Crítica: Nando Reis, Gal e Gil não precisam inventar nada para brilhar no 'ao vivo' do Trinca de Ases

Para quem curte os sucessos do repertório dos três, o disco é um prato cheio

RIO — Mais uma da série “Não tinha como dar errado”: os veteranos Gilberto Gil e Gal Costa e o “menino impetuoso e viril” (como diz a música “Trinca de ases”, que apresenta o grupo) Nando Reis, confesso fã dos mestres baianos, unindo seus instrumentos e sucessos no mesmo palco. O público brasileiro já aplaudiu uma turnê, e agora o trio — um perfeito produto para exportação da MPB, como foi em 2017 a excursão de Gil com o mano Caetano — mostra o que sabe na Europa, em um punhado de shows ao longo deste mês de março.

Com a parceria do canal Multishow, a Trinca de Ases gravou sua apresentação no Espaço das Américas, em São Paulo, no dia 25 de novembro do ano passado: o áudio já está disponível, em CD e nas plataformas digitais, e o vídeo, em DVD, chega no início de abril — o canal passou o show ao vivo.

Para quem curte os sucessos do repertório dos três, o disco é um prato cheio, com canções como “Palco” e “Nos barracos da cidade”, de Gil; “Baby” e “Meu amigo, meu herói”, de Gal (quando ela e Gil brincam com os apelidos Jiló e Gaúcha), e “All Star” e “Dois rios”, de Nando.

Os arranjos, se não apresentam grandes novidades, ganham um frescor orgânico com a guitarra de Gil, o violão de Nando e a cozinha de Magno Brito (baixo, do Pernambuco, como apresenta o ex-titã) e Kainan do Jêje (baianíssimos bateria e percussão, experiente da banda de Ivete Sangalo e Orquestra Rumpilezz).

Também é curioso, ao se rever canções antigas, as adaptações vocais de Gil e Gal a tons outrora agudíssimos, que eles encaravam com tranquilidade. Hoje, ultrapassada a barreira dos 70 anos, defendem-se bem, enquanto é de Nando, o menino de 55, a voz mais cristalina.

De novidade, novidade mesmo, só “Trinca de ases”, de Gil, que apresenta o trio, “Dupla de ás”, de Nando, composta para o projeto, e “Tocarte”, parceria dos dois — todas simpáticas, mas não extraordinárias. De resto, é saborear os muitos lados A e as nuances criadas neles pelo encontro, seja na parte instrumental (como quando Nando e Gil se tornam banda de apoio de Gal, em “Baby” e outras) ou quando ela assume uma música do Ruivão, o que acontece, por exemplo, na bela “Espatódea”, abrilhantada pelo triângulo de Kainan, e em “Segundo sol”.

Tudo é razoavelmente divino e maravilhoso, mas a liberdade de uma intérprete entre dois (grandes) compositores dá à baiana um papel de destaque entre os ases do barulho, quer dizer, do baralho.



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in O Globo, 13.03.2018
 
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