Gilberto Gil faz show em Porto Alegre para celebrar os 40 anos do clássico disco "Refavela"

Gilberto Gil não desacelera. Firme e forte na estrada com seus múltiplos espetáculos – em outubro, apresentou em Porto Alegre o show Trinca de Ases, com Gal Costa e Nando Reis, e tocou em Pelotas ao banquinho e violão –, o gigante baiano está de volta à Capital para celebrar neste domingo, no Teatro do Bourbon Country, os 40 anos de Refavela, disco central da sua celebrada trilogia completada por Refazenda (1975) e Realce (1979).

Exaltação às raízes negras africanas suas, do Brasil e da música que trespassa cores e fronteiras, Refavela teve suas 10 faixas, entre elas a releitura de Samba do Avião, de Tom Jobim, gravadas por Gil após uma viagem a Lagos, na Nigéria, em janeiro de 1977, para participar do Festival Mundial de Arte e Cultura Negra.

A jornada despertou no artista o desejo de trabalhar com ritmos que balançavam do funk aos blocos afros da Bahia, passando pela juju music nigeriana. No repertório, incluiu faixas nascidas antes da viagem, como Era Nova, composta para Roberto Carlos, e Sandra.

Em entrevista por telefone a ZH, Gil conta que o espetáculo tem origem no apreço que seu filho Bem Gil tem por Refavela e a conexão Brasil-África que o disco representa:

– É um projeto de Bem, que idealizou, realizou e convidou seus colegas. Refavela é dos meus discos de que mais gosto. Traz a ascendência não apenas da minha música mas de toda a música brasileira, que é a África. E não apenas diretamente ligada à África, mas também à diáspora que chegou ao Brasil, a países centro-americanos como Porto Rico e Cuba e aos Estados Unidos. Ali (em Refavela) estão uma música negra contemporânea do Brasil a partir da Bahia e os primórdios do que se convencionou chamar de axé. Tem Ilê Ayê, primeira canção gravada sobre esse bloco (o mais antigo do Carnaval de Salvador), que vai marcar toda essa tendência nova-africana. O disco tem todos esses signos.

Os colegas de Bem a que Gil se refere e que estão com ele no palco, comandando a primeira parte do espetáculo, são a cantora Céu, o cantor Moreno Veloso, filho de Caetano, e a cantora e pianista Maíra Freitas, filha de Martinho da Vila. Bem toca guitarra na banda formada por laços de sangue e afeto: Domenico Lancellotti e Thomas Harres na bateria e percussão; Bruno Di Lullo no baixo; Thiagô de Oliveira e Mateus Aleluia nos sopros; e Nara Gil, filha de Gil, e Ana Cláudia Lomelino, casada com Bem, nos vocais.

Caetano Veloso estava com Gil na viagem à África e lá também inspirou-se para seu disco Bicho (1977), do qual foi pinçada a faixa Two Naira Fifty Kobo para alargar o repertório do espetáculo para além das 10 faixas de Refavela. Foram incluídas canções que Gil gravou na mesma época, como Sítio do Picapau Amarelo, Gaivota (registrada na voz de Ney Matogrosso em 1976) e É. Tem ainda um tributo a outro grande disco lançado em 1977, Exodus, de Bob Marley – presente com a faixa título, Jamming e Three Little Birds. E, entre outras faixas, destaque para Sarará Miolo, gravada em dueto com Nara Leão no disco dela de 1977 e depois por Gil em Realce.

Aos 75 anos Gil segue em frente com mais este show, que terá temporada na Europa em 2018, enquanto prepara o lançamento de seu novo disco com material inédito, já gravado, e finaliza um de seus trabalhos mais ambiciosos. Trata-se de uma ópera realizada em parceria com o maestro e compositor italiano Aldo Brizzi, musicando Gitagovinda de Jayadeva: Cantiga do Negro Amor, tradução que o artista gráfico, músico e escritor Rogério Duarte, um dos mentores intelectuais do movimento tropicalista, fez do ancestral poema em sânscrito escrito no século 12 pelo indiano Jayadeva Goswami. Tem como personagens as divindades Krishna e Vishnu e a camponesa Rhada, que deverão ser interpretados por Arnaldo Antunes, Gil e a cantora portuguesa Ana Moura.

– Aldo tem larga experiência no campo da música eletroacústica e também em concertos líricos – explica Gil. – Já fez óperas como a dedicada a Scott Joplin, o grande pianista negro americano. Ele herdou do Rogério Duarte (que morreu em 2016) a incumbência de fazer uma ópera dessa tradução do longo poema Gitagovinda, que Jayadeva fez a partir das escrituras do Bhagavad Gita (texto religioso hindu do século 4 a.C), que o próprio Rogério traduziu. Então, Aldo me convidou e já fizemos 80% da música. Vamos terminar neste verão. Estamos levantando recursos para produzir a montagem e fazendo contatos com o Theatro Municipal do Rio e casas de ópera da Europa. É para ser executado com orquestra inteira, mais coro lírico e corpo de baile.



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in Zero Hora - Porto Alegre , 07.12.2017
 
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