Jukebox Sentimental: ópera promete mostrar misticismo de Gilberto Gil

Artista baiano, prestes a encenar obra sobre o amor do deus hindu Krishna, flerta com o metafísico desde o disco de estreia

Aos 75 anos, Gilberto Gil segue incansável. Após um tempo de enfermidade, o velho baiano de sorriso largo e violão singular, um dos ícones da nossa MPB, mostra fôlego de sobra à frente de projeto ambicioso que divide com o maestro italiano Aldo Brizzi: uma ópera sobre o amor entre um deus do hinduísmo e uma simples mortal. A notícia, divulgada no início deste mês pela BBC Brasil em Londres, chamou atenção dos fãs.

Intitulada “Negro Amor”, a empreitada – sonho antigo de Rogério Duarte, artista gráfico criador de imagens clássicas do tropicalismo e de obras marcantes, como o cartaz do filme “O Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de Glauber Rocha –, tem previsão de lançamento para o segundo semestre de 2018, no Theatro Municipal do Rio, e marca, talvez, o ápice da relação do cantor e compositor com o misticismo. Basta conferir sua obra.

Filho de mãe católica e pai médico agnóstico, o menino Gil chegou a estudar em colégio de padres e a acreditar no poder das divindades da Santíssima Trindade. Com a chegada da maturidade e da autonomia do saber adquirida por meio de leituras e curiosidades diversas sobre o tema, o artista se embrenhou pelos estudos comparados de religião, filosofia e esoterismo. Dessa forma, o conceito de Deus na sua cabeça foi ficando múltiplo e variado.

“O meu Deus é uma vaga. Das ursas maiores e menores, é uma vaga ideia, é impessoal, é quântico, é um mistério, é um deus sem nome ou com vários nomes. É uma mistura dos deuses bárbaros com os deuses das confissões com os deuses das não confissões. É algo incompreensível mesmo”, tergiversou o artista, numa famosa entrevista para o programa “Roda Viva”, no final dos anos 1990.

Deus cristão e as entidades bárbaras do Candomblé

Na primeira fase da carreira de Gilberto Gil, essa assimilação com o divino e com o transcendente surge da simbiose entre as referências cristãs, cultivadas desde criança, e as influências dos movimentos de esquerda, tão comuns nos anos 1960. O tom é de crítica social, à revelia das contradições, como mostram duas canções de seu álbum de estreia gravado em 1967: “Louvação” — que dá título à obra –, e “Procissão”.

Olha lá/Vai passando a procissão/Se arrastando que nem cobra pelo chão/(…) Muita gente se arvora/A ser Deus/E promete tanta coisa pro sertão/Que vai dar um vestido pra Maria/E promete um roçado pro João/Entra ano e sai ano/E nada vem/Meu sertão continua ao Deus dará/Mas se existe Jesus no firmamento/Cá na Terra isso tem que acabar "

canta o artista, numa velada citação, quem sabe, às figuras messiânicas, como a do religioso Padre Cícero

Com a prisão em 1969 e o exílio em Londres amargado junto de Caetano Veloso, Gilberto Gil se aproxima das “coisas” do Oriente, buscando o equilíbrio existencial no yin-yang tão presente na cultura asiática. Vai mais longe, conecta com a ioga e o taoismo, encontrando refúgio espiritual também em religiões alternativas, como a Eubiose. São desta fase, canções inesquecíveis, como “Oriente”, do antológico álbum “Expresso 2222”, e “Meditação”.

Dentro de si mesmo/Mesmo que lá fora/Fora de si mesmo/Mesmo que distante/E assim por diante de si mesmo/Ad infinitum/Tudo de si mesmo/Mesmo que pra nada/Nada pra si mesmo/Mesmo porque tudo/Sempre acaba sendo/O que era de se esperar "

reflete o cantor, na canção do álbum, “Refazenda”, um de seus maiores sucessos

A religiosidade da cultura afro, bastante presente na Bahia, com suas entidades bárbaras do candomblé e da umbanda, se faz presente em registros magistrais. Uma delas é a telúrica “Iansã”, gravada por Maria Bethânia e pelo próprio Gil. Já a hipnótica “Filhos de Gandhi”, imortalizada no disco de 1975 gravado em parceria com Jorge Ben Jor, resume, em forma de mantra, toda a ancestralidade das raízes negras em mais de 13 minutos de música.

“Omolu, Ogum, Oxum, Oxum Mare, todo pessoal/Manda descer/Pra ver filhos de Gandhi”, canta Gil, que é filho de Xângo com Logunodè.

Uma das canções símbolo de resistência contra a ditadura, “Cálice”, escrita a quatro mãos com o mestre Chico Buarque, mistura política e religião numa mensagem certeira cifrada contra o regime militar em seu período mais feroz. O título dúbio provocador e as metáforas ousadas, que comparam o martírio de Cristo na cruz com o sofrimento dos desvalidos nos porões militares, fizeram a música ser proibida por cinco anos.

Como que incorporando um preto “véio” de terreiro, “Andar Com Fé”, sucesso do disco “Um Banda Um”, de 1982, faz uma homenagem autêntica ao linguajar caipira e à crença do homem simples do Brasil profundo ao explorar o coloquialismo e a fé em seu estado mais puro. “Andá com fé eu vou/Que a fé não costuma faiá”, canta.

Sucesso de Gil regravado por dezenas de artistas – de Elis Regina ao sertanejo Leonardo, passando por Ney Matogrosso -, “Se Eu Quiser Falar Com Deus” era para ser um presente do baiano à nossa esfinge maior da música popular, Roberto Carlos, mas o rei rejeitou a música comentando que “o meu Deus não é o mesmo Deus dele”. E talvez seja verdade, já que a abordagem do artista, aqui, é filosófica e experimental. “É uma canção agnóstica”, resumiu.



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in Metrópoles, 17.11.2017
 
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