A vibração de um peso leve

Gilberto Gil faz show pela Maloca Dragão e revisita, ao lado de Bem Gil, dentre outros músicos, o álbum “Refavela” (1977)

A passagem de Gilberto Gil pela Maloca Dragão trouxe um “peso leve” a essa edição do festival. A presença do guru da Tropicália na programação do megaevento se alinha com o tema da realização (as revoluções de maio de 68) e ao mesmo tempo anota a generosidade do medalhão da MPB.

Solicitado para conceder entrevista ao Caderno 3, Gilberto Gil cedeu a pauta ao filho Bem Gil, idealizador e diretor musical do espetáculo “Refavela 40”. Eles apresentam o show ao lado de Mestrinho, Moreno Veloso, Maíra Freitas, dentre outros músicos, nesta quinta (26), às 22h, pelo Palco Draga Dragão, no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (Praia de Iracema). O acesso é gratuito.

A Maloca Dragão estende sua programação, envolvendo diversas linguagens artísticas, até o próximo domingo (29). A apresentação revisita o repertório do álbum “Refavela 40”, lançado há 40 anos. Desde o ano passado, Gil & Cia estão em turnê pelo Brasil com o projeto. Segundo Bem Gil, o pai não participa do show durante 100% do tempo, mas entra em cena após a metade. “Refavela” embala uma inspiração que já tinha ajudado a gestar “Refazenda”, lançado dois anos antes.

Gilberto Gil costuma situar que estava envolvido em uma série de “res” (como revisitar, rever, retomar, revisar), e buscando compreender a cultura de suas raízes nordestinas e afrodescendentes.

Antes de gravar o álbum, ele esteve na África e participou do festival Festac, na Nigéria. Gilberto Gil viajou com o Caetano Veloso e outros músicos; e o grupo se hospedou em “pombais” (habitações construídas em comunidades carentes) semelhantes ao que ele via no processo de “favelização” do Rio de Janeiro.

O conceito do disco nasceu no retorno da viagem e Gil adentrou os estúdios da gravadora Phonogram para registrar o álbum. O trabalho se afinava, ainda, ao movimento Black Rio – e suas bandas influenciadas pelo funk norte-americano – e pelo balanço, em geral, da música negra.

Banda

No palco, os músicos de apoio são Bem Gil (guitarra), Bruno Di Lullo (baixo), Domenico Lancellotti e Thomas Harres (bateria e percussão); Thiagô de Oliveira e Mateus Aleluia (sopros); Nara Gil e Ana Cláudia Lomelino (vocais).

Bem Gil, idealizador e diretor do espetáculo, reforça que Gilberto Gil está envolvido na celebração como inspiração e, na prática, como uma participação especial. O medalhão foi um dos últimos a saber do projeto, conta o filho. E o repertório passou a ser dividido para a interpretação de quatro cantores: o próprio Gilberto Gil, Céu (que, em Fortaleza, dá lugar a Mestrinho; ela está de licença-maternidade), Moreno Veloso e Maíra Freitas.

“Naturalmente, eu formatei uma ideia que poderia acontecer sem a presença dele (no palco). Não é bem uma releitura: a gente vai interpretar o disco, sua atmosfera, aquelas ideias. Mas, pela completude da celebração, a gente sabia que a presença dele seria uma benção”, recapitula Bem Gil.

Bem enfatiza que o próprio pai sugeriu sair do Rio de Janeiro com o projeto. “A ideia inicial era fazer o show só no Circo Voador (RJ), no ano passado”, lembra o diretor.

Apelo

Embora seja enfático para observar como “Refavela” merecia essa homenagem, Bem Gil destaca que há outros álbuns, na discografia do pai, que são mais influentes na sua formação musical.

“Em relação à própria obra dele, não tenho nenhuma predileção. Quando ouvi o primeiro disco dele (‘Louvação’, 1967), tive vontade de aprender a tocar um instrumento, por exemplo”, recorda.

Ele pondera: “mas o ‘Refavela’, por conta mesmo das canções, da sonoridade do disco, da atmosfera toda, é um negócio bem universal. É como as musicas do Bob Marley”.

História

Um dado histórico, segundo Bem Gil, também justificaria a homenagem. Gilberto Gil não teria ficado satisfeito com a divulgação do álbum na época do lançamento. Indagado se o show faz o papel de “reapresentar” a obra ao público, o diretor percebe o apelo.

“Algumas músicas continuaram fazendo parte do repertório dele. O ‘Aqui e Agora’, ‘Babá Alapalá’, a faixa-título. Na minha adolescência, ‘Ilê Ayé’ ficou famosa na versão d’O Rappa. E agora, as pessoas podem conhecer a original. Da trilogia (“Realce”, “Refavela” e “Refazenda”, este o mais popular), é o disco que contextualiza mais a ideia que o Gil queria passar (na época)”, avalia Bem Gil.



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in Diário do Nordeste Online, 26.04.2018
 
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