Crítica: 'OK OK OK' é variado e transcorre em uma mesma pulsação, a do coração de Gil

Com instrumental reduzido, disco é tomado por delicadeza e a placidez

RIO — O rosto que mal cabe na moldura da capa dá uma ideia de por onde transita Gilberto Gil em “OK OK OK”: os espaços íntimos — da casa para dentro, e tão para dentro que ele chega ao interior do próprio corpo. A memória de um Gil para fora, em uma linha constante de novidades elétricas e rítmicas que vai de “Realce” (1979) a “Parabolicamará” (1991) — ou “Fé na festa” (último de inéditas, de 2010) —, terá que se confrontar agora com a de um Gil mais esparso, reservado, que guarda suas palavras para quando tem o que dizer. Ou então, para quando tem o que não dizer, como é o caso da faixa-título, que abre o disco, com certa gravidade, a avisar o ouvinte o que ele pode esperar da viagem: “Meu papo reto sai sobre patins / a deslizar sobre os alvos e as metas.”

A delicadeza e a placidez dão o tom do disco. Mesmo nas músicas que clamam para a dança, como “Na real”, “Tartaruguê” e o dub “Na internet 2” — com as quais o produtor Liminha faria com suas máquinas a festa nas pistas FMs nos anos 1980 —, o tratamento musical dado por Bem Gil é no sentido de evitar a explosão. Para o rock que é, “Ouço” sai contido, mas ainda assim consegue transmitir a sua mensagem com vibração. “OK OK OK” é um disco variado, mas com instrumental reduzido, que transcorre todo ele em uma mesma pulsação: a do coração de Gil.

Filhos, netos e bisneta são as inspiração para “Sereno” e a terna “Sol de Maria”. O círculo mais próximo é cantado nominalmente por ele em “Lia e Deia” (para Maria Ribeiro e Andréia Sadi), “Yamandu” e “Jacintho” (das mais belas entre suas elocubrações recentes sobre a mortalidade). Já as intervenções em seu corpo por razões médicas são recriadas em poesia em “Quatro pedacinhos” (“ela mandou arrancar quatro pedacinhos do meu coração / depois mandou examinar os quatro pedacinhos”) e, como gaiato jingle à la Tom Zé, em “Kalil”. Aliás, jingle também não deixa de ser “Pela internet 2”, atualização de canção de 21 anos atrás, que agora faz graças como rimar Arnaldo Antunes com iTunes.

Está tudo bem com Gilberto Gil. Pode ser que em outros discos a pena o tivesse agraciado com material mais elaborado, substancial. Mas num momento em que “palavras dizem sim, os fatos dizem não”, talvez seja mais sábio mergulhar no mundo lúdico de “Tartaruguê” ou simplesmente celebrar o feminino, de forma despretensiosa, ao lado de João Donato, em “Uma coisa bonitinha”.



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in O Globo, 11.08.2018
 
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