Moreno Veloso: “Todos somos fãs de ‘Refavela’”

Luiz Gonzaga Lopes

O cantor e compositor baiano Moreno Veloso tem 44 anos e é filho de Caetano Veloso. Ainda jovem, colaborou com seu pai na letra da música “Um canto de afoxé para o bloco do Ilê”, do álbum “Cores, Nomes”, de 1982. Com dois discos lançados, “Máquina de Escrever Música” (2000) e “Coisa Boa” (2014), o músico também integra a Orquestra Imperial, orquestra de gafieira criada em 2002 ao lado de nomes como Thalma de Freitas, Kassin e Rodrigo Amarante. Moreno também participa junto com Gilberto Gil, Céu e Maíra Freitas do show que celebra os 40 anos do disco “Refavela”, lançado por Gil em 1977, cuja apresentação está marcada para este domingo, às 20h, no Teatro do Bourbon Country, em Porto Alegre.

Idealizado e dirigido pelo filho de Gilberto Gil, Bem Gil, a apresentação reúne releituras das músicas do disco lançado em 1977 por Gilberto Gil, além de canções que fizeram parte do show original, de Bob Marley e canções de Gil que foram interpretadas à época por Nara Leão e Erasmo Carlos. A ideia de Bem Gil foi reunir novamente as canções de “Refavela” em um espetáculo que surgiu com uma vontade coletiva e com parceiros identificados com o disco e com o conceito do álbum, composto após uma viagem à África, que Gil e Caetano Veloso fizeram para participar de um festival de arte e cultura em Lagos, na Nigéria, e que repercutiu no disco, com letras que falam da negritude, de habitação, do social, de amor, de política, das relações entre o Brasil e o continente africano, isto tudo numa época de ditadura militar. O critério utilizado por Bem Gil foi recrutar os músicos não só no estilo ou na técnica, mas estar perto dos amigos músicos que se divertiriam durante o processo de realização do trabalho, desde os estudos até o palco. Bem Gil também participa da apresentação tocando guitarra. Completam o time instrumental Bruno Di Lullo (baixo), Domenico Lancellotti e Thomas Harres (bateria e percussão), Thiagô de Oliveira e Mateus Aleluia (sopros), Nara Gil e Ana Cláudia Lomelino (vocais).

Em entrevista ao Correio do Povo, Moreno Veloso fala do show, do disco, do sentimento fraterno e familiar entre os músicos e também do show que fará junto com o pai, Caetano, e os irmãos Tom e Zeca, no dia 19, em Porto Alegre, no Araújo Vianna.

Correio do Povo: Como foi esta reunião para celebrar os 40 anos de “Refavela”?

Moreno Veloso: Está sendo um prazer, começando pelo fato de todos sermos fãs de “Refavela”. Eu fui reouvir o disco que é fruto desta viagem à Africa que o Gil e o meu pai fizeram e estão lá as letras, os ritmos e uma sonoridade que nos emociona. O Bem Gil e o Thomar Harres propuseram um show que contivesse o disco inteiro. O momento é muito apropriado, pois “Refavela” tem uma importância crucial na expansão da questão africana pelo mundo e em relação à questão negra. A África foi devastada com o passar dos séculos, o povo negro foi tirado do seu lugar no mundo e nada ou muito pouco foi feito para reparar isto no Brasil ou no resto do mundo. Do ponto de vista político e artístico, este disco e o show mostram o orgulho da cultura negra, a força da África, num momento de instabilidade e de perda de credibilidade nas esferas políticas e a cultura tem a força de transformação neste momento.

CP: E as parcerias feitas para se chegar a este show?

Moreno Veloso: As parcerias formadas para o projeto mostram uma dimensão familiar que está no disco e se transpõe para o show. Meu pai, minha mãe Dedé, minha tia, Sandra, e Gilberto Gil, foram para este festival na África. O Bem Gil juntou também a Nara Gil e a atual mulher do Gil, Ana Claudia Lamelino para os vocais. Aí temos eu, envolvido familiarmente com o tema. A sensação familiar deixa o projeto gostoso. A Céu e a Maíra são identificadas também e ainda temos o Domenico Lancelotti, o Thiagô e o Bruno di Lullo que sempre tocaram comigo e também em projetos ligados à família do Gil. Uma familiaridade de interesses, ritmos e sonoridades.

CP: Por falar em familiaridade, no dia 19 de dezembro, você volta a Porto Alegre para o show da família Veloso, com Caetano e os manos Tom e Zeca. Conte-nos um pouco sobre este show.

Moreno Veloso: Meu projeto com meu pai e com meus irmãos mostra uma ligação caseira, familiar com a música, estritamente sanguínea. Demorou para a gente juntar todos nós, mas conseguimos e o que parece é que estamos em casa tocando e não num palco, tamanha é a liberdade e o ficar à vontade de cada um de nós.

CP: Sobre as músicas do show “Refavela”, não serão só as do disco de 1977. O que podemos esperar mais do repertório?

Moreno Veloso: Primeiro, precisamos explicar que não é uma releitura do disco, executada na íntegra. As músicas serão alternadas e estarão lá todas de “Refavela” a “Balafon”, de “Sandra” a “Ilê Ayê“. Também vão entrar canções que foram gravadas para o disco e não entraram, músicas de Bob Marley, além de outras composições de Gil, do mesmo ano, que foram gravadas por Nara Leão, Erasmo Carlos e outros intérpretes.

CP: Qual a sua música preferida do disco “Refavela”?

Moreno Veloso: Com certeza é “Sandra”, que fala da minha tia, irmã de minha mãe Dedé. Esta semana foi o aniversário de 70 anos de minha mãe. Eu tinha quatro anos quando o disco foi lançado. A tia Sandra era casada com Gil na época. Fez a viagem à África junto com Gil, meu pai e minha mãe. É uma canção de amor com o nome dela. Gil falava das mulheres que passaram pela sua vida, mas que sempre voltava para Sandra. Tem um trecho que não canso de ouvir e de cantar: “Amarradão na torre dá pra ir pro mundo inteiro / E onde quer que eu vá no mundo, vejo a minha torre / É só balançar / Que a corda me leva de volta pra ela: / Oh, Sandra!!!”.



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in Correio do Povo - 07/12/2017, 07.12.2017
 
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