Discípulo de Luiz Gonzaga

Antes dos acordes dissonantes do violão de João Gilberto, Gilberto Gil apaixonou-se pelo som da sanfona de Luiz Gonzaga. As músicas do rei do baião fizeram a trilha sonora da infância do menino nascido no bairro do Tororó, em Salvador, que foi morar com a família em Ituaçu, no interior da Bahia.

Lá, ele também tomou gosto pelos festejos juninos. "Foi a primeira e a mais importante música da minha vida", diz sobre ritmos como xote, xaxado, baião e forró. "Tem outros importantíssimos como Caymmi, João Gilberto, além de tantos colegas já contemporâneos meus, que também tiveram importância na minha formação. Mas Gonzaga é entronizado ali. Se tivesse um altar, ele estaria no meio e os outros ao redor", afirma Gil. "A música de Gonzaga é a música ambiente da minha primeira situação de vida. Vivia na caatinga, no Sertão. A vida sertaneja, os animais, o cultivo das plantas, os hábitos festeiros. Tudo isso está ligado à minha primeira infância", emociona-se. Passando longe do Recife neste São João, o ex-ministro da Cultura se apresenta hoje em Salgueiro com o show do seu mais novo CD, o junino Fé na festa. A expectativa é de que 25 mil compareçam.

Ao longo da carreira, Gilberto Gil sempre utilizou os ritmos nordestinos em suas composições. Dois dos seus maiores sucessos, Só quero um xodó (Dominguinhos e Anastácia) e Esperando na janela (Targino Gondim, Manuca e Raimundinho do Acordeom) pertencem a esse universo. Em 2005, o cantor lançou um CD com a trilha sonora do filme Eu, tu, eles (Andrucha Wadington) voltada para o forró pé-de-serra. Em Fé na festa ele resgata as lembranças da infância, de Luiz Gonzaga e do Sertão.

Nove das 13 faixas do álbum são inéditas. Foram compostas entre o carnaval e a entrada no estúdio, em abril. O livre atirador e a pegadora, primeira faixa a tocar nas rádios, foi inspirada numa música que fez muito sucesso no carnaval da Bahia deste ano, Vale night, de Durval Lelys, do Asa de Águia. Já Vinte e seis, Gil fez para o dia do seu aniversário; enquanto Não tenho medo da vida é um contraponto à Não tenho medo da morte (do CD Banda larga cordel, de 2008). Na hora de compor, Gilberto Gil vai pelo linguajar do povo. "Busco a linguagem, tanto musical quanto literária, deste tipo de música. As terminologias mais utilizadas, as palavras condensadas, as interjeições típicas criadas por esses linguajares do interior". E destaca também a sensualidade presente no gênero: "A paquera do menino, a coisa do duplo sentido, a erótica e o lado romântico", descreve. No show, Gil também deverá tocar quatro regravações - uma das quais, Norte da saudade, Gil compôs com Perinho Santana e Moacyr Albuquerque para o LP Refavela (1977), que ganhou novos arranjos.

Quem organizou a ida do cantor para o Sertão foi o sanfoneiro de Salgueiro Targino Gondim, que participou da trilha sonora de Eu, tu, eles. No novo álbum, Gil também inaugura novas parcerias: com Vanessa da Mata, em Lá vem ela, e com Nando Cordel, coautor de São João carioca. Na turnê, Gil tem a companhia de Arthur Maia (baixo), Sérgio Chiavazzolli (guitarras), Jorginho Gomes (zabumba), e Gustavo de Dalva (percussão). A eles se juntam dois reforços: o sanfoneiro Toninho Ferragutti e o violinista francês Nicolas Krassik, pesquisador dos ritmos do Nordeste. De Salgueiro, Gil leva sua festa para o interior da Bahia e depois segue em turnê pela Europa.



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in Diário de Pernambuco/ Online, 29.06.2010
 
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