"Refavela" quarentão

Silvio Essinger

Em 1977, Gilberto Gil fez uma viagem a Lagos, na Nigéria, para participar do II Festival Mundial de Arte e Cultura Negra (Festac), onde travou contato com o afrobeat de Fela Kuti e com toda uma vibrante nova música africana. Por outro lado, via no Rio a emergência do funk americano nos bailes de subúrbio e, em Salvador, o fenômeno da reafricanização do Carnaval com blocos como o Ilê Aiyê. Paralelamente, acompanhava o êxodo de moradores de favelas para conjuntos habitacionais longe do centro das cidades.

Tudo isso fermentou em sua cabeça e deu em "Refavela", seu disco mais simbólico de uma herança cultural da diáspora africana. Um LP que completa 40 anos com show-tributo estreado no último dia 31 no Rio e depois passa por São Paulo (dias 7 a 10), Salvador (23), Belo Horizonte (29) e Porto Alegre (em 10/12).

"'Refavela' nem soa como um disco feito há 40 anos, poderia ser do ano passado", observa Bem, filho de Gil, guitarrista e mentor da homenagem, que montou para o projeto uma banda com Bruno Di Lullo (baixo), Domenico Lancellotti e Thomas Harres (bateria e percussão), Thiagô de Oliveira e Mateus Aleluia (sopros), Nara Gil e Ana Cláudia Lomelino (vocais), e as vozes convidadas de Maíra Freitas, Moreno Veloso e Céu.

Plano

"Esperei os 40 anos do disco para fazer esse show, que nasceu de uma ideia do Thomas e do Thiagô. Há uns quatro anos, eles pensaram em comemorar o Fela Day (15 de outubro, aniversário de Fela Kuti) com o meu pai cantando o 'Refavela'. Não deu para fazer na época, mas fiquei com a ideia na cabeça".

Envolvido em shows com o Trinca de Ases (ao lado de Gal Costa e Nando Reis), na finalização de um disco de inéditas (produzido por Bem) e ideias novas de reviver nos palcos o lado mais rock do sua produção, Gil não participou diretamente da criação do "Refavela 40".

Ele faz a sua parte cantando as músicas do disco que resistiram em seu repertório dos shows: "Refavela" e "Babá Alapalá" ("a primeira vez em que me aventurei pela pletora das entidades africanas", conta). Em "Refavela 40", Gil é um convidado muito especial de sua família estendida, onde estão filhos de fato (Bem e Nara), um filho "adotivo" (Moreno) e uma nora (Ana), além de velhos e novos amigos.

"O 'Refavela' se inseria num território específico que é o da música negra, num momento em que ela se tornava planetária, com as influências do jazz, da música cubana, dos sambas e dos batuques brasileiros e da música africana que pela primeira vez chegava ao mundo com Fela Kuti, King Sunny Adé e a ju ju music", explana Gil, para quem havia ali "tendências muito nítidas, e muitas delas com a perspectiva da irreversibilidade". "Eu estava agora na Croácia e nos vários lugares ouvia música. E era predominantemente batuque negro. Com as conformações eletrônicas dos DJs, mas tudo batuque".

Adições

Segundo Bem, "Refavela 40" parte do disco do seu pai para ir "a todos os lugares possíveis". "O LP tem dez faixas, aí resolvi recolher coisas que fazem parte daquela época: músicas que estavam no show do 'Refavela'; o 'Bicho', que é um disco-irmão (Caetano Veloso o gravou logo depois de voltar da viagem a Nigéria com Gil); e 'Exodus' (álbum de 1977 de Bob Marley), uma vez que 'Norte da saudade' e 'Sandra' (faixas de 'Refavela'), são os primeiros reggaes na obra do meu pai". Quando convidado por Bem, Moreno Veloso sabia exatamente o que cantar. E não era nem o "Two naira fifty kobo", reggae do disco do pai, Caetano, incluído no show.

"O 'Refavela' tem uma das músicas de amor mais bonitas que eu conheço, 'Sandra', que foi feita para a minha tia (Sandra Gadelha, então mulher de Gil), irmã da minha mãe (Dedé Gadelha). Canto essa feliz da vida", conta Moreno, que também presta serviços de percussionista em "Refavela 40".

"Soldado no quartel tá querendo trabalhar. E o 'Refavela' é um disco em que a percussão é muito bem-vinda, tô lá pra engrossar o caldo".

Além do show, o projeto "Refavela 40" chega também com um volume da coleção "O Livro do disco", da editora Cobogó, dedicado ao LP de 1977 (assinado por Maurício Barros de Castro) e a reedição em vinil do disco.

Até o fim do mês, será lançada como single nas plataformas digitais uma nova versão de "É", faixa que Gil chegou a gravar para o "Refavela", mas deixou de fora por não considerou satisfatória:

"Aquela versão para o disco era muito Mutantes, essa de agora passa pelas outras versões do rock no Brasil".

Convidadas

Céu, que mata a perene vontade de cantar com o ídolo Gil, diz se sentir em casa em "Refavela". "Dei muita sorte, porque o Bem escolheu as que queria cantar, 'O norte da saudade', 'Gaivota' e 'Nova era'. São aquelas mais downtempo, que eu amo. E vamos fazer uma versão do Marley, o 'Jamming'", adianta.

Já para Maíra Freitas, filha de Martinho da Vila e novata no campo de Gil, o "Refavela" é "presente, passado e futuro, tudo ao mesmo tempo": "Eu canto 'Ilê Ayê', 'Samba do avião' e 'Two Naira Fifty Kobo'. Estou aqui mais curtindo o som que outra coisa".



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in O Globo, 04.09.2017
 
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