Havia uma urgência de estar junto de Gil, de devorá-lo, diz Maria Ribeiro

Homenageada com canção, atriz e escritora fala de sua relação com (e de sua admiração por) Gil

RIO — Eu já nem lembrava mais. Dos pedacinhos arrancados. Do coração dele, que não é só dele. Que já virou de tanta gente. Mas enfim. Os pedacinhos. Não é que eu não lembrasse. É que, na época — metade de 2016 — ainda não éramos vizinhos, e seria muita ousadia chamá-lo de amigo. Nos encontrávamos com alguma frequência na famosa, e agora mítica, laje do Moreno, o Jorge Bastos, mas ele era, como continua sendo, o Gilberto Gil, e isso com tudo maiúsculo, um nome-museu. De modo que a minha capacidade de falar coisas inteligentes e engraçadas ficava sempre severamente prejudicada. Isso sem falar nas pernas bambas e nas mãos inseguras. “Domingo no parque” tocando aqui.

Um dia, Moreno me ligou dando bronca: precisamos aproveitar o Ministro, você pare de faltar às feijoadas. “O Ministro” — era assim que ele chamava nosso tropicalista — “está abatido, e vai acabar me trocando pelo Kalil e pela Roberta, de tanto que tem ido ao Sírio-Libanês; preciso contar com meu time completo, Maria. É uma ordem, venha.” Kalil e Roberta, os médicos que estavam cuidando do cantor e compositor naqueles meses, já haviam virado personagens importantes das nossas rodas de bullying amoroso comandadas pelo anfitrião e por João Vicente de Castro. A gente não sabia muito bem do que o Gil andava se tratando em São Paulo, mas havia uma certa apreensão no ar, uma urgência de estar junto, uma ânsia de devorá-lo, à la Caetano antropofágico. “Copo vazio” tocando aqui.

O fato é que fomos tomados por uma euforia Gilbertiana — Gilbertiana, de Gilberto, e não de João, por motivos óbvios — e a dupla Moreno-Gil passou a dominar todos os encontros da nossa turma. De carnaval a dia do marceneiro, tudo era motivo pra ficar junto e comer a farofa da Carlucia. O pessoal do Sírio entrou pra gangue, e ganhou até música, justamente essa, dos pedacinhos do coração, uma biópsia transformada em poesia, que investiga proteínas, amor e medo com a mesma dedicação, num disco com pegada de primeira obra, tamanha a lua de mel com a vida. “Maracatu atômico” no volume máximo.

Gil tinha ficado bom. Bom, não, incrível. E logo tava a mil. Trabalhando sem parar. Compondo. Viajando. Tendo neto. Tocando com Gal e Nando Reis, com a família inteira. Pra ser sincera, não fosse o período de internação ter virado música, eu nem saberia há quanto tempo isso foi. Isso, do telefonema do Moreno. Moreno, que nos deixou há um ano e dois meses, e que só fazia se gabar por ter colaborado com uma letra do Ministro. “Para a nossa musa Roberta Sá”, ele dizia, sabendo que me provocaria ciúmes.

Ok, ok, ok, eu diria pro meu amigo jornalista. Prometo que vou ser menos passional. Vamos almoçar domingo na casa da Flora? Vamos cantar “Sandra” com o José fazendo o coro do jeito que só ele sabe fazer? Vamos continuar nos aproveitando assim pra sempre? Aqui tá tocando Cazuza, e quem tá tocando é o Gilberto, esse rapaz que apareceu agora. A música? “Pro dia nascer feliz”.



twitter
in O Globo, 11.08.2018
 
2992 registros:  |< < 1 2 3 4 5 6 7 8 > >|