O sutil raio do Brasil por Gilberto Gil

Com disco pronto para 2018, cantor apresenta clássicos da carreira neste sábado no Theatro Guarany

Uma das mais completas traduções dos Brasis estará em Pelotas. No sábado (21), se apresenta no Theatro Guarany o músico Gilberto Gil, com show em que pretende sentar num banco e tocar “umas duas dúzias de canções”. A fala mansa e o discurso contundente, característicos de tão emblemática figura, o leitor do caderno Estilo confere a seguir em entrevista exclusiva.

Estilo - Refavela completa 40 anos em 2017. Como tem sido reviver esse trabalho?

Gilberto Gil - É uma iniciativa do meu filho e de uns amigos. O disco é da geração deles e tiveram no Refavela um momento importante, viveram o disco. Então tem todo o interesse dele em revisitar e isso me fez voltar. Juntaram vários amigos, como Moreno Veloso, Céu, pessoas com interesse na questão afro-brasileira da música. Sou só um convidado, pois o disco é meu e faz 40 anos.

E - Qual a importância do disco para você e para o momento em que ele foi lançado?

GG - É interessante para mim pois foi logo depois do Refazenda, uma visita às minhas origens musicais e do interior da Bahia, de Luiz Gonzaga, do Nordeste. O Refavela veio depois com uma abordagem ligada aos ritmos mais propriamente negros. Bahia, candomblé, África propriamente, mais o funk americano que começava também no Brasil com a Black Rio. A importância é essa: uma visita mais profunda a essas influências. O disco faz aglutinação dessas referências.

E - Diante de um mundo cada vez mais globalizado, qual a importância da resistência da brasilidade?

GG - É uma questão que vai depender de nós resistirmos, não nos dobrarmos completamente a essa cultura globalizada, mundializada. Não nos tornarmos uma cultura periférica, sem centralidade própria. Eu acho difícil isso acontecer no Brasil, pois temos muita diversidade. Norte, Nordeste, Sul, os gêneros todos trabalhados aqui, a formação da identidade brasileira com suas dimensões simbólicas ligadas a essa amálgama de raças. Eu acho difícil o Brasil abdicar disso. O risco existe, pois os meios de comunicação, rádios, TV, internet, é tudo comandado por esse projeto internacional. A música parecida no mundo inteiro, o cinema parecido no mundo inteiro. É um entretenimento produzido em função das demandas de condicionamento das novas gerações. Então há o risco de que se perca esse traço de originalidade, mas eu trabalho para que isso não aconteça. Para que essa derrota não se dê, para que não percamos o jogo. Espero que o Brasil continue com essa multicultura que também engloba as culturas do mundo inteiro, mas que aqui são manifestadas de modo próprio. Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Maranhão, cada lugar desse tem um jeito. Esse orgulho suave que temos de ser brasileiro, acho que isso pode ser perdido, mas acho que não acontecerá.

E - Como o você assistiu ao fim e depois ao retorno do Ministério da Cultura?

GG - Faz parte dessas confusõezinhas políticas, o impeachment da presidente Dilma, mudança de governo, esse grupo que agora está no poder. O fim do Ministério foi uma representação de como o governo pensa, essa confusão danada típica daquele nicho conturbado. O retorno fez simplesmente parte do jogo de poder, da necessidade de se ter tantos votos no Congresso.

E - Você possui alguma esperança para 2018?

GG - Esperança é permanente, é aquilo que se espera, sempre se quer algo. A gente continua querendo o respeito às diversidades, à cultura, aquilo que falei anteriormente. Tudo isso fará com que apareçam as formas, as candidaturas com mínimo teor de renovação que se espera. Esperança não é uma abstração. É resultante de decisões que se tomam, críticas que se fazem.

E - Você está com disco pronto para ser lançado em 2018. Que temáticas e sonoridades o trabalho apresentará?

GG - Será variado. Tem samba, tem canções suaves mais baladísticas. Retomei um pouco o funk. A temática é variada, tem canções para meus netos, bisneta, para os médicos que me trataram, para Flora, uma musa inspiradora permanente, para outras moças bonitas que me causam sentimento de elevação amorosa, tudo isso está no repertório.

E - Chico Buarque e Mick Jagger lançaram discos muito contundentes em 2017. Você e Caetano Veloso pretendem fazê-lo em 2018. Qual a importância destes nomes clássicos seguirem atuantes?

GG - Quem não morre envelhece, diria Nelson Rodrigues e dona Canô. Estamos envelhecendo como bom vinho, bom de ser apreciado, com paladar que ainda agrada. O vinho velho ele é bem valorizado. Na medida em que podemos continuar sendo engarrafados, distribuídos e servidos na mesa das pessoas, continuamos com valor. Nossa geração é um exemplo do bom vinho velho da música brasileira.

E - O que o pelotense pode esperar do show de sábado?

GG - É um convite que foi feito por pessoas ligadas à vida cultural de Pelotas para que fosse feita essa visita. Vamos então sentar num banco e tocar umas duas dúzias de canções.

A trajetória de um mestre

1950

Gil começa a carreira através do acordeom, pela influência de Luiz Gonzaga, que ouvia no rádio ainda na Bahia. O baião era, à época, a tradução musical do Nordeste.

1963

O ano marca o encontro com Caetano Veloso na Universidade da Bahia e o surgimento de uma das parcerias mais significativas da história cultural do Brasil. Juntamente a nomes como Gal Costa, Tom Zé, Torquato Neto, Rogério Duarte e outros, a dupla faz eclodir no país e no mundo a Tropicália.

1969

Por deixar em evidência a brasilidade natural, a Tropicália acaba por gerar descontentamento na ditadura militar, da qual passa a ser das principais forças opositoras. A resistência leva Gil e demais artistas a serem exilados. Em Londres, o baiano é influenciado por Beatles e Jimmy Hendrix e lança o disco Gilberto Gil, em 1971, sem nunca deixar as raízes verde e amarela de lado. O ano seguinte marcaria a volta do músico ao Brasil.

1972

De volta ao lar, Gil dá sequência a uma carreira marcada pela retidão e o pé fincado nas raízes brasileiras ante a influência estrangeira constante. Em 1972 o artista lança Expresso 2222, um de seus discos mais emblemáticos.

1975

O processo de revisitas inicia com o clássico Refazenda, uma volta de Gil às raízes nordestinas. Refavela viria dois anos depois, trazendo a África ao trabalho do compositor brasileiro. Na sequência surge Refestança, em parceria com Rita Lee e a banda Tutti Frutti.

Anos 1980

Em 1981, Gil lança o disco Luar. Dele, saíram clássicos como Se eu quiser falar com Deus. No ano seguinte, Um banda um segue a trajetória de sucesso aliado ao comprometimento social. Andar com fé, principal single do trabalho, levou o compositor a se apresentar na Europa e em países como Estados Unidos, Colômbia e México. A década de 1980 também presenciou o lançamento de Soy loco por ti, America, hino da resistência cultural da América Latina.

Anos 1990

Na década seguinte, Gil se envolve mais diretamente na política, ao se eleger vereador em Salvador, e, ao término do mandato, se retira do cenário. Para o compositor, os anos 1990 foram marcados por um acústico MTV, por discos como Parabolicamará e O Sol de Oslo e pela condecoração da Unesco como Artista Pela Paz.

Anos 2000

Em 2003 Gil retorna à política propriamente dita ao se tornar ministro da Cultura durante o primeiro mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Titular da pasta até 2008, o artista foi responsável pela elaboração do Programa Cultura Viva, cujos reflexos são até hoje observados nos cotidianos das cidades através dos Pontos de Cultura. Musicalmente, foram lançados no período discos como Eletroacústico e turnês como Fé na festa e Dois amigos - Um século de música, em parceria com Caetano Veloso.



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in Diário Popular, 21.10.2017
 
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