Show ‘Trinca de ases’ ganha jogo com as antigas cartas de Gal, Gil e Nando

É curioso que o momento de maior voltagem emocional de Trinca de ases – show que reúne Gal Costa, Gilberto Gil e Nando Reis – aconteça quando a cantora dá voz à doída balada que lançou em 1984 numa das fases mais populares da carreira. A plateia que lotou a casa KM de Vantagens Hall para assistir à estreia carioca do show na noite de ontem, 11 de agosto de 2017, levantou e aplaudiu Gal de pé pela interpretação de Nada mais, versão em português de Ronaldo Bastos para Lately, música lançada pelo compositor norte-americano Stevie Wonder em 1980.

Após Nando cantar a música com a letra original em inglês, Gal soltou a voz na versão em português e arrepiou no número adornado por sutis floreios vocais com os quais Gil citou o arranjo da gravação feita por Gal no álbum Profana (1984). A partir desse número, a empatia e a comunicação entre artistas e público foram amplificadas no show.

Na sequência, Nando puxou uma das músicas mais animadas do cancioneiro solo do ex-Titãs, Por onde andei (2004), e Gil cantou Nos barracos da cidade (1985), música de efeito catártico no atual momento político do Brasil. Parceria de Gil com Liminha, Nos barracos da cidade foi o fecho inesperado de show que, no bis, esboçou clima de festa com O segundo sol (Nando Reis, 1999), A gente precisa ver o luar (Gilberto Gil, 1981) e Barato total (Gilberto Gil, 1974), com os três artistas unindo vozes e forças.

Em turnê pelo Brasil neste segundo semestre de 2017, em rota iniciada pela cidade de São Paulo (SP) em 4 de agosto, o show Trinca de ases é a versão revista e ampliada do espetáculo idealizado pelo jornalista Jorge Bastos Moreno (1954 – 2017) e apresentado uma única vez em Brasília (DF) em 2016 para celebrar o legado e o centenário de nascimento do político Ulysses Guimarães (1916 – 1992).

Nessa nova versão do show, cuja direção musical é assinada por Gil com Nando, três músicas inéditas entram em cena. A melhor das três é a composição-título Trinca de ases, rock pop tropicalista criado por Gil. Não por acaso alocada na abertura do roteiro, a música remete ao clima do grupo Doces Bárbaros – formado em 1976 pelo próprio Gil com Gal, Caetano Veloso e Maria Bethânia (por iniciativa de Bethânia) – e funciona como carta de intenções do trio aglutinado 40 anos depois daquele fantástico quarteto.

Dupla de ás vem na sequência da música Trinca de ases e é da lavra de Nando Reis, mas não expõe todo o potencial deste craque na arte da composição. Apresentada mais para o fim do show, com o batuque do percussionista baiano Kainan do Gegê, a terceira música inédita, Tocarte, tem maior poder de sedução. Trata-se da primeira parceria de Gil com Nando, de cujos violões também saíram toques percussivos nesse número. A letra engenhosa versa sobre o jogo erótico do amor com alusões metafóricas ao toque da mesma deusa música celebrada por Gil em Palco (1980), número em que o cantor baiano de recém-festejados 75 anos mostrou vitalidade que manteve ao longo da apresentação feita com a voz de graves acentuados pela rouquidão.

Em que pese os momentos de brilho individual, Gal titubeou na estreia carioca de Trinca de ases. Tanto que errou a letra de Baby (Caetano Veloso, 1968) já no primeiro verso, soltando um inacreditável “Você precisa aprender a piscina”. Sucesso do grupo mineiro Skank, Dois rios (Samuel Rosa, Nando Reis e Lô Borges, 2003) ainda pode correr com mais fluência na voz da cantora, visivelmente insegura com a letra lida no teleprompter. Em contrapartida, uma das mais belas e sensíveis baladas do cancioneiro de Nando Reis, Espatódea (2006), caiu lindamente na voz já maturada de Gal, ainda que a música verse sobre assunto da vida pessoal de Nando (a chegada da filha Zoé, musa inspiradora da canção).

Quanto maior a interação entre os cantores, mais o show Trinca de ases dá as cartas em cena. Como mostraram as interpretações em trio de Esotérico (Gilberto Gil, 1976) – música dos Doces Bárbaros abordada com mais ternura – e de Cores vivas (Gilberto Gil, 1981), linkada no roteiro com Água-viva (2016), tema da safra recente de Nando que ganha pulso roqueiro em Trinca de ases, show feito também com o toque do baixo Magno Brito.

Já Copo vazio (Gilberto Gil, 1974) encheu o ambiente com densidade filosófica que já havia reverberado no número anterior com a lembrança de Retiros espirituais (Gilberto Gil, 1975), dando início a um set mais íntimo em que os três cantores, sentados lado a lado no palco, mergulharam em atmosfera mais espessa. Ainda dentro desse clima mais interiorizado, Gal brilhou ao cantar Meu amigo, meu herói (1980), música de Gil lançada na voz de Zizi Possi. A sós com Gil no palco, Gal reiterou laços de fraternidade com o amigo através da canção em pungente momento.

Novidade do roteiro na estreia carioca do show, Relicário (2000) foi abordada em dueto de Gal e Nando, mostrando como o cancioneiro do compositor se ajustou bem à voz singular da cantora. Tem tudo para se tornar um dos destaques do show à medida em que o número ficar mais azeitado no decorrer da turnê.

Enfim, Trinca de ases ganha o jogo sobretudo quando lança mão de antigas e infalíveis cartas dos repertórios desses três craques da música popular. A base do roteiro são as obras sólidas de Gil e Nando, revividas com as tramas dos violões dos artistas (e Gil é, também, ás do violão pleno de musicalidade). Por isso mesmo, é curioso como a doída balada popular lançada por Gal há 33 anos têm o poder de levantar o show e o público. (Cotação: * * * *)

Eis o roteiro seguido em 11 de agosto de 2017 por Gal Costa, Gilberto Gil e Nando Reis na estreia carioca do show Trinca de ases na casa KM de Vantagens Hall, na cidade do Rio de Janeiro (RJ):

1. Trinca de ases (Gilberto Gil, 2017)

2. Dupla de ás (Nando Reis, 2017)

3. Palco (Gilberto Gil, 1980)

4. Baby (Caetano Veloso, 1968)

5. All star (Nando Reis, 2000)

6. Espatódea (Nando Reis, 2006)

7. O seu lado de cá (Nando Reis, 1995)

8. Esotérico (Gilberto Gil, 1976)

9. Cores vivas (Gilberto Gil, 1981)

10. Água-viva (Nando Reis, 2016)

11. Retiros espirituais (Gilberto Gil, 1975)

12. Copo vazio (Gilberto Gil, 1974)

13. Meu amigo, meu herói (Gilberto Gil, 1980)

14. Pérola negra (Luiz Melodia, 1971)

15. Relicário (Nando Reis, 2000)

16. Refavela (Gilberto Gil, 1977)

17. Ela (Gilberto Gil, 1975)

18. Tocarte (Gilberto Gil e Nando Reis, 2017)

19. Dois rios (Samuel Rosa, Nando Reis e Lô Borges, 2003)

20. Lately / Nada mais (Stevie Wonder, 1980 / Versão em português de Ronaldo Bastos, 1984)

21. Por onde andei (Nando Reis, 2004)

22. Nos barracos da cidade (Gilberto Gil e Liminha, 1975)

Bis:

23. O segundo sol (Nando Reis, 1999)

24. A gente precisa ver o luar (Gilberto Gil, 1980)

25. Barato total (Gilberto Gil, 1974)



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in G1, 12.08.2017
 
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