‘Perseguidor do equilíbrio’, Gilberto Gil vive momento intenso de criação artística

Recuperado, compositor tem disco de inéditas pronto e ópera em produção

RIO — Recuperado da insuficiência renal que o debilitou ao longo de 2016, Gilberto Gil vive um momento intenso em produção artística e homenagens — que ele descreve como “a resultante da fome com a vontade de comer, ou melhor, da saciedade com a vontade de comer mais”. O artista recebe o primeiro Prêmio UBC, da União Brasileira de Compositores, depois de amanhã; tem um disco de inéditas pronto, com lançamento previsto para abril; prepara uma versão atualizada de sua canção “Pela internet”; faz show com Anitta em Salvador, no festival Combina MPB (realizado nos dias 1º, 2 e 3/12; saiba mais no fim da matéria); segue na turnê “Trinca de ases” com Gal Costa e Nando Reis; ganhou recentemente o tributo “Refavela 40”; prepara a ópera “Negro amor”, com o maestro Aldo Brizzi, sobre poema traduzido do sânscrito por Rogério Duarte; e será homenageado em 2018 pela escola Vai Vai.

A “vontade de comer mais” não tira a serenidade do olhar de Gil. É com ela que o compositor analisa o atual cenário da música brasileira e do mercado fonográfico, os efeitos das novas tecnologias sobre as relações humanas e mesmo os rumos do Brasil e do mundo — frente ao que identifica como possíveis ameaças, como “o racismo que antes era velado e se torna revelado”, e o fortalecimento do conservadorismo em diversos níveis. Num ambiente de polarização e incertezas, ele se diz “um perseguidor do equilíbrio”.

— Vejo que os contrários estão sempre pendurados num fio imaginário que está no meio. Sempre quis saber como tá esse fio, se posso andar em cima dele — afirma, apoiado na tranquilidade sábia dos versos que ecoam por toda esta entrevista: “Não me iludo/ Tudo permanecerá do jeito que tem sido/ Transcorrendo/ Transformando”.

Você está recebendo esta semana o Prêmio UBC, que enaltece a figura do compositor. Quando ministro da Cultura (2003-2008), você se se engajou diretamente no debate sobre o conceito de autor e de direitos autorais. Como você analisa esse debate hoje?

A discussão continua, a defesa dos direitos autorais também, mas há questionamentos feitos por esse novo conjunto de atores, as grandes empresas de comunicação da internet. As instituições estão se diluindo, se tornando outras coisas, se dissolvendo numa grande água. Mas as concentrações seguem, antes eram as gravadoras, agora são as amazons e googles. Li um artigo do “Financial Times” que alertava para esse perigo, dizia que essa concentração de poder econômico implica mesmo numa ameaça à democracia. Não é possível continuar funcionando do jeito que era. Ao mesmo tempo, não é possível permitir que esse novo modo configure os hipermonopólios.

Então, com relação à tecnologia, você hoje se localiza entre a desconfiança de “Cérebro eletrônico” e a celebração de “Pela internet”?

Sim, há tempos em que você se adere um pouco mais à tradição, há outros em que você se associa a ímpetos novos. E chega um momento em que essa coisas se equilibram pra que um terceiro evento se dê. Porque é sempre assim. Foi assim com os direitos dos trabalhadores. O surgimento das máquinas a vapor, dos sindicatos, a luta por melhores salários, melhores jornadas de trabalho. Agora já se vê um momento em que a nova dimensão maquínica do mundo ameaça de novo a todos, com reformas trabalhistas na França, no Brasil, na Itália, colocando por terra conquistas já feitas pelos trabalhadores. Os direitos autorais estão nessa lógica.

Como você vê a música brasileira hoje?

Sempre foi muito diversificada, mas eram territórios mais ou menos delimitados. O samba, a canção romântica, a canção de juventude, a canção do mundo interiorano... Hoje em dia, o que é a canção? O rádio, que tinha um papel importantíssimo na administração da divisão desses espaços, está perdendo esse papel também.

Mas ainda há uma música de massa, que está com o sertanejo, o funk. Ela te interessa?

Como ouvinte. Como criador, não. Continuo produzindo canções à moda antiga, como Gonzaga, João, Tom ensinaram. Sou um compositor já antigo e um homem idoso. Faço canções cada vez mais pra mim mesmo. Não tenho interesse em veiculação da minha música. Faço pra me divertir. Não tem mais a dimensão pragmática, que já foi uma exigência. Há uns meses, vi que em algumas semanas eu tinha feito 15 músicas. Flora, Bem e alguns amigos disseram: “Grava”. E eu gravei. E de alguma forma esse disco que gravei há três, quatro meses, já tá velho. Porque já estou procurando outras coisas. Pra dar um exemplo, não sei nem que nome dar a esse disco. Lado A, lado B, capa, tudo isso pra mim desapareceu. Antigamente era “O luar”, “Realce”, eu queria reunir as semânticas ligadas à criação, à produção e à divulgação das obras. Hoje gosto de cantar e tocar. Virei um daqueles americanos tipo Chuck Berry. A dimensão lúdica predomina. Deixei de estar na competição.

Você vê paralelos entre o momento político e social que vivemos hoje e o dos anos 1960?

Não, os tempos mudam. Embora a vida seja a mesma, as pessoas continuam tendo que comer, fazer coisas, pensar, amar. Mas em condições variadas ao longo da História. É sempre a mesma coisa, e é sempre novo. As tensões de hoje são da mesma natureza das daquela época, mas são outras formas. Os dinossauros podem voltar do museu, como no “Parque dos dinossauros”. Mas têm que se defrontar com ambientes novos.

Sim, hoje temos prisões de políticos. Por outro lado, as discussões sobre racismo, machismo e homofobia mostram regressões.

As prisões surgem como consequência dessa nova disposição de promover limpezas de formas de operar com a vida política. Surgiram fenômenos como a Lava-Jato, o campo judiciário assumindo um protagonismo maior. Ao mesmo tempo, se percebem regressões em questões ligadas a direitos civis, liberdades individuais. É o “Kaos com K” de Jorge Mautner, no qual você tem tudo como se estivesse no mundo das partículas subatômicas indo em trajetórias diversas. Com o derramamento de mais coisas nesse caldeirão do mundo, partículas difusas nesse meio aquático começam a se solidificar. O racismo que antes era velado se torna revelado, por exemplo. A internet é um desses catalisadores, que fez com que se precipitassem muitas coisas que estavam escondidas no campo das individualidades remotas, envergonhadas, e que agora vêm pra frente. É quântico. É uma dimensão difícil pra encarar quando nos postamos diante delas com a postura que tínhamos com relação ao mundo das coisas sólidas.

Você analisa o cenário atual com serenidade. Mas o compositor que tratou da valorização do negro em “A mão da limpeza”, do gay em “O veado” e da mulher em “Super homem: a canção” não teme a reunião de partículas sinistras?

Vai se chegar a algum lugar. A eleição de alguém como Bolsonaro ou qualquer outro que venha a representar ameaça às conquistas libertárias... Em que medida a sociedade vai reagir à perda de conquistas que já são parte integrante da vida dela hoje? É o tempo que vai dizer. Você tem sempre 50% de uma sociedade tendendo à aceitação da vida livre, progressista, e outra metade que quer segurar o mundo numa configuração antiga. E a fricção entre essas duas partes. O movimento é pendular, ora pendendo para um lado, ora para o outro. E os resultados nunca são definitivos. Senão acaba tudo, deixam de existir História, morte, nascimento. Eu sempre fui um perseguidor do equilíbrio, com minhas macrobióticas, minhas iogas, minhas meditações. Vejo que os contrários estão sempre pendurados num fio imaginário que está no meio. Sempre quis saber como tá esse fio, se posso andar em cima dele. Quando voltei do exílio, cantei em “Back in Bahia”: “Como se ter ido fosse necessário para voltar/ Tanto mais vivo/ De vida mais vivida, dividida pra lá e pra cá”. Dividida. A palavra tá aí.

Como é o disco novo?

Tem 13 músicas, todas gravadas. A ordem não sei. Bem vai se encarregar disso. Ainda não tem nome ou capa. Sei que sai em abril. A minha parte eu já fiz, já tô em outra. Tô fazendo uma versão de “Pela internet”, pra celebrar os 20 anos da música, com coisas como “Whatsapp, what’s down, what’s new”. Esse disco tem uma marca: a ameaça à condição física naquele momento foi detonadora do processo: “Bota o coração e a cabeça pra voar porque o corpo precisa de cuidados”.

Você também produz uma ópera, “Negro amor”, com Aldo Brizzi, sobre a tradução de Rogério Duarte (1939-2016) para “Gita Govinda”.

Sim, a ideia foi do próprio Rogério. O plano é que Arnaldo Antunes seja Krishna. Eu serei o poeta (Jayadeva Goswami) que narra o amor de Krishna e Radha. Quando Aldo quis musicar, Rogério disse: “Você devia fazer uma ópera, fale com Gil”. Está pronta. Em termos musicais, ela conversa com Índia, África, Bahia, a canção italiana...

Como tem sido a experiência do “Trinca de ases”, voltar ao palco com vigor, recuperado da doença?

As pessoas olhavam e pensavam: “Gil pode morrer a qualquer hora”. A ameaça à existência física potencializou a existência mental, espiritual. Entreguei minhas forças ao desejo de sonhar, cantar, me divertir. Tudo isso ao lado da percepção gradual que fui tendo da melhora da condição física. Não estou mais propriamente doente. Continuo em tratamento, mas os médicos e a vida trouxeram os níveis de letalidade da doença para o chão. Hoje eu tô como qualquer homem velho, que é sempre mais fragilizado, mas meu vigor espiritual está me sustentando, empurrando energia pro mundo físico.

Como será dividir o palco com Anitta?

Ela é uma empreendedora de sua indústria. Tem as matérias-primas, as máquinas, as ideias. Tá saindo do Brasil, domina o inglês, fala espanhol... Vai que vai. E ao mesmo tempo tem uma ambição apaziguada, não se nota nela uma coisa vexatória pro alcance das coisas. Ela entra assim: “Tenho aqui minha dotação, deixa eu fazer”. Vou pedir a ela pra cantar “Banho de lua”, de Celly Campello. É a cara dela. Primeiro veio Celly, Rita Lee depois, agora Anitta.

Elogiar uma artista popular como Anitta ainda causa reações negativas. Por quê?

É o conservadorismo, com subingredientes como elitismo e racismo. Fica a mágoa nessa gente conservadora, porque o melhor do Brasil é o que o povo fez. A casa grande produziu muita coisa, mas o que é mais significativo veio da senzala. Isso é insuportável pra muita gente. Isso tem impedido a abolição completa da escravatura. Mas voltamos ao ponto: a sociedade fica dividida. O que vai acontecer? Vamos regredir pra uma sociedade escravocrata ou vamos de peito aberto pra uma sociedade pós-humana? A certeza é que nenhuma das duas será definitiva.



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in O Globo, 26.11.2017
 
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