Gil revisita a negritude

Baiano chega ao Palácio das Artes com turnê que marca os 40 anos do disco "Refavela" acompanhado por músicos amigos e também membros de sua família

Na África dos anos 1970, Gilberto Gil encontrou-se com suas raízes negras mais profundas. Foi depois de participar do Festac (Festival Mundial de Arte e Cultura Negra), na Nigéria, em 1977, ao lado de mais de 50 mil artistas africanos e convidados, que decidiu gravar “Refavela”. No Brasil, era época do movimento Black Rio, gênero que fundia a soul music ao samba. Reggae e blocos afros da Bahia também ganhavam projeção.

O título trazia o compromisso conceitual que o cantor mesmo fixou, no sentido de “continuar” o “Refazenda”, seu álbum anterior, de inspiração rural, e que junto a “Realce”, o subsequente, formou a trilogia “re”, assinada pelo compositor. Também tinha a ver, claro, com o que Gil encontrou na cidade de Lagos: uma paisagem similar aos conjuntos habitacionais construídos na década de 1950 no Rio e em Salvador – cujo objetivo era criar uma moradia melhor às pessoas, mas, muitas vezes, eram transformados em novas favelas.

Quatro décadas depois, Gil revisita, agora, as dez músicas registradas na época, durante a turnê “Refavela 40”, que será finalizada em Belo Horizonte na próxima sexta (29). Além delas, apresenta outras que dialogam como o disco – no total, serão cerca de 20 canções. O projeto foi uma ideia do músico e produtor Bem Gil, seu filho.

“Na época da feitura do disco, deixamos algumas canções fora por questão de espaço e também para manter uma certa unidade. Agora, pegamos essas ‘sobras’, além de uma música do Caetano feita em função daquela viagem, uma homenagem ao motorista do nosso ônibus. Também incluímos canções do Bob Marley do disco ‘Exodus’, que, por coincidência, fez 40 anos agora e o Ziggy Marley montou um projeto mais ou menos como esse do Bem”, diz Gil.

Segundo Bem, todavia, o projeto não surgiu inicialmente no sentido de celebrar os 40 anos do álbum, já que começou a ser delineado há cinco anos, quando o ex-baterista da banda Abayomy Afrobeat, Thomas Harres, convidou Gil para tocar as músicas de “Refavela” no Fela Day – data anual em que há homenagens, ao redor do mundo, para um dos grandes responsáveis por difundir o afrobeat, o nigeriano Fela Kuti. Na época, Gil não pode participar. “O ‘Refavela’ é um disco do qual eu gosto muito, incluindo a produção, músicas, ambiente em que ele começou a ser criado. Talvez seja um dos que eu mais tenha colocado para tocar na minha vida”, diz Bem. “Eu fiquei com a ideia da cabeça e, para agora, reuni vários músicos que também têm gosto por esse álbum (inclusive Harres, um dos bateristas no show)”.

Ana Lomelino, Di Lullo e Domenico Lancellotti, todos companheiros da banda Tono, em que Bem é guitarrista, estarão no palco, por exemplo, além de Céu, Moreno Veloso e Maíra Freitas. “É interessante pensar porque, no início da minha colaboração com meu pai, eu fui entrando na galera dele. Mas, desta vez, acabei conseguindo juntar a minha turma”.

Como Bem e os músicos já apreciavam o disco original, não houve um delineamento para pensar em novos arranjos. “Cada um foi colocando sua colaboração natural, da personalidade, agregando coisa por causa de estilo e linguagem próprios”, explica o produtor.

Contexto

Ao comparar o período de lançamento de “Refavela” com os dias atuais, Gil acredita que a visão do mundo sobre as matrizes africanas mudou. “Não sei exatamente se há mais consciência sobre isso, mas as influências africanas estão mais impregnadas. Claro, ainda há dificuldade em todo mundo, vimos por esses casos que têm ocorrido nos Estados Unidos, em admitir os negros plenamente na vida política e social, mas houve conquistas interessantes”, argumenta. “A presença africana tornou-se um componente importante em todas as artes”.

Enquanto observa o mundo ao redor, Gil, aos 75 anos, segue produzindo coisas novas também. No ano que vem, lançará um disco de inéditas, com produção de Bem. “É um hábito profissional continuar produzindo, porque tiro daí todo meu sustento e há uma série de pessoas que estão envolvidas. Mas, também, há o gosto espiritual imenso pela música”, comenta



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in O Tempo - BH, 23.09.2017
 
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