Livro reporta a criação de álbum em que Gil seguiu o passo da jovem geração ‘black’

Mauro Ferreira

Nenhum outro álbum brasileiro foi tão celebrado ao longo deste ano de 2017 quanto Refavela (Philips), álbum de 1977 com o qual Gilberto Gil, partindo da África, seguiu o passo da jovem geração black que dava o tom da música na cidade do Rio de Janeiro (RJ), no Carnaval de Salvador (BA) e na Jamaica, inspirados pelo poder e o orgulho negros que reverberavam nos Estados Unidos desde a turbulenta década de 1960.

Os 40 anos da edição do disco gregário de Gil foram celebrados com o show Refavela 40 – idealizado por Bem Gil e ainda em turnê pelo Brasil, com gravação ao vivo programada para 2 de fevereiro, no Rio de Janeiro – e com a reedição em vinil do LP gravado por Gil entre março e abril de 1977, com Roberto Santana na direção de produção. Completou o pacote de homenagens um livro sobre a gênese, a gravação e as músicas de Refavela.

O título mais recente da coleção O livro do disco, série lançada em dezembro de 2014 pela editora Cobogó com textos sobre álbuns referenciais do universo pop brasileiro e internacional, é assinado pelo escritor, pesquisador e historiador Maurício Barros de Castro. Com texto fluente, mais informativo do que analítico, Castro expõe os caminhos percorridos por Gil na criação e formatação de Refavela.

Capa de ‘O livro do disco – Gilberto Gil – Refavela’ (Foto: Divulgação / Editora Cobogó)

O livro do disco – Gilberto Gil – Refavela soa mais com extensa reportagem sobre o álbum do que como ensaio. Tanto que uma das fontes principais do autor – devidamente creditada em notas de rodapé – foi a entrevista feita pela jornalista Ana Maria Bahiana com o mentor do disco e publicada na edição de 10 de julho de 1977 do jornal carioca O Globo com o título A paz doméstica de Gilberto Gil. O livro reproduz vários trechos do elucidativo depoimento do cantor sobre o álbum e as músicas que compõem o repertório majoritariamente autoral.

Admirador assumido do álbum, o autor tem o mérito de contextualizar os movimentos musicais, culturais e sociais que pavimentaram o caminho percorrido por Gil até desembocar em Refavela. Castro ocupa páginas com informações sobre o surgimento do movimento Black Rio – que inspiraria Gil na releitura funky do Samba do avião (Antonio Carlos Jobim, 1962), bombardeada na época por alguns críticos musicais – e sobre o movimento negro que movimentou a cidade de Salvador (BA) na primeira metade dos anos 1970, gerando a fundação em 1974 do bloco afro-brasileiro Ilê Aiyê, cujo primeiro desfile, no Carnaval de 1975, apresentou a música Que bloco é esse? (Paulinho Camafeu), gravada por Gil em Refavela com o título de Ilê Aiyê.

Nesse trecho do livro, no qual Castro revela a importância capital da ajuda de Gil na revitalização do bloco de afoxé Filhos de Gandhy (celebrado na festiva faixa final de Refavela, Patuscada de Gandhi), a principal fonte do autor é livro de Antonio Risério, Carnaval ijexá – Notas sobre afoxés e blocos de Carnaval baiano (1981).

Dentro desse manancial de referências alinhadas pelo livro sobre esse disco antenado em que Gil expôs códigos musicais do mundo negro, Castro também disserta sobre os álbuns que antecederam e sucederam Refavela na discografia solo gravada por Gil para o mercado do Brasil (nesse período, houve álbum, Nightingale, lançado em 1979 nos Estados Unidos). Refazenda (1975) – disco de inspiração nordestina e zen-ruralista – e Realce (1979), álbum já pautado pelo tecnopop que daria o tom da música da década de 1980), completam com Refavela o álbum da trilogia Re e expõem a pluralidade da obra de Gil.

Enfim, por mais que peque pelo excesso de uso do termo diáspora e do adjetivo correspondente diaspórica, o texto de O livro do disco – Gilberto Gil – Refavela envolve o leitor e/ou ouvinte de um álbum que, como Castro conclui ao fim da narrativa, resistiu bem ao tempo ao longo desses 40 anos. 



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in G1, 26.12.2017
 
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