Aos 75 anos, Gilberto Gil tem a chance de fazer perguntas em um novo programa de TV

Julio Maria

Mais de 50 anos respondendo a jornalistas podem ter ensinado Gilberto Gil algo que repórteres nem sempre dominam. A melhor resposta nem sempre vem depois de uma interrogação, mas de uma afirmação. Pergunta boa é pergunta curta. Não existe pergunta proibida, existe pergunta mal feita.

Gil então, pela primeira vez, vira entrevistador. A convite do Canal Brasil, ele grava onze episódios da série de entrevistas , com estreia prevista para 11 de setembro. Serão onze episódios com personalidades como Alex Atala, Juca Kfouri, Fernanda Torres, Maria Ribeiro e Renata Lo Prete. Antes de cada conversa, ele toca uma música. Algumas delas estarão no novo disco que o baiano vai lançar em julho.

O Estado acompanhou, na terça-feira (24), a gravação da entrevista de Gil com o médico cardiologista Roberto Kalil Filho (). Logo depois, Gil voltou ao papel no qual diz sentir-se bem mais à vontade: sentou-se à frente de um jornalista para responder.

Fazer perguntas pode ser uma grande chance que a vida lhe dá aos 75 anos. Você é um homem de muitas dúvidas?

Eu só tenho dúvidas, e, quanto mais a gente vive a vida, mais dúvidas surgem. Ainda que tenha dirimido várias, em seus lugares aparecem outras. Toda solução é um problema. Se passarmos a vida solucionando, imagina quantas novas interrogações vamos acumular? Quantos problemas resolvidos estarão virando novos problemas? A dúvida é eterna.

Você acabou de entrevistar o médico que esteve ao seu lado em um momento de saúde delicado. Essa experiência de estar na iminência da morte, de dialogar ao seu ouvido, fez mudar algo na sua falta de crença em Deus?

Eu ainda acredito que Deus é uma criação dos homens. O homem inventou Deus para que ele próprio tivesse a possibilidade de ter sido criado por algo, uma tentativa de decifração sobre sua existência. Deus é um reflexo. O homem criando seu inventor, seu criador. Deus é um criador criado pelo homem.

Você não rezou nenhuma vez, mesmo pisando no limite da vida?

Mas eu também rezo! E admito a tentativa de interlocução com instâncias distantes da minha própria compreensão. Eu admito pedir. Tem uma música em que falo algo esclarecedor sobre isso (): “Mesmo a quem não tem fé, a fé costuma acompanhar”. Somos todos condenados à liberdade, e essa liberdade é a fé. Não é a crença, não é acreditar em algo, mas é perceber que algo sempre se manifesta, obrigando você a esse deslocamento da liberdade. Mesmo que você não queira, está produzindo esse instante seguinte na sua vida.

Um outro assunto: houve toda uma linha sucessória no Ministério da Cultura desde sua passagem por lá, e percebe-se cada vez mais um distanciamento das propostas de se entender cultura de forma mais ampla, como os investimentos em economia criativa. O que sente quando percebe o que aconteceu nos últimos anos do Ministério?

Aquela excelência, aquela condição especial de entendimento da cultura e da gestão do papel do Estado é uma coisa que teve seu ciclo. Poderia ter sido prolongado se um perfil parecido com o meu tivesse vindo, se um governo como o que eu servia tivesse vindo, mas essas coisas são cíclicas, e aquele ciclo acabou.

Você teve contato com Lula depois da prisão?

Acho que ninguém ainda teve. Lula é um político que foi preso por força de um inquérito, que se tornou um processo e que o levou à condenação. E, ao mesmo tempo, é um preso político por uma série de aspectos propriamente políticos envolvidos nas formas com que os atos foram feitos para encaminhar essa condenação. Lula é um político preso e um preso político.

Você foi um preso político.

Sim, por isso estou falando com conhecimento. Lula está lá por professar as ideias que professa, por ser quem é, por contrariar uma série de propósitos e expectativas assentadas na vida política do País.

João Gilberto. O homem mais importante da música brasileira vive um drama em meio a uma família rompida, trancado em seu próprio apartamento. Há algo a ser fazer?

Eu sinto uma consternação enorme, porque sei da verdade que é essa dimensão reclusa do João, o quanto isso faz parte de uma escolha, de um modo de vida. Ele está lá para se preservar e preservar o mundo ao seu redor. João não quer atrapalhar o mundo!

Acha que ele tem essa consciência?

Sim! Para João, qualquer acréscimo de atrito, de ruído, já pode ser além da dose. João é um homem de quietude, de muita meditação.

Faria algo por ele?

Não, a não ser ligando, batendo na porta, mandando recado por quem tem acesso...

Vi você tocando Refavela com a família toda unida no palco e lembrei de João, com filhos e pessoas próximas que nem se falam. Seria tudo isso fruto do que diz Caetano, “o dinheiro que ergue e destrói coisas belas”?

Não vi o dinheiro construindo nada muito relevante na vida do João. Não se trata de dinheiro aquilo. Ali é vida, é postura, afeto. O que precisa ser preservado é a forma como João se vê e como ele vê o mundo.

‘Entrevistador’ leva anotações e se sai bem no improviso

Gil veio até São Paulo para gravar a entrevista com o médico que cuida de sua saúde há 30 anos, Roberto Kalil Filho. Logo depois, seguiu para outro endereço, onde o aguardava o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso para o registro de um episódio em que não falariam de política, mas de descriminalização da maconha. Como um repórter, tem dentre as pautas o tema cultura africana para ser abordado com Lázaro Ramos; vida e morte com Dráuzio Varella (o papo foi tão bom que deve virar não um, mas dois programas); e família e legado com Caetano Veloso.

O programa que estreia no dia 11 de setembro tem direção de Letícia Muhana e Patrícia Guimarães, produção da Gegê Produções, direção de produção de Flora Gil e direção musical do filho Bem Gil. Serão ao final onze episódios do programa do Canal Brasil que, pela sacada sensacional de ter Gil no papel de entrevistador, deve fazer inveja a outros canais.

Gil vem preparado com perguntas previamente anotadas em uma folha que segura discretamente. Mas é do calor das respostas que saem suas melhores indagações. “O poder faz mal ao coração?”, pergunta, depois de dizer que o médico tem pacientes políticos muito poderosos. “Música faz bem ao coração?”, quer saber, e ouve uma resposta surpreendente do médico que diz que nunca gostou de música até o dia em que passou a ter aulas de saxofone.

À frente de Kalil, ele começa um pouco reverencial demais, um crime protocolar se fosse jornalista. Antes da conversa, toca para Kalil uma canção com o nome do doutor, composta em dias de internação e que vai estar em seu próximo disco, a ser lançado em julho. A letra mostra um outro Gil, de discurso mais direto e menos reflexivo. Kalil, a canção, não vai estar jamais entre suas obras-primas, mas deve ser entendida como a cota que se concede a um artista que pode se dar ao luxo de pagar uma conta com sua consciência: “Gente competente no Brasil, doutor Roberto Kalil/ o doutor já tratou presidente, senador e tanta gente que a gente nem sabe quem / vem fazendo sempre a sua parte promovendo a sua arte, medicina para o bem / E se o paciente diz que dói, que dói / o doutor resolve ser super-herói / é Batman lutando contra a superbactéria / que afinal ele pega, mata e destrói.”



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in O Estado de São Paulo, 29.04.2018
 
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