A refavela desvenda 2017

“O filho perguntou pro pai/ onde é que tá o meu avô/ o meu avô onde é que tá/ o pai perguntou pro avô/ onde é que tá meu bisavô/ meu bisavô onde é que tá/ avô perguntou bisavô/ onde é que tá tataravô/ tataravô onde é que tá.” Por um desses lapsos no espaço-tempo, as perguntas sem resposta de “Babá Alapalá” (1977) fazem eco no aqui-e-agora do show coletivo Refavela 40, que ficou em cartaz nos Sescs Pinheiros e Itaquera de São Paulo, entre 7 e 10 de setembro de 2017.

Gilberto Gil, o autor principal da quarentona Refavela, entra no palco já na reta final do espetáculo. À sua esquerda tem a filha Nara Gil e a nora Ana Claudia Lomelino, backing vocals do combo, e o pequenino Dom Gil, seu neto, participação especialíssima durante todo o show, que vovô trolla vezes sucessivas na voz de um herói-fantasma-preto-velho capaz de fazer o garotinho correr assustado (e brincalhão) para as coxias, para voltar segundos depois. Atrás de Gil está Bem Gil, seu filho e pai de Dom. Ao redor se dispõem outros filhos da grande família MPB, como Maíra Freitas (vocalista e pianista, filha de Martinho da Vila), Moreno Veloso (vocalista, filho de Caetano), Mateus Aleluia (trompetista, filho do homônimo integrante do mítico grupo de candomblé Os Tincoãs), Domenico Lancellotti (baterista, filho do compositor de sambas e romantismos Ivor Lancellotti), Céu (vocalista, filha de Edgard B. Poças, maestro e versionista de canções infantis para A Turma do Balão Mágico nos anos 1980).

Gil canta secundado pelo filho Bem, diretor musical de “Refavela 40? – fotos divulgação/Alfamor

Juntos, tataravô, bisavô, avô, pai, filho e neto (além das possíveis correspondentes femininas) ligam o ritual e aniversariam Refavela como uma utopia, em parte realizada, de reencontro num só ponto de luz da música do mundo, sobretudo do mundo negro. “Aqui e Agora”, reinterpretada com ternura por Moreno, adquire conotações subterrâneas, silenciosas, mas talvez ainda mais políticas que as de 1977, quando Gil, egresso de temporadas na cadeia em 1968 (por afronta à ditadura civil-militar) e 1976 (por uso de maconha), contava cantar que “o melhor lugar do mundo é aqui e agora” inspirado pela perspectiva de um homem (preto?) aprisionado. É possível cantar que o melhor lugar do mundo é aqui e agora no Brasil que corteja o fascismo em 2017? Seja possível ou impossível, a renascença de “Aqui e Agora” e da Refavela religa sentidos no lapso de tempo entre os estados de exceção e as escravidões de 1964-68 e 2016-17. Tataravô, bisavô, avô e pai souberam o que é a privação de liberdade. Nós que hoje aqui estamos também sabemos, ainda que finjamos que não.

O mundo negro é revolvido com brilho pela superbanda composta por gente variada de menos de 7 a mais de 75 anos de idade. A utopia daquele Gil, que se consolidou de lá para cá e faz refavela na música eletrônica mundial de periferia dos tempos de agora (reggaeton, tecnobrega, funk, kuduro etc.), é o “povo chocolate e mel”, aqui no Brasil africano e indígena, de que falava a “Refavela” de 1977. Ao redor, há gente de todas as tonalidades de pele e há o embranquecimento da família Gil (senão o preteamento dos colonizadores europeus importo pelo clã baiano de que Gil hoje é buda caymmiano). “Ninguém sabe se ele é branco, se é mulato ou negro”, cantarola a certa altura Moreno, em citação ao “Xamego” (1958) do cigano pardo Luiz Gonzaga.

Com o sangue de samba rural de Martinho que lhe corre pelas artérias, Maíra canta o umbigo de Refavela chamado “Samba do Avião” (1962). Rejeitado à época pela crítica sempre refratária às antenas do tempo, o arranjo à la Banda Black Rio de Gil revestiu era central por promover um desembranquecimento do autor Tom Jobim e da verve carioca da bossa nova. O funk de James Brown, o tribalismo e o timbalismo da África negra e o reggae jamaicano desembarcavam com Gil no aeroporto marítimo do Galeão, pela via da dupla provocação de universalizar o nacionalismo do samba e empretecer o maestro soberano Antônio Brasileiro e seus filhos, futuros avós dos filhos de Carlinhos Brown.

Como em 1977, Refavela ainda explode e se estilhaça em direções infinitas, na pulsação da diáspora humana (e africana sobretudo) que “Exodus” (1977), do repertório do jamaicano Bob Marley, representa à risca na Refavela 40. Refavela era e é a África de Fela Kuti e King Sunny Adé (com quem Gil se reuniu na visita musical à Nigéria que originou o disco de 40 anos atrás), como era e é a Bahia negra dos afoxés Filhos de Gandhy (presente com “Patuscada de Gandhi”, a canção com que Papai Ojô assusta o netinho Dom) e Ilê Aiyê (o clássico “Que Bloco É Esse?”, com que Paulinho Camafeu mandava o branco tomar banho de piche para adquirir uma sombra de dignidade negra, e que Gil rebatizou “Ilê Ayê”). Refavela era e é funk norte-americano de James Brown, de George Clinton e do menino eterno Michael Jackson, como era e é reggae caribenho de Bob Marley, como era e é world music de Fela aos jovens da Abayomy Afrobeat Orquestra e do Tono (a banda pós-tropicalista de Bem) inseridos no supergrupo. O percussionista Thomas Harres, da Abayomy, traz ao palco o majestoso balafon, marimba africana que Gil apresentou ao Brasil em “Balafon”, na Refavela de 40 anos atrás.

A filha Nara, o neto Dom, a nora Ana

O repertório ampliado para compor um show inteiro é minucioso e privilegia o ano e o ideário odara de 1977. “Sarará Miolo”, lançada no disco Os Meus Amigos São um Barato, da bossa-novista Nara Leão, fala da mania de branco de ter cabelo liso já tendo cabelo loiro (“cabelo duro é preciso/ que é pra ser você crioulo”) – é de Refavela mesmo sem ser, e aqui em 2017 vem ressaltar como os cabelos afro estavam onipresentes na mente do Gil de 1977, desde os “cabelos da eternidade” de que fala “Era Nova” até a tensão subjacente entre as trancinhas afrobaianas, o black power carioca de Tim Maia, Wilson Simonal e equivalentes, e o pretume bem-comportado demais (na opinião de Gil) dos sambistas cariocas, pai Martinho incluído.

Resta ausente do tributo o híbrido samba-soul Jorge Ben (Jor), propulsor indireto da Refavela tanto por conta do disco em dupla com Gil Ogum-Xangô (1975) quanto pelo individual África Brasil (1976). Se o samba-roqueiro Jorge queria ver o que ia acontecer quando Zumbi chegasse de volta em 1976, Gilberto fazia Zumbi dos Palmares acontecer em 1977 na medida do preto pobre que saltava do seu barraco para um bloco do BNH, Minha Casa Minha Vida em versão civil-militar entre-golpes. Ao cantar “Refavela” na sexta-feira 8, Gil cita como inspiração não só a Nigéria, mas também a carioca norte-americanizada Vila Kennedy, construída em 1964 pelo governador golpista Carlos Lacerda, pai disto tudo que está aqui.

Do mundo mestiço brotam as presenças simbólicas de Caetano (“Two Naira Fifty Kobo”, do disco Bicho, também resultante da excursão brasileira à Nigéria), Ney Matogrosso (o primeiro a gravar “Gaivota”, que reaparece na voz de Céu) e Dori Caymmi (filho miscigenado do paxá preto cigano indígena Dorival e arranjador da trilha sonora da série televisiva Sítio do Picapau Amarelo).

Foi Dori quem convidou Gil para compor e cantar aquela que viria se tornar a música-tema da série infantil da Globo em 1977 e encerra Refavela 40 como talvez o único hit pop de massa daquela safra nigérrima de 1977. A Refavela é mitológica a ponto de motivar o livro analítico de Maurício Barros de Castro na série O Livro do Disco (da editora Cobogó), vendido às dúzias no tabuleiro pop da Refavela 40, mas até hoje não foi assimilada pela oficialidade insistente na fórmula-fantasia do “não somos racistas”. Essa é a tensão que transforma em achado feroz a iniciativa de recuperar Refavela aos 40.

De resto, discursos supremacistas à parte, Tia Nastácia e a Taubaté do matuto paulista embranquecido Monteiro Lobato se incorporam à mitologia de diáspora negra da Refavela, e Dom Gil pula feito cabrito na despedida com o “Sítio do Picapau Amarelo”. O tempo-rei abre uma fresta no sofrimento do aqui-e-agora e a refavela desfila mais moça do que nunca, alegoria, elegia, alegria e dor.



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in Farofafá, 11.09.2017
 
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