RFI Convida Gilberto Gil

Nina Santos

Em passagem por Paris para participar da 17ª edição da Lavagem da Madeleine, o cantor Gilberto Gil destacou a importância da influência africana e das migrações no mundo. Ele comentou que “as ex-colônias vêm trazendo uma resignificação de várias coisas na Europa. Nós estamos vendo a seleção francesa de futebol, toda ela praticamente afro-francesa”.

Sobre as atuais ondas migratórias, Gil comentou que “os africanos estão se aventurando pelo mar, com seus barcos afundando, morrendo com seus filhos para vir aqui buscar uma possibilidade neste mundo que já está mais consolidado do ponto de vista econômico e social, que já oferece mais estabilidade”. As declarações foram feitas em um momento em que a Europa rediscute sua política migratória e estuda a criação de novas medidas para controlar a chegada de migrantes.

Gil alerta para o perigo da xenofobia

Gil, que está em turnê na Europa com o show Refavela 40, comemorando as quatro décadas do álbum lançado em 1977, vê esse disco como um testemunho do papel de destaque da África na formação de diversos países. “Refavela é um disco que vive comigo. Ele anda comigo a vida toda porque é o disco do meu testemunho profundo sobre a importância da África para mundo e para o Brasil. Refavela é uma dimensão socio-antropológica que me segue, eu carrego comigo até hoje e vou carregar até o fim da minha vida”. Ele destaca a relevância do que chama de civilização africana não só na miscigenação dos povos, mas também na cultura, na formação social, no trabalho, nos campos simbólicos, no esporte e alerta para o perigo da xenofobia.

O cantor contou que a ideia desse show comemorativo foi de seu filho Bem, que convidou artistas jovens para fazer essa “revisita” ao disco. Ele também comentou a coincidência de Ziggy Marley, filho de Bob Marley, ter proposto uma releitura de um álbum do pai. Gil se referia ao disco Exodus, gravado por Bob Marley em 1977, que foi relançado por seu filho em 2017.

No Brasil, há retrocessos e vontade de avançar

Perguntado sobre as violações aos direitos humanos no Brasil, o cantor avalia que tanto a intolerância racial, quanto a social cresceram muito nos últimos tempos. Para ele, “todo conjunto progressista da sociedade tem que estar atento aos retrocessos que começam a ocorrer e ameaçam a democracia e a pluralidade”. Gil permanece, no entanto, otimista e considera que entre os “retrocessos em relação a avanços que já haviam sido obtidos” há uma vontade geral de avançar. “Avançar em relação a comportamentos, costumes, na fruição da riqueza material e simbólica, principalmente a riqueza simbólica”, destaca ele.

O cantor também comentou sua passagem pelo Ministério da Cultura, enquanto ministro dos governos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele qualificou a experiência como “divertida ao mesmo tempo que difícil. Me deu muita preocupação e muito trabalho, mas acho que conseguimos agregar alguma riqueza à concepção de uma dimensão cultural do Brasil”. Gil declarou que seu trabalho enquanto ministro era bastante diferente daquele nos palcos, mas ressaltou que “a gestão pública e a política devem ser também formas de arte. Eu fazia o tempo todo a junção das duas coisas”.

Eu sou da Bahia

À pergunta sobre quais as influências africanas na sua vida e no seu cotidiano, Gil não hesita: “Eu sou da Bahia, não é? De Salvador, uma cidade muito africana, com heranças importantíssimas da África no plano da religião, da cultura. Então, não dá pra alguém como eu viver longe desse mundo afro-brasileiro”.



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in UOL, 02.07.2018
 
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