mais”, hit de Gal nos anos 1980).

A arrumação geral agradou em especial à cantora, que não ficara satisfeita com a primeira versão do espetáculo:

— (Se continuasse daquele jeito) a gente ia dormir no palco!

Nando dá razão a Gal. Em parte.

— Criar um show dessa natureza é algo diferente do que a gente está acostumado a fazer. Montar o show no papel é uma coisa, mas quando junta as canções e faz os arranjos é que você percebe o equilíbrio que há entre as músicas mais pulsantes e as mais lentas — diz. — E havia inicialmente um excesso de músicas lentas, talvez por causa da beleza da voz da Gal.

Outro percurso que a “Trinca de ases” teve que seguir foi o do amálgama dos dois violões, distintos, de Gil (com macias cordas de nylon, do samba e da bossa) e de Nando (com suas cordas de aço do folk e do rock).

— Deu trabalho! — confirma Gil. — Às vezes vou imprimindo acentuações mais vibrantes e fico perguntando para o Nando se ficou legal.

E o ex-titã dá a sua opinião sobre o processo.

— Nossas composições são muito estruturadas em cima da forma que cada um tem de tocar violão. O que fazemos no show não é tocar simplesmente por tocar, mas fazer com que as canções soem diferentes. E isso ainda vai mudar.

Com um show em que apenas duas canções (“Lately” e Baby”, de Caetano Veloso) não têm as mãos de Gil ou de Nando, era inevitável que os dois acabassem compondo algo.

— Logo que a gente começou, chegamos à conclusão de que seria bom ter coisas novas. Uma das ideias era a de fazer algo para a Gal — conta Nando, que fez para ela “A mãe de todas as vozes”.

A canção, no entanto, não será ouvida nos shows dos trio.

— A gente não ficou feliz com o arranjo. Depois eu gravo. E também tem uma coisa: eu achei que estava cantando demais no show — conta a cantora, que assim deixou o repertório com apenas três inéditas: “Trinca de ases”, “Dupla de ás” (de Nando) e “Tocarte”, letra de Gil e que recebeu música do ruivo.

Com músicas nos novos álbuns dos Paralamas do Sucesso (“Não posso mais”) e do também ex-Titãs Paulo Miklos (“Vou te encontrar”), Nando admite viver um surto de composição.

— Há sempre entre os compositores uma vontade de produzir, uma angústia de quando virá a próxima música. Para mim funciona assim. Há períodos em que você não consegue produzir. Mas esse show me abriu a porta, eu fiz “Dupla de ás” motivado pela música do Gil. E poderia ter feito mais — conta.

Nos últimos quatro meses, Gil compôs 15 canções, que foram para o seu disco de inéditas (em fase de finalização pelo filho e produtor Bem Gil, ainda sem título ou data de lançamento) e para Roberta Sá. Enquanto se prepara para correr a estrada com “Trinca de ases” e participar do show “Refavela 40” (organizado por Bem para celebrar seu clássico disco de 1977), o baiano acompanha de longe as movimentações políticas que levaram um antigo colaborador seu, Sérgio Sá Leitão, a assumir o Ministério da Cultura:

— A principal dificuldade dele será desvincular o seu trabalho de um governo que passa por uma deterioração imensa e ter autonomia suficiente para tocar a sua administração. Isso, além dos problemas que vai enfrentar de orçamento, que já era muito exíguo, com esses cortes do (ministro da Fazenda, Henrique) Meirelles. Experiência mínima como gestor cultural, o Sérgio tem. Vamos ver como ele se sai.



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in O Globo, 08.08.2017
 
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