Três é bom demais

Marcelo Perrone

Gilberto Gil tem se materializado no Rio Grande do Sul com constância e sob diferentes formatos musicais. Veio recentemente se apresentar com a Orquestra Sinfônica da Bahia, retornou para mostrar seu tributo a João Gilberto, passou para comemorar com Caetano Veloso os 50 anos em que estão atentos e fortes na linha de frente da MPB e também apareceu para cantar em um concerto natalino. Agora, Gil vem acompanhado de Gal Costa e Nando Reis, com quem formou o projeto Trinca de Ases. O show que farão em Porto Alegre nesta quinta-feira, no Auditório Araújo Vianna, nasceu meio que de improviso, no ano passado, em Brasília, em um encontro para celebrar os cem anos de nascimento de Ulysses Guimarães.

A reunião deu liga, e Gil, Gal e Nando decidiram compartilhá-la com o público. Além de faixas representativas das carreiras de cada um, mostrarão no palco três composições inéditas. Trinca de Ases vai dar origem ainda a DVD e CD com o registro ao vivo da trupe.

"A moça, o rapaz maduro calejado pela idade e o menino impetuoso e viril". É fácil identificar quem é em Trinca de Ases, música inédita de Gil, 75 anos, que apresenta o espetáculo. Os "três mosqueteiros, três patetas, três poetas da canção" cantam, em trio, duo e solo, clássicos como Baby, Esotérico, Palco, Nada Mais (versão de Ronaldo Bastos para Lately, de Stevie Wonder, gravada por Gal), além de, entre outras, All Star, que Nando fez para Cassia Eller, e Relicário, canção sua que consagrou ao lado da cantora.

O encontro do paulista Nando com seus ídolos baianos o inspirou na criação da inédita Dupla de Ás — e ele divide com Gil a autoria de outra novidade, Tocarte. Está prevista no set list ainda uma homenagem a Luiz Melodia, que morreu em agosto passado, lembrado com sua seminal Pérola Negra, que tem na voz de Gal um registro antológico.

Trinca de Ases chega à Capital depois de passar nos últimos dias por Recife, João Pessoa e Salvador, cidade onde Gil conversou por telefone com Zero Hora. No bate-papo, realizado durante o trajeto do hotel ao aeroporto, o cantor e compositor falou sobre esse e outros projetos — Gil segue se apresentando ao banquinho e violão, como mostrará sábado em Pelotas, no Theatro Guarany, e voltará a Capital em dezembro para apresentar o show tributo a seu disco Refavela (1977). Veja a seguir um resumo da conversa:

Como nasceu o projeto Trinca de Ases e como vocês decidiram a três a escolha do repertório?

Esse encontro nasceu de uma provocação do falecido jornalista Jorge Bastos Moreno. Nos juntamos os três e fizemos uma apresentação em Brasília, que, de certa forma, estimulou nas pessoas no nosso entorno que fizéssemos um trabalho um pouco mais ampliado. Acabamos fazendo três canções novas para o espetáculo: Trinca Ases, Dupla de Ás, do Nando, que são impressões que ele teve de uma viagem pelo Nordeste tempos atrás, e Tocarte, que fiz em parceria com ele. Sobre o repertório, mais recebi sugestões de Gal e Nando do que escolhi eu. A única canção que pedi para colocar no show foi Ela, do meu disco Refazenda (1975). As outras todas foram surgindo em consenso com Gal e Nando.

Variar temas e parcerias é o que mais tem lhe agradado em novos projetos?

Depois de muitos anos cuidando de uma carreira, de um perfil de compositor lançando discos quase que anualmente, e já foram 50 e tantos discos, fica essa liberdade maior de abordar situações variadas, de cantar com colegas de diferentes perfis. Acho que é e isso, descansando um pouco do afã natural que a carreira estabeleceu durante muitos anos. Fiz homenagens a Luiz Gonzaga (As Canções de Eu, Tu, Eles, 2000), a Bob Marley (Kaya N'Gan Daya, 2002), a João Gilberto (Gilbertos Samba, 2014) e agora tem esse trabalho com Gal e Nando. É uma coisa meio despojada da carreira.

E tem também o espetáculo Refazenda, com o qual você voltará a Porto Alegre em dezembro (dia 10, no Teatro do Bourbon Country), que você apresenta com seu filho Bem Gil.

Bem tem muito apreço por esse disco. Dos meus trabalhos, é um dos que mais tocam a sensibilidade musical dele. Ele já vinha se relacionando com um grupo de músicos como o Moreno Veloso (filho de Caetano) e o pessoal da Orquestra Imperial, que, de uma certa forma, cultivam essas manifestações de origem africana, intersecções entre as músicas africana e brasileira. Refavela é um disco desse campo. Bem resolveu juntar essa turma para fazer esse trabalho de recuperação. O disco inteiro é apresentado a partir dos arranjos originais, com um ou outro elemento adicionando traços próprios desses meninos.

Por coincidência, Caetano Veloso também está agora em um projeto com seus filhos. É uma forma natural de seguir adiante o legado musical criado por vocês?

São ambientes familiares onde a música sempre esteve presente, com meus filhos, os filhos de Caetano, de Djavan, da Baby e do Pepeu. São famílias onde os ambientes musicais estabeleceram essa relação mais próxima, mais privilegiada, dos filhos com a música popular. Chega a hora em que eles crescem e sentem a necessidade do protagonismo, e a gente, os pais, acaba entrando nessa história.

A série de espetáculos comemorativos com Caetano foi encerrada?

Sim, encerrou o ciclo. Fizemos shows no Brasil, na América do Sul, na Europa, em vários lugares. Cumprimos nossa missão.

Você está com um novo álbum com músicas inéditas a caminho?

Já fiz um disco com 13 músicas inéditas. Minha parte está toda pronta, e Bem está finalizando a produção. Minha estrutura empresarial está estabelecendo o melhor momento de lançar. Acho que deve ser no início do ano que vem.

Alguns anos atrás, quando conversamos, você falou sobre a intolerância, a polarização de opiniões e o tensionamento social no Brasil amplificados pela internet. A situação hoje parece mais aguda, não?

Esse narcisismo estabelecido pela internet, ao qual nos referimos naquela ocasião, é uma coisa que foi se estabelecendo cada vez mais fortemente. As pessoas têm essas manifestações mais evidentes das individualidades. E as individualidades são as pessoas com todas as suas características próprias, para o bem e para o mal. Tenho dito que esse momento atual da civilização contemporânea, que privilegia muito uma certa racionalidade da máquina, das técnicas e das tecnologias, que vão ao encontro dos seres humanos de uma forma muito inexorável, irreversível, faz brotar uma reação quase de sobrevivência, que é humana, demasiadamente humana, como dizia Nietzsche. É isso. Junta-se esse narcisismo provocado pela hiperexposição horizontal da internet a reação a esse primado da lógica tecnológica. Além de tudo isso, tem oportunismo político, com muita gente querendo acessar o campo da atividade política através da mobilização de nichos de opinião, gente querendo se aproveitar dessas diferenças de propostas e ideologias para fazer carreira política.

Sábado agora completam-se 50 anos da grande final do Festival da Record de 1967, evento definidor da moderna música popular brasileira, do qual você participou com Domingo no Parque (segunda colocada, atrás de Ponteio, com Edu Lobo e Marília Medalha). Que reflexão faz daquele momento, no qual você e Caetano despontaram na frente musical do movimento tropicalista?

Eu às vezes me refiro a àquilo tudo como uma espécie de estertor do modernismo no Brasil, o último momento da cultura moderna, com todos os seus elementos e influências vindas da Europa, vindas de uma época áurea do pensamento humanista, do sentimento humanista, e a transição para o chamado pós-moderno, que é essa quantidade enorme de fatos novos, fatos reais e fictícios, a pós-verdade, essas coisas que caracterizam a vida atual. Aquele momento lá ainda era um laivo romântico de uma expectativa em relação a um ser humano mais desenvolvido, pacificado. Havia muita esperança de que superássemos as guerras, de que superássemos as diferenças ideológicas, que houvesse uma unidade, a questão ecológica que juntou mentes e corações no sentido da sobrevivência do planeta, a ameaça atômica, novas liberdades, a libertação dos filhos em relação ao império das famílias. Era uma época que hoje em dia já foi.

Você identifica traços do legado tropicalista na cultura jovem brasileira?

Acho que hoje os jovens não estão mais preocupados em se referenciar nas coisas do tropicalismo, já estão voltados a vivenciar novas ofertas oferecidas a eles no campo do comportamento, no campo das ideias, das realizações, pela época pós-moderna, especialmente com o impacto significativo da internet, do ciberespaço e toda essa revolução extraordinária que esse campo tem produzido. Já não estão mais preocupados em garimpar elementos específicos que foram jogados no ar na época do tropicalismo. Tem uma atmosfera hoje toda saturada de novas técnicas, novos meios e novos processos. Uma boa parte desses meninos que estão surgindo como fenômenos, não só no Brasil, como no mundo inteiro, são fenômenos provocados pela internet, muitos deles nem sabem o que foi tropicalismo (risos). Não estão nem aí, já estão bem depois, bem adiante.

E como está sua saúde (Gil cumpriu um tratamento de insuficiência renal que o levou a ser hospitalizado em 2016)?

Bem melhor agora e com a perspectiva de ir vivendo com certa tranquilidade.



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in Zero Hora - Porto Alegre , 18.10.2017
 
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