Gilberto Gil lança álbum e diz ter haters por passado como ministro e 'pelo fato de ser artista negro'

Cantor e compositor fala sobre política e de reações da internet ('me mataram duas vezes'). Ele comenta o novo álbum 'Ok, ok, ok' e programa no Canal Brasil.

"Pense na morte todo os dias". O conselho, dado ainda na década de 1960 pelo músico e compositor suíço radicado na Bahia, Walter Smetak, se transformou em companheiro diário de Gilberto Gil - ensinamento que ficou ainda mais agudo nos últimos dois anos, quando complicações renais o levaram a sucessivas internações nos últimos dois anos.

A meditação constante sobre o fim da vida, o período de tratamento, uma série de homenagens - inclusive aos médicos que cuidaram de sua saúde - e reflexões acerca do momento político brasileiro, marcado por polarizações e radicalizações, formam a base de "Ok, ok, ok", álbum lançado pelo cantor e compositor na noite desta quinta-feira (9).

O disco, que chega ao mercado via Biscoito Fino, é produzido por Bem Gil, quinto filho do artista.

“O disco é uma soma de tudo o que aconteceu comigo e dos processos pelos quais passei nos últimos dois anos. As letras refletem bem tudo isso”.

O lançamento foi feito em conjunto à apresentação de "Amigos, sons e palavras", série de 11 programas a serem exibidos pelo Canal Brasil nos quais Gil conversará com convidados como Fernando Henrique Cardoso, Alex Atala e Renata Loprete.

O encontro inicial, cuja exibição será no próximo dia 21, vai ser com Caetano Veloso. Durante a conversa, pensamentos sobre paternidade, música e, é claro, política.

"Essa questão de dar pitacos sobre posicionamentos com os quais eu me alinho ou não me alinho já é uma coisa que vem de muito tempo na minha vida e muito por uma questão geracional - pertenço a uma geração que foi obrigada a fazer isso, muito por ímpeto espontâneo, muito por responsabilidades sociais”, ponderou.

Posicionamentos que, muitas vezes, custam ataques vindos das redes sociais.

“Sou muito amaldiçoado ali. Quando estive internado, boatos que correram na internet me mataram duas vezes”, relembrou, em tom de brincadeira.

Questionado se o fato de ter sido ministro da Cultura entre 2003 e 2008 – quando Lula era presidente do Brasil – seria um dos fatores que motivariam tanto ódio no ambiente virtual, Gil minimiza.

“Não gostam de mim por vários motivos. Talvez esse seja um deles... Ou também pelo fato de eu ser um artista negro”.

A associação da imagem de Gil a Lula foi reforçada no último dia 29 de julho, quando ele e Chico Buarque participaram do Festival Lula Livre, na Lapa, evento que pede a libertação do líder petista, preso desde o dia 7 de abril em Curitiba, onde cumpre pena de 12 anos e um mês de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

Na ocasião, ambos cantaram “Cálice”, canção escrita pelos dois artistas e censurada pela ditadura militar em 1973 – na ocasião, foram impedidos de executá-la no festival Phono 73, no Anhembi, em São Paulo. Foi a primeira vez em 45 anos que ambos cantaram a composição juntos.

“Fui ao festival por uma questão de defesa dos direitos democráticos, de manifestação plena, de uso da palavra e da opinião. Não estava li defendendo a candidatura do Lula. Se ele fosse candidato, eu nem necessariamente votaria nele. Talvez votasse na Marina (Silva, candidata da Rede), em quem já votei duas vezes”.



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in G1, 10.08.2018
 
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