Gilberto Gil cria grande família negra de todas as cores com Refavela 40

Em clima de domingo no parque em família com sol a pino, Gilberto Gil e os jovens músicos reunidos por Bem Gil, seu filho com Flora Gil — sempre presente nos bastidores —, entoaram as canções do álbum conceitualmente negro do artista (apesar de todos discos de Gil serem negros como ele), “Refavela”. O disco foi feito 40 anos atrás após uma emblemática visita de Gil à Nigéria, na África.

Quem chegou cedo pôde ainda ver Nara Gil, filha primogênita do cantor e backing vocal do show, começar os primeiros ajustes no palco, ao lado do irmão Bem e de Moreno Veloso, filho de Caetano Veloso e agregado da família Gil e da turnê.

Logo, o público ainda pequeno sentado ao morro de grama em frente ao Palco da Orquestra Mágica se colocou em alvoroço ao ver Gil entrar para passar o som com “Refavela”, a canção-tema do disco. Muitos gritos de “Gil, eu te amo” surgiram.

Pouco depois das 16h, com um sol já mais brando, o show começou em definitivo com a volta dos músicos, já paramentados com seus figurinos de estampas africanas.

Ao lado de Nara Gil com sua força nos vocais, marcaram presença outros dois integrantes do clã musical do compositor baiano: a nora de Gil e mulher de Bem, a doce cantora Ana Cláudia Lomelino, e seu filho e neto de Gil, Dom Gil, de apenas cinco anos, mas com ritmo de sobra.

Mas foi Maíra Freitas, cantora e filha de Martinho da Vila, quem incendiou tudo com seu black armado e carisma de sobra ao assumir a composição de Paulinho Camafeu “Ilê Ayê”, ícone do disco “Refavela” que se tornou hino da resistência negra no Brasil. Os muitos negros na plateia deliraram. Não poderia ser diferente.

Se Maíra Freitas esbanjou presença, o mesmo não se pode dizer de Céu, cantora convidada e um tanto quanto apagada e deslocada num show de música negra, assumindo, tímida, “Norte da Saudade”, e apostando em uma complicada voz anasalada em “Gaivota” — Céu ganhou durante o show a bênção de Gil para sua recente gravidez. Nara Gil, em seus potentes vocais, por exemplo, brilhava bem mais, com sua voz, ritmo e black power, é claro.

Moreno Veloso, que, entre outras cantou a filosófica “Aqui e Agora” e “Sandra”, música que Gil fez para as enfermeiras do hospício onde foi internado pelos militares por porte de maconha, também fez presença discreta, expondo maior força como músico do que como cantor. Bem Gil, diretor artístico ao centro do palco com sua guitarra e chamado de “chefe” por Moreno Veloso, assumiu “Balafon”, a música que Gil fez para o instrumento do norte africano.

A banda ainda tinha Bruno Di Lullo (baixo), Domenico Lancellotti e Thomas Harres (bateria e percussão), Thiagô de Oliveira e Mateus Aleluia (sopros).

Na plateia, a cantora baiana Luedji Luna, que vem arregimentando cada vez mais fãs na cena paulistana com sua voz negra de discurso poético potente em diálogo constante com a África, assim como propôs o disco “Refavela”, ouvia a cada instante de fãs que deveria ter sido convidada a estar no palco. Luedji teria feito muito bem a “Refavela 40”. Bem Gil precisa conhecer urgentemente o trabalho da conterrânea de seu pai.

Luedji Luna vibrou quando Gil entrou, já na reta final do show. Afinal, como todos ali, estava naquele Sesc Itaquera para reverenciar o mito. Depois do longo aquecimento feito pelos filhos e agregados com boa parte das canções de “Refavela”, o surgimento de Gil foi acompanhando de grande frenesi. O sol já caía, anunciando uma noite cálida.

Após “Refavela”, Gil, genial como sempre, levou todos a um transe coletivo evocando seu orixá, Xangô, em “Babá Alapalá”, música repleta da ancestralidade negra que criou o ápice, a epifania do show. Os negros, no palco e plateia, brilhavam. Outro momento de transe coletivo foi “Patuscada de Gandhi”, ao fim, com Gil e seu público naquela energia única do ijexá do lendário bloco afro-baiano do qual é padrinho. A África se refez.

Depois, Gil fez todos virarem crianças outra vez com “Sítio do Pica-Pau Amarelo”, canção que quis fazer “para o sítio inteiro”, como explicou, saudando o neto Dom, representante de todas as crianças, ali, no palco. Gil inclusive brincou de fazer voz de vilão de histórias em quadrinhos para o neto fã de Homem-Aranha, em um momento de intimidade familiar compartilhada.

Falante e com seus conhecidos agudos, Gil preencheu todo o Sesc Itaquera. Todos, ali para vê-lo de pertinho e de graça, pareciam felizes como crianças diante do avô, assim como seu neto Dom, cujos braços para o alto balançavam para lá e para cá, incentivando o público a fazer o mesmo, tornando a todos, por um instante, membros da diversa e grande família de Gil, de matriz negra, mas transmutada em todas as cores.



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in CEERT, 12.09.2017
 
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