Barra 69, a despedida de Gil e Caetano rumo ao exílio

ZÉ VIRGÍLIO

Na última crônica, sobre os Novos Baianos, comecei a contar os grandes shows que tive a sorte de assistir na minha juventude e adolescência. Hoje, irei falar do show Barra 69, a despedida de Gilberto Gil e Caetano Veloso quando partiram para o exílio. Foi um misto de emoção e alegria, tinham 2 mil pessoas dentro do Teatro Castro Alves, personalidades como Jorge Amado, Zélia Gattai, Augusto de Campos e outros tantos que faziam parte da plateia. A cidade de Salvador só se falava nesse show, em todas as camadas sociais a ansiedade era muito grande. Foram três apresentações: a estreia no dia 20, uma matinê e mais um espetáculo à noite, no dia 21.

A banda que acompanhou o show foi a Leif’s, um grupo de rock de Salvador formado pelos irmãos Gomes: Pepeu, Jorginho, Carlinhos e Lico. Foi assim que tempos depois Pepeu e Jorginho passaram a fazer parte dos Novos Baianos… Bem, voltando ao show, a empolgação do público no entorno do teatro era enorme, uma multidão mesmo sem ingresso estava lá para se despedir de Gil e Caetano.

Várias viaturas da polícia rodeavam o Campo Grande, bairro onde está localizado o Castro Alves. Policiais à paisana circulavam no foyer do teatro quando foram identificados pelo público. Foram vaiados estrepitosamente e saíram corridos do espaço. Os fãs eram homens e mulheres, vestidos de forma despojada, muitos cabeludos, muitas gatas e cheiro de lança estava no ar.

Minha ligação com Gilberto Gil e Caetano Veloso vem de 1967. Os conheci por meio de Claudia, madrinha da minha primeira filha, Roberta. Ela é irmã de Dedé e Sandra Gadelha, ex-esposas de Caetano e Gil, respectivamente. Convivo com eles desde aquela época. Sofremos muito com a prisão e aquela partida brusca. Vivíamos uma ditadura brutal e cruel, censura total (aliás, estão repetindo o filme em pleno o século 21).

Mas voltando ao show, estive nas três apresentações. Na do dia 20 de julho de 1969 foi gravado o LP ao vivo Barra 69. A plateia cantava as músicas com uma emoção frenética, um verdadeiro espetáculo apoteótico. Naquela noite, Gil lançou um dos maiores sucesso de sua carreira, Aquele abraço, que ele começou a compôr dentro da viatura no caminho entre a prisão e o aeroporto para embarcar para Salvador.

Emocionado com a despedida, pois já sabia que iria para o exílio, ele começou a pensar na canção e utilizou o bordão do comediante Lilico, muito famoso à época, que quando entrava num palco de TV gritava: Alô Realengo, aquele abraço.

Bem, para nós tricolores, o grande momento do show foi quando Caetano cantou o hino do Esquadrão de Aço, o Esporte Clube Bahia. A plateia invadiu o palco gritando: Baêa, Baêa, Baêa, até os torcedores do Vice, minoria absoluta no teatro, se empolgaram e gritaram também. Por enquanto, para vocês, aquele abraço.

Aliás, gostaria de registrar meu repúdio às autoridades que proibiram a realização de Caetano Veloso no acampamento do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). A intolerância está instalado na sociedade, a censura voltou. Só tenho uma coisa a dizer: É PROIBIDO PROIBIR, GENTE É PRA BRILHAR E NÃO PARA MORRER DE FOME.



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in A Tribuna, 02.11.2017
 
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