Retomando a retomada

João Gabriel Tréz

MÚSICA | Disco Refavela (1977), de Gilberto Gil, é homenageado na Maloca Dragão em show que reúne o cantor, Bem Gil, Mestrinho, Moreno Veloso e Sofia Freire

"Eu não tenho predileção em relação a qualquer coisa, não costumo ter esse sentimento com a música em geral. Não é só em relação aos discos do meu pai”, afirma, a certa altura da entrevista, Bem Gil. Cantor, compositor e multi-instrumentista de 33 anos, Bem se refere à carreira de Gilberto Gil, artista icônico da música brasileira e seu pai. A afirmação é o começo da justificativa que ele dá para a criação do projeto Refavela 40, show-homenagem aos 40 anos do disco Refavela, lançado em 1977 por Gil. Depois de estrear no ano passado no Circo Voador (RJ), o espetáculo musical chega a Fortaleza na próxima quinta, 26, na programação da Maloca Dragão.

Mesmo sem ”predileção”, Bem reconhece: “Tem coisas que te acompanham mais. Questão de contato, presença. Eu viajo muito – vivono Rio, mas trabalho muito em São Paulo – enão há uma viagem de carro que eu faça que não coloque esse disco pra tocar. Os arranjos, letras, a atmosfera... Tudo já está entranhado no meu imaginário”, aprofunda. Com o tempo, o músico foi reparando que compartilhava essa relação com amigos e parceiros musicais. Um deles, o baterista Thomas Harres, foi quem, “há uns 5 anos”, sugeriu inicialmente a ideia de um show com o repertório de Refavela. “Ele e outros amigos fundaram há uns 10 anos a AbayomyAfrobeat Orquestra, inspirada no ‘Feladay’, data que comemora anualmente o aniversário do FelaKuti”, contextualiza. Músico nigeriano falecido em 1997, Kuti foi uma das principais influências de Gil na produção do disco, que se concretizou após viagem que fez à Nigéria para participar de um evento voltado à diáspora negra. Nessa retomada de raízes, Gil e seus parceiros de banda criaram Refavela, disco que mistura influências africanas (jujumusic e reggae), brasileiras (blocos afro da Bahia e samba) e americanas (funk e blackmusic).

Na ocasião da sugestão de Thomas, a ideia não foi concretizada, mas Bem seguiu com aquilo na mente. Finalmente, em 2017, acompanhado de Thomas e outros parceiros (entre eles, Moreno Veloso, as cantoras Céu, Ana Cláudia Lomelino e Maíra Freitas), conseguiu realizar a homenagem ao disco. “Além de tudo, uma das coisas que me incentivou nessa ideia de montar o show é que, na época do lançamento, o Gil teve muita dificuldade pra organizar a turnê de divulgação do Refavela. Foi justamente nesse período que ele acabou mudando de gravadora, por falta de apoio nesse sentido. O Refavela 40 é uma possibilidade de fazer o disco (ao vivo) de uma maneira íntegra, completa”, afirma.

“Eu lembro que, na estreia do show, Caetano assistiu e celebrou muito aquilo estar acontecendo. Ele dividiu comigo o fato de que, na época, ele, com o lançamento do Bicho (1977), e o Gil (com Refavela) apanharam muito de parte da crítica especializada e também do público. Caetano teve as mesmas dificuldades para fazer shows. Na turnê do disco dele, Bicho Baile Show, convidou a Black Rio (banda carioca de blackmusicque começou em 1976), que é citada no disco do meu pai. Isso gerou certo conflito, porque falavam que o movimento black era supostamente americanizado. Agora, 40 anos depois, já entendendo a importância histórica de um disco como esse para a cultura, o público se abriu de maneira afetiva”, considera.

Nesse contexto, Bem defende que o show é mais uma celebração musical e cultural do que, propriamente, da carreira de Gil. “Eu sou parceiro do meu pai, venho colaborando com ele nos últimos 10 anos e vamos inclusive lançar um disco de inéditas no final de julho”, elenca. “Meu pai, assim como o Caetano, é ‘bola pra frente’. Eles não têm tempo nem espaço para ficar nesse sentido da celebração. (No show) a gente celebra a cultura africana”, afirma. Para Bem, a importância da retomada da negritude que Gil fez há 40 anos é a mesma que o show procura trazer hoje. “De certa maneira, é a mesma de antes e é a mesma que ainda teremos com esse tipo de abordagem daqui a tantos anos. Porque a gente vive num país grande, com uma sociedade majoritariamente conservadora. Há muitas questões problemáticas com a diversidade, o que gera preconceito e um buraco social entre a sociedade e os negros e sua cultura”, defende.

Recuperando uma memória da época das gravações do disco Kaya N’ganDaya (2002), no qual Gil fez versões e regravações de músicas do jamaicano Bob Marley, Bem lembra que, em uma entrevista, o pai foi questionado sobre a importância das letras e da figura de Marley como combatentes em prol de várias causas. “Ele respondeu: ‘Marley é uma figura importantíssima, mas o que me faz celebrar esse repertório é a música dele’. Em relação ao Refavela, a gente fala a mesma coisa. Os temas são importantes, contundentes, fundamentais para que a gente melhore em aspectos de conhecimento e reconhecimento da cultura negra, mas é a música que faz com que tenhamos esse afeto. O resto vem junto, mas é uma questão primariamente musical”, explica.



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in O Povo, 22.04.2018
 
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