Trinca de Ases: Gil, Gal e Nando já chegam na mesa com jogo ganho

Sábado, 16 de setembro, Fortaleza teve a honra de receber um encontro ao mesmo tempo inusitado e imperdível. Três grandes astros da música brasileira resolveram interromper seus próprios planos individuais, juntar forças e viajar pela paías. Fortaleza foi uma das primeiras paradas da turnê Trinca de Ases, com um show que reuniu ninguém menos que Gilberto Gil, Gal Costa e Nando Reis. Eles já tinham se encontrado antes, Gal e Gil muitas vezes, os três em outubro de 2016, durante um show em comemoração ao centenário de Ulysses Guimarães idealizado pelo jornalista Jorge Bastos Moreno, falecido recentemente. Fomos ao show e contamos tudo aqui em detalhes.

Com elegância e muito bom gosto, uma montagem no palco com três pipas, cujos rabos estão entrelaçados, aguarda e anuncia a chegada dos três astros. Gil e Nando chegam primeiro. Chegam com cuidado, desafiando-se respeitosamente, encaram-se, infiltram-se, dois gatos ouriçados, o menino afoito e o moço velho, até que Gal ocupa o centro sem cerimônia e acabam-se as animosidades. Além deles, Magno Brito, no baixo, e Kainando Gê, na bateria ocupam o palco. Os três cantores se juntam na primeira canção, “Trinca de ases”, um manifesto, uma canção feita para o show, para abrir o show e servir como declaração de intenções. “Cantar é o que a gente gosta”, dizem os “três patetas, três poetas, três mosqueteiros da canção” (o trecho entre aspas também faz parte da letra). É

uma boa canção, mas que não sobrevive isoladamente.

“Dupla de Ás”, a próxima, é protagonizada apenas por Nando e Gil, com Gal apenas intervindo pontualmente e colocando-se atrás dos dois. Ao fim, Gil informa: “Resolvemos nos juntar e nos juntamos. Estamos trazendo um pouco do nosso repertório individual e algumas que vocês não conhecem. É um prazer enorme estar aqui com vocês”. E é com ele a vez de “Palco”, esta um clássico, quando obviamente o público ficou bem mais feliz.

Assim como ela fizera, agora são eles que dão um passo atrás (com o baterista também se movimentando para assumir os bongôs), para que Gal brilhe ainda mais. Depois é a vez de Nando cantar “All Star”, recebida com muitos gritos.

Quanto a “Espatódea”, seguinte no set, a canção é do Nando, a filha também, mas é Gal que entrega uma comovente versão da “música da Zoé”. Gal é tão boa intérprete que faz crermos que a moça, a Zoé, talvez tenha que fazer um exame de DNA. Seria ela a mãe da moça, ou mais uma mãe. É o que sua interpretação nos faz crer. E o arranjo, discreto, com Gil usando um belo timbre de guitarra e o baterista no triângulo, contribui para a emotividade do momento. Mas talvez seja também mérito de Nando, que faz com que suas canções, tão íntimas, tão particulares, acabem se tornando tão coletivas, tão apropriáveis. Um carro roubado. Um elevador para ir ao décimo-segundo andar. Falei com ele sobre isso quando o entrevistei tempos atrás.

https://whiplash.net/materias/entrevistas/210531-titas.html

Segue o show e Gil apresenta-se, apresenta os companheiros de palco. “É mais que uma trinca de ases. É um full hand, com dois valetes”, refere-se ao baixista pernambucano e ao baterista baiano. “Kainando é da Bahia, onde foi composta essa música. Atrás, no pano de fundo do palco, nuvens, ou a espuma do mar, são o cenário para “O Seu Lado de Cá”. E é Nando quem homenageia Salvador e sua ilha irmã, Itaparica, com três baianos de nascença no palco, Gil, Gal e Gê, é ele quem se apropria do alheio agora.

Agora, com iluminação rosa, o assobia inconfundível de “Esotérico”, cantada por Gil, é que dá o tom. Ele continua, com “Cores Vivas”, enquanto Gal e Nando flertam. De “Cores Vivas” para “Água-viva” (parece haver aqui alguma interconexão, proposital ou não, entre as canções no repertório), a primeira de um disco novo de algum dos três (a canção é de “Jardim Pomar”, lançado por Nando Reis em 2016).

Uma breve pausa para que três bancos sejam colocados no palco. Os três ases preparam-se para um momento mais intimista. Enquanto Gil e Nando se posicionam com seus violões, Gal é só beijos e sorrisos para o público. “Meu Nome É Gal, alguém grita da plateia”. “O meu também”, ela responde de pronto. Gil rebate: “ninguém vai gritar meu nome é Gil, também?”. Tudo pronto, os três cantam a belíssima “Retiros Espirituais”, com ecos de “Banho de Lua”. Então, todos os instrumentos silenciam, menos o violão de Gil. Nando até parece um pouco desconfortável de início, só com o microfone, sem o companheiro violão no colo como sempre. E os três cantam “Copo Vazio”. Outro momento muito belo.

No instante seguinte, Nando sai e deixa o palco apenas para Gal e Gil. “Vou me apossar de uma canção que Gil compôs anos atrás pra fazer uma declaração de amor fraternal pra ele”, diz a Diva. E ela canta “Meu amigo, meu herói”, que outrora ganhara a voz de Zizi Possi. virada pra ele. No fim, ela vocaliza “Gil, eu te amo, Gil”.

Volta a configuração de banda e Gal divide “Pérola Negra” com Nando. Ao contrário do que se poderia esperar, nenhuma menção a Luis Melodia é feita. Eles já tinham cantado em tom de homenagem em São Paulo, mas sentimos falta de uma palavra também em Fortaleza. Quanto à canção, assim como “Espatódia” já poderia fazer parte do repertório de Gal, o blues de Melodia bem que poderia fazer parte do repertório de Nando.

O show segue com sucessos individuais de cada um, sendo cantados pelos seus respectivos donos, com os outros dois fazendo backing vocais e Gil invariavelmente alcançando notas intangíveis em sua guitarra. É assim com “Relicário” (com breve jam no final, como já é de costume nos shows de Nando), “Refavela”, com Gil, “Ela”, novamente com ele. Percebemos aqui, novamente, a intenção de relacionar as faixas através de seus nomes parecidos. Isso nem funciona tão bem, uma vez que as motivações de cada canção são distintas. “Refavela” é crítica social, “Ela” é dedicada a uma musa, ou à própria música, “mãe de filhos e filhas de amor”. Mas esse encadeamento também não faz falta. O que faz falta mesmo é ver mais de um cantando a canção do outro, como Gal tão bem fizera. Faz falta ver Gil embrenhando-se mais no terreno de Relicário, ver Nando refazendo a refavela. Isso não chega a tirar o brilho do show, brilho que já é demais pela presença de cada um ali, mas lapidaria mais ainda a gema preciosa apresentada naquela noite.

“Quando nos reunimos pra montar esse show, parecia necessário compor alguma música especialmente pra ele. Algumas já cantamos, mas essa é a nossa primeira parceria que orgulhosamente fizemos”, informa Gil antes de “Tocarte”. Seguindo nas parcerias, Nando avisou que a próxima seria dele, Lô Borges e Samuel Rosa, “Dois Rios”. É Gal que canta, com um andamento um tanto mais rápido que o SKANK e o próprio Nando, mas foi muito aplaudida. E é disso que falei no parágrafo anterior.

Antes de Nando cantar a canção “Lately”, de Stevie Wonder, alguém grita na plateia: “Lindo. Gil, te amo”. “Também amo vocês todos. Se não fosse assim, não estaria aqui. É amor incondicional”. Mas não se esquiva de um sincero “A maioria de vocês eu nem conheço”. Gal explica: “por isso é incondicional”. E todos riem. A canção de Wonder é escada para que Gal entre com a versão em português e se derrame completamente (ressalte-se que Gil e o baixista também arrasam no jazz que saia de suas cordas). A maior voz feminina do Brasil é aplaudida de pé ao fim da canção, pelo público e por Nando e Gil.

O show encaminha-se para o final e Nando canta aquela canção, a do carro roubado, aquela que um dia foi dele e já não é mais (quem escreve aqui é que é o novo dono), “Por Onde Andei”. O público vai pra frente. Chega de cerimônia. “Vamos segurar pra eles cantarem”, é a resposta de Gal ao amor do público. A resposta de Gil é cantar o reggae “Nos Barracos da Cidade” bem na beira do palco, quase ao alcance das mãos. A letra da música, de 1985, infelizmente ainda é muito atual hoje, 2017.

Depois da já muito manjada falsa despedida, eles retornam: “já que vocês tão animadaços, então vamos cantar”. E pra fechar o show definitivamente, mais uma vez, um sucesso de cada um. De Nando, “O Segundo Sol”, com ele dividindo com Gal os vocais que já foram de Cássia Eller. De Gil, “A gente precisa ver o luar”. De Gal, o inconfundível “Lá Lalalalá Lá Lá” de “Barato Total”. É o fim de um show que, certamente vamos querer ver de novo, assim como os Grande Encontro 1, 2, 3…



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in Thunderblue, 20.09.2017
 
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