Gilberto Gil recebe aquele abraço de volta ao Brasil

“Vou cantar a última música que eu fiz. Fiz aqui já no Brasil, graças a deus”. É com essa frase que Gilberto Gil abre o show Em Concerto, realizado em 12 de março de 1972. Em seguida ele ataca com o violão suingado de Back In Bahia, faixa alegre que fala da saudade que ele sentia do Brasil após quase três anos de exílio em Londres. A experiência do compositor na terra da rainha foi dúbia. Expulso de sua terra por complicações políticas, ele viveu todas as sensações próprias de quem tem algo muito importante roubado. Pra compensar essa falta de calor, sol e mar, o baiano caiu de boca nos festivais europeus e viveu o auge do rock psicodélico in loco.

Reunindo a alegria da volta com a experiência de quem viu lendas da música tocando ao vivo, Gilberto Gil reuniu uma banda de virtuoses nacionais e engatou a turnê Em Concerto, cujos registros chegam agora em CD. Abrindo o box Anos 70, lançado pela Discobertas, o áudio rebatizado como Back In Bahia, exibe um compositor com fome de música, improvisando e recriando sobre canções já conhecidas. É o caso de Aquele Abraço, despedida pública que ficou famosa pelo ritmo alegre. Naquele show de 1972, ela foi despida da batida de samba para ganhar uma malemolência black, cheia de nuances jazzísticas que se estendem por mais de 18 minutos. Costurando essa viagem sonora, estão mestres o baterista Tutty Moreno e o guitarrista Lanny Gordin.

Além de Back in Bahia, o box Anos 70 traz outros dois registros – todos em discos duplos – que mostram um Gilberto Gil livre de corpo e alma pra criar sem amarras estéticas ou conceituais. É o caso de Umeboshi, gravado durante uma temporada no Teatro Opinião (RJ), em 1973. Após o lançamento do disco Expresso 2222 e com alguns sucessos na mão, como Eu Só Quero um Xodó, era comum os shows durarem três ou quatro horas. Sozinho ao violão ou com banda, cada música se torna uma obra aberta onde os músicos podem jogar a cor que quiser, ali na hora. Com 12 minutos em clima de entrega espiritual, Iansã é um bom exemplo dessa viagem sonora.

“A próxima música chama-se Duplo Sentido e, num certo sentido, se parece com Roberto Carlos”, comenta Gil sobre a faixa rara apresentada em Umeboshi. Com influência explicita de Jards Macalé – tanto que ele cita Movimento dos Barcos – na letra e na melodia, Gil explica que a canção gerou uma discussão na banda que não sabia era ou não um bolero. Arrastada por 12 minutos de um ritmo quase inclassificável, a canção emoldura bem uma letra que fala de solidão, desconforto, nostalgia e conflitos numa cidade grande imersa em um país imerso em um turbilhão político.

A propósito, é esse turbilhão político que (des)guiava o Brasil no início dos anos 1970 que faz do terceiro disco do box um registro histórico para além da música. Convidado por alunos da USP para uma apresentação no campus, ele tocou por mais de três horas em uma sala de aula. Ter um dos mais importantes artistas do planeta sentado num banquinho, de violão em punho, tocando suas composições e alguns sambas de seu apreço já seria suficiente para fazer daquele encontro algo importante. Mas alguns elementos que corriam em paralelo temperaram aquele momento.

Gil, um ex-exilado, estava ali quando os alunos da USP buscavam por respostas sobre a morte do estudante Alexandre Vannucchi Leme, encontrado morto, aos 22 anos, numa cela do Doi-Codi. Pra esquentar mais a situação, no início daquele maio de 1973, durante uma participação no festival Phono 73, Gil e Chico Buarque viram seus microfones serem cortados enquanto cantavam a recém criada Cálice.

E, claro, diante daquela juventude politizada, toda a plateia pediu que ele cantasse a letra censurada. Registrado nos áudios, Gilberto Gil protagoniza uma cena que balança entre a tensão e a comédia. “É que tem uma parte da letra, que é do Chico, que eu não lembro. Que não cheguei nem a aprender”, explica ele, antes de receber um papel com a letra completa. Em outros momentos, o público pede outras músicas, inclusive para um replay de Cálice, mas o convidado está na fissura de mostrar novidades. É o caso de Oriente, uma das preferidas dele no período. Ou ainda relembrar sambas curiosos, como Minha Nega na Janela (Germano Mathias e Doca), que trata de preconceito racial e violência contra mulher com a mesma delicadeza de uma criança brincando com uma metralhadora.

Ao final da maratona de 410 minutos de música, o box Anos 70 constata muito do que se sabe sobre Gilberto Gil. Seu talento como músico, cantor e compositor e a naturalidade que ele transparece ao compor músicas que tratam política, existencialismo e filosofia com extremo didatismo. A novidade fica para as performances arrojadas, que variam do rock ao free jazz, passando pelo samba, a bossa e ritmos nordestinos. Sem a preocupação com tempo e outras amarras radiofônicas, cada música pode durar o tempo que pedir para durar. E, se a festa tiver boa e a mensagem captada pela plateia, ele ainda pode esticar um pouco mais.



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in O Povo, 06.11.2017
 
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