Show com Gilberto Gil e convidados celebra 40 anos do álbum "Refavela"

Não fosse pelo autor de “O Homem Nu”, Tom Jobim (1927 - 1994) jamais teria composto o “Samba do Avião”. Quatorze anos depois, a música ganhou uma versão personalíssima de Gilberto Gil, 75, para o simbólico “Refavela”. As quatro décadas de lançamento do álbum são celebradas em show que chega a Belo Horizonte neste sábado. Além do anfitrião, sobem ao palco o filho Bem Gil, 32, idealizador da iniciativa, e convidados como a cantora Céu, Maíra Freitas (filha de Martinho da Vila) e Moreno Veloso (rebento de Caetano). “O elemento negro é fundamental na civilização brasileira. ‘Refavela’ foi essa necessidade de reconhecer isso através de um depoimento, que se refletiu nesse atestado sobre o aprofundamento de uma consciência da cultura negra, todas as canções falam disso”, sublinha Gil.

“É um disco muito pessoal e universal ao mesmo tempo”, define Bem. A história do samba de Jobim comprova a teoria. Na primeira viagem do maestro para Nova York o medo de que a aeronave caísse era tanto que o escritor belo-horizontino Fernando Sabino (1923 - 2004) se valeu de todos os seus “recursos literários” para convencer Jobim do contrário. O alívio ao pousar em terra firme na volta deu a inspiração para uma das obras mais conhecidas da bossa nova. Por outras vias, foi a viagem a Nigéria, em 1977, onde se apresentou no Festival Mundial de Arte e Cultura Negra (Festac) que inspirou Gil a conceber “Refavela”, com forte presença do reggae e ritmos afro. “Todas as expressões ligadas ao corpo, como a música e a dança, foram importantes para a formação cultural do ocidente, o Brasil então, nem se fala. Bahia, Minas, Rio, Pernambuco, Maranhão, todas receberam uma contribuição muito grande das vertentes negras, com os cantos dos escravos, as religiões afro, o carnaval”, cita Gil.

“Neste show pensamos numa estrutura de palco sem aqueles praticados, para que ficasse uma coisa mais aberta, ampla. O clima parece de ensaio com terreiro, é um espírito de ‘pé no chão’, uma celebração, é ritual”, alicerça Bem. Embora o foco seja o sucessor de “Refazenda” e antecessor de “Realce” na histórica trilogia arquitetada por Gil nos anos 70, o espetáculo não se limita às dez canções do disco. Ao todo, estão previstos 20 números, incluindo um bis com “Three Little Birds”, lançada por Bob Marley em 1977, e “Sítio do Pica-Pau Amarelo”, composta por Gil no mesmo ano.

“A maioria das músicas que escolhemos são daquele período e têm um diálogo contundente. O meu pai considera aquele momento sempre olhando para frente, até hoje é assim, mas ás vezes buscando contato com uma ancestralidade maior, que vai da África até a sanfona de Dominguinhos”, elucida Bem. “No início do show conseguimos manter as três primeiras do disco na ordem. Não dá para fazer ele todo na íntegra por questões conceituais. Por exemplo, não queria que o meu pai entrasse na abertura, já que ele também é um convidado”, explica.

Convidados. Apesar da efeméride, não foi ela que “deu a letra” para a empreitada. Há cinco anos, o músico Thomas Harres, da Abayomy Afrobeat Orquestra, responsável pelo “Fela Day” no Brasil, evento em homenagem ao músico nigeriano Fela Kuti, sugeriu a Bem que “Refavela” servisse como tema. Na época, por incompatibilidade de agendas, não foi possível realizar o sonho que agora se materializa.

“Um dos motivos pelos quais a gente se animou foi o fato de não ter nenhum registro ao vivo desse álbum. Nós que nascemos depois do lançamento tínhamos essa vontade de reproduzir aquela sonoridade no palco”, admite Bem. Enquanto Céu comparece nos vocais, Maíra concilia piano e canto. Moreno repete o feito com a percussão. “Esse é um dos discos do meu pai que mais ouvi na vida, tanto de LP como com headfone”, revela Bem.

Inéditas. Bem recorre a um verso de Caetano Veloso para justificar a predileção pelo disco. “Melhor do que isso só mesmo o silêncio” (da música “Pra Ninguém”, 1997). “É um disco sublime, os arranjos, a dinâmica da banda e os sentimentos que ele traz”, elogia. A admiração pelo pai vai ganhar novos contornos em 2018.

“Vamos lançar, depois do carnaval, o disco de inéditas dele. Ainda não tem nome, mas já gravamos as 13 músicas, tudo em dois meses”, conta o músico, responsável pela produção. João Donato também participa como parceiro e pianista. E o próprio Bem estreia uma parceria com o pai, “Sereno”, feita para o neto de Gil. “É para o meu filho caçula, ela começa falando do vovô”, diz.

Céu participa de homenagem e une Gil a Bob Marley

No rol de influências da cantora Céu, 37, convergem Ella Fitzgerald, Billie Holiday, Heitor Villa-Lobos, Jorge Ben Jor, Gal Costa, Orlando Silva. E cabem também alguns nomes que se encontraram, em 1977, no segundo Festival Internacional de Arte e Cultura Negra (Festac), na Nigéria. Lá estavam Gilberto Gil, Stevie Wonder e King Sunny Adé, ícone do estilo conhecido como jùjú. “Depois que fiz esse show fui entender melhor como o Gil estava instigado, envolvido, dentro mesmo dessa cultura negra musical”, declara Céu, uma das convidadas do espetáculo que celebra os 40 anos de lançamento de “Refavela”.

“O disco é um manancial de toda a essência poética da África, essa coisa da criação que o continente tem”, exalta a entrevistada. Embora não se lembre da primeira vez que tomou contato com a obra, ela é presença constante no cotidiano da artista que já trazia a inclinação musical no DNA (é filha do maestro Edgar Poças, arranjador do grupo infantil Balão Mágico). “Considero um clássico na minha discografia particular. Não canso de escutar, me marcou profundamente, ele é muito impactante”, diz. Céu atribui a perenidade do trabalho à sua característica “atemporal”. “Esse disco tem a particularidade do Gil estar recém-chegado da África. Para mim ele tem a força inevitável desse encontro das referências que o Gil já usava na música brasileira com a sua ancestralidade”, define.

Conexões. Por sinal, a palavra “encontro” é a que melhor define o projeto atual. O baterista Thomas Harres, que acompanha Céu e esteve com ela na turnê do disco “Tropix” (2016) foi quem interligou a primeira ponte. “Ele deve ter pensado em mim por saber desse amor que tenho pelo disco; que é de ouvir, comentar, e até compartilhar músicas nas redes sociais. Ele falou com o Bem (filho de Gil), que fez toda a curadoria e quando me ligou perguntando se eu estava afim, eu aceitei na hora”, garante a compositora.

Com Bem, Céu já havia se apresentado num espetáculo em homenagem a Dorival Caymmi. “Durou pouco tempo, foram dois shows só”, recorda. Já com o patriarca Gil, o primeiro contato foi numa apresentação “há muitos anos, abri um show para ele, a gente se conheceu ali”. Em 2009, os dois voltaram a se encontrar no palco. “Fiz uma participação numa homenagem para ele no (programa) ‘Altas Horas’ (da Globo), eu tinha acabado de lançar o (CD) ‘Vagarosa’”, sublinha.

No atual espetáculo, Céu participa, como primeira cantora (depois ela permanece nos backing vocals), nas faixas “No Norte da Saudade”, “Era Nova”, ambas do antológico disco de 1977, “A Gaivota”, lançada em 1976, e outras duas novidades, que não pertencem ao repertório autoral do homenageado. “Arrastar-te-ei” (da própria Céu, canção de título em mesóclise lançada em 2016), entremeia a primeira, enquanto “Jamming”, de Bob Marley, chega na sequência. “Achei bonita a forma como o Bem organizou, teve uma coesão. Ele alinhavou uma participação que tem a ver comigo, com homenagem ao ‘Tropix’ (mais recente disco) e ao Bob Marley, que eu adoro, e ele sabe disso”, elogia.

As conexões se estendem quando a entrevistada ressalta que a música de Marley foi lançada no disco “Exodus”, de 1977. “Vim a saber que os filhos do Bob Marley também estão fazendo uma homenagem a ele, por causa do disco de 77, na Jamaica”, revela a cantora.



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in Jornal Pampulha - Belo Horizonte, 28.09.2017
 
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