Com Gil tinindo, ‘Refavela 40’ é show negro para gente de todas as cores

Mauro Ferreira

Na fala de Gilberto Gil inserida como sample na introdução do show Refavela 40, o cantor, compositor e músico baiano conta que assumiu a definição dada ao álbum Refavela (Philips, 1977) – “um disco negro para todas as cores” – em resenha escrita por jornalista do Sul do Brasil. Pois o show Refavela 40, cuja turnê nacional estreou no palco carioca do Circo Voador aos primeiros minutos deste sábado, 2 de setembro de 2017, é show negro feito por e para gente de todas as cores com o intuito de celebrar os 40 anos de um dos álbuns mais visionários da discografia de Gil.

Em Refavela, disco nascido a partir de viagem do artista à Nigéria, na África, Gil conectou quatro pontas da música negra produzida com vigor no universo pop da época. O afrobeat do nigeriano Fela Kuti (1938 – 1997) era o ponto matricial que interligava a então renovada juju music da África com a batida funk do black Rio de Janeiro, com as levadas afro-brasileiras dos sons da Bahia e com o reggae feito na Jamaica no tom de Bob Marley (1945–1981).

Concretizado por Bem Gil (filho do mentor do disco), a partir de ideia dos músicos Thiagô de Oliveira e Thomas Harres, o show Refavela 40 amalgama todos os ritmos do álbum no roteiro que abre espaço para solistas como Céu, Maíra Freitas e Moreno Veloso. A banda – formada por excelentes músicos contemporâneos como o próprio Bem Gil (guitarra), Bruno Di Lullo (baixo), Domenico Lancellotti (bateria), Mateus Aleluia Filho (trompete) e os já mencionados Thiagô de Oliveira (saxofone) e Thomas Harres (percussão), além de Moreno Veloso (na percussão) – contribui para a multiplicidade de tons e cores do show, traduzida no cenário-origami criado por Celina Kuschnir para adornar o palco.

Até a cor lúdica do Sítio do pica-pau amarelo – canção composta por Gil em 1977, ano de Refavela, para a trilha sonora do programa infantil da TV Globo – entrou na dança, no bis festivo iniciado com o reggae Three little birds (Bob Marley, 1977), na feliz estreia nacional do show no Circo Voador, para onde o show voltará em 13 de janeiro de 2018 após percorrer várias cidades do Brasil em turnê que segue para São Paulo de 7 a 9 de setembro.

Mas é claro que predomina o som de preto nas músicas do roteiro. Aquele que, quanto toca, ninguém fica parado, como reiterou a primeira apresentação de Refavela 40. O show transcorreu coeso, geralmente animado, ainda que a entrada em cena de Gil, no toque do ijexá que pauta Patuscada de Gandhi(tema do grupo de afoxé Filhos de Gandhi com o qual Gil fecha o álbum Refavela), tenha sido naturalmente o ápice. Gil estava em ótima forma vocal, com vivacidade jovial que desacreditam os 75 anos completados em 26 de junho.

Elétrico, o cantor pegou a guitarra para cantar a música-título Refavela (Gilberto Gil, 1977), cujo prefixo vocal abriu o show nas vozes das vocalistas Ana Claudia Lomelino e Nara Gil, com quem o pai do histórico disco fez dueto na sequência em É, música de Gil lançada em 1979 pelo Mar Revolto no homônimo primeiro álbum desse grupo baiano, mas já incluída por Gil nos shows de lançamento do álbum Refavela. Com a voz tinindo, Gil solou o número final, Babá Alapalá (Gilberto Gil, 1977), tributo aos orixás da deusa música africana, matriz da refavela erguida pelo artista com inspiração (também) no êxodo compulsório de populações das comunidades cariocas para bairros mais afastados da desde sempre partida cidade do Rio de Janeiro (RJ).

Antes de Gil entrar em cena para coroar a celebração dos 40 anos de Refavela, Maíra Freitas se revelou a primeira grande surpresa do show pela presença luminosa, repleta de musicalidade. Empoderada em belo figurino afro, Maíra destilou orgulho negro ao celebrar o Ilê Aiyê em Que bloco é esse? (Paulinho Camafeu, 1977) – número em que Moreno Veloso citou apropriadamente Um canto de afoxé para o bloco do Ilê, tema do próprio Moreno apresentado em 1982 pelo pai do artista, Caetano Veloso, no álbum Cores, nomes – e em Sarará miolo (Gilberto Gil, 1977), música que Gil lançou em dueto com Nara Leão (1942 – 1989) em álbum feito pela cantora no mesmo ano de Refavela.

Após Moreno solar o reggae Sandra (Gilberto Gil, 1977) com citação de Arrivederci (Moreno Veloso, 2000), música do repertório do trio + 2, Maíra reassumiu o protagonismo e fez o Samba do avião (Antonio Carlos Jobim, 1962) pousa na pista do Black Rio. A swingueira ficou por conta do toque do piano de Maíra, que ainda dividiu com Moreno o reggae Two naira fifty kobo, lançado por Caetano Veloso naquele negro ano musical de 1977. Foi baile-show!

Mais eficaz como vocalista do que como solista da canção Queremos saber (Gilberto Gil, 1977), Ana Claudia Lomelino teve a tarefa de interpretar uma música de natureza mais filosófica e transcendental, de menor voltagem rítmica. Nesse mesmo tom existencialista, Moreno deu voz a Aqui e agora (Gilberto Gil, 1976), realçando cores menos vivas mas nem por isso menos importantes no conjunto da obra de Gil.

O reggae de Bob Marley se ajustou bem ao tom desse roteiro plural. Música-título do álbum lançado em 1977 pelo astro jamaicano, Exodus (Bob Marley, 1977) preparou o clima para o set protagonizado por Céu. Por conta dos habituais mergulhos na praia do reggae, a cantora paulistana achou um tom confortável para rebobinar Norte da saudade (Gilberto Gil, Perinho Santana e Moacir Albuquerque, 1977) – reggae em que caiu no suingue ao citar a própria Arrastarte-ei (Céu, 2016) – e de Jamming (Bob Marley, 1977). Mas brilhou mesmo ao reviver Era nova (Gilberto Gil, 1977). Em contrapartida, A gaivota (Gilberto Gil, 1976) deu rasante com Céu, cantora sem rigor estilístico para encarar a bela música lançada na voz de Ney Matogrosso.

O voo baixo de Céu em A gaivota jamais tirou o brilho de show conduzido em alto astral com as levadas da big-band em que Thomas Harres sobressaiu ao manejar a percussão que introduziu Balafon (Gilberto Gil, 1977). Bem estruturado, o roteiro soube extrapolar o repertório de Refavela sem sair do universo do álbum em que Gil fez e cantou música negra para gente de todas as cores. Exatamente como acontece no show celebrativo deste disco referencial na obra magistral do mestre. (Cotação: * * * *)

Eis o roteiro seguido na madrugada de 2 de setembro de 2017 por Gilberto Gil e convidados na estreia nacional do show Refavela 40, na casa de shows Circo Voador, na cidade do Rio de Janeiro (RJ):

1. Refavela (Gilberto Gil, 1977) – Prefixo vocal

2. Que bloco é esse? (Paulinho Camafeu, 1977) – com citação de Um canto de afoxé para o bloco do Ilê (Moreno Veloso, 1982)

3. Aqui e agora (Gilberto Gil, 1977)

4. Sarará miolo (Gilberto Gil, 1977)

5. Sandra (Gilberto Gil, 1977) – com citação de Arrivederci (Moreno Veloso, 2000)

6. Samba do avião (Antonio Carlos Jobim, 1962)

7. Two naira fifty kobo (Caetano Veloso, 1977) – com citação de Xamego (Luiz Gonzaga e Miguel Lima, 1944)

8. Balafon (Gilberto Gil, 1977)

9. Queremos saber (Gilberto Gil, 1976)

10. Exodus (Bob Marley, 1977)

11. Norte da saudade (Gilberto Gil, Perinho Santana e Moacir Albuquerque, 1977) – com citação de Arrastarte-ei (Céu, 2016)

12. A gaivota (Gilberto Gil, 1976)

13. Era nova (Gilberto Gil, 1977)

14. Jamming (Bob Marley, 1977)

15. Patuscada de Gandhy (Filhos de Gandhy, 1977)

16. Refavela (Gilberto Gil, 1977)

17. É (Gilberto Gil, 1979)

18. Babá Alapalá (Gilberto Gil, 1977)

Bis:

19. Three little birds (Bob Marley, 1977)

20. Sítio do pica-pau amarelo (Gilberto Gil, 1977)



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in G1, 02.09.2017
 
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